domingo, 13 de agosto de 2006

JJ e o Xerife Wayne

JERUSALEM JONES - XERIFE WAYNE


"Algo me diz que não devo entrar nessa cidade", pensou Jerusalem Jones ao ver, pendurado na árvore diante dele, o que parecia ser o xerife daquele lugar. Olhando aquilo, ele calculava o quanto as coisas poderiam estar ruins nesta cidadezinha, se até o xerife acabara enforcado e colocado, é óbvio, na entrada dela como um sinistro aviso de que ninguém que entrasse ali deveria enfrentar a "autoridade" dos bandidos que tomaram conta do lugar.

"É meu camarada pendurado, acho que vou acatar seu aviso silencioso e dar meia-volta. Antes, porém, vou levar sua estrela de xerife, como recordação desse nosso infeliz encontro". Jerusalem Jones se aproximou e se pôs em pé no cavalo, puxando então a estrela do falecido xerife. Lustrou-a em sua camisa, e resolveu experimentar, para ver como ele ficaria de xerife, coisa que nunca iria acontecer. Quando fixou a estrela em sua camisa, Jerusalem sentiu um vento seco, que ele não soube de onde vinha, uma voz em sua cabeça... e apagou.

O xerife Wayne olhou seu corpo balançando tristemente na árvore à sua frente. As coisas saíram tão erradas quanto possível. Sua vida de xerife era tranquila na pequena Badland City. Apesar do nome, era uma boa cidade, até a chegada de Zedediah Smith e seu bando. Na verdade, apenas um amontoado de foragidos que ele resolvera liderar. Os dias em Badland foram difíceis desde então, e uma verdadeira guerra se travou para que se expulsasse aqueles assassinos. Wayne e seus dois assistentes, mais alguns homens da cidade (e até mesmo Verona, a jovem esposa de Wayne), eram a linha de frente de Badland.

A guerra durou vários dias e houve baixa dos dois lados. Mas Wayne acreditava na justiça, como seu pai lhe ensinara. Acreditou até o momento que se viu pendurado em uma árvore, como se fosse o mais baixo dos criminosos. Tudo porque ele já estava prestes a expulsar Zed Smith e seus dois únicos amigos sobreviventes. Então algo deu errado, ele só não sabia o que. Mas, Wayne estava de volta uma última vez para consertar isso. Sua estrela de xerife era sua autoridade, e ela estava de volta ao seu peito, mesmo que não literalmente.

Wayne entrou na cidade que havia sido feita refém de três imbecis que mal sabiam falar. Estavam no Saloon, onde mantinham a cidade sob o domínio do medo (Wayne sorriu pensando em como aquela frase final daria um bom título de um livro). Wayne ainda conseguia sorrir, apesar de tudo. Calvalgando o cavalo e o corpo de outra pessoa, Wayne se aproximou do Saloon onde, ele sabia, Verona e outras mulheres da cidade haviam sido obrigadas a servir a Zed e os seus, de todas as formas. Wayne rangeu os dentes, saltou do cavalo e entrou no saloon:

- Posso saber quem é você? - Perguntou Zed?
- Meu nome é Jerusalem Jones. Algum problema?
- Nenhum, a não ser essa estrela no seu peito e suas armas que eu pediria que deixasse com o meu amigo barman - Zed se referia a um de seus capangas sobreviventes que sorria mostrando os dois dentes que restavam-lhe.
- Você é o xerife da cidade? - Perguntou Wayne
- Pode-se dizer que sim. E você, pode me dizer onde conseguiu essa estrela? Bem se vê que você não é nem nunca foi xerife - Zed falava apontando a arma para Wayne, mesmo depois deste ter entregue as suas. Ele não via Verona por perto. Isso o preocupava.
- A estrela... é uma lembrança.
- Lembrança? Lembrança do que ou de quem? - Perguntou Zed rindo para o outro capanga sentado com ele à mesa, também armado.
- Uma lembrança de quem é a lei em Badland City.

Wayne sentiu Zed retesar o corpo, e reconhecer algo na voz de Jerusalem Jones. Bastou esse momento de espanto de Zed, para que Wayne puxasse uma faca da bota de Jerusalem Jones e enfiasse na mão do "barman" que, distraído com a conversa, não recolhera suas armas do balcão. Wayne pulou para trás do balcão, já pegando as armas. O tiroteio começou antes mesmo dele aterrisar do outro lado. O "barman" foi atingido sem dó nem piedade. Wayne notou que todo mundo que estava ali contra a vontade aproveitou para se mandar ou se proteger. Eram apenas ele, Zed e o único capanga restante.

Wayne sabia que eles eram burros o suficiente para estarem atirando sem se protegerem. E, melhor ainda, eles estavam atirando na bancada, e vindo na direção de Wayne acreditando que este não se exporia, por estar em desvantagem numérica. Os dois atiravam frenéticamente contra a parte inferior do balcão, onde Wayne estava logo atrás, sem se darem conta de que esta fora construída para suportar esse tipo de incoveniente. Estavam tão furiosos que não notavam que as balas não vazavam, realmente, a madeira. Acreditavam piamente que do outro lado, Wayne já estava morto, ou no mínimo ferido mortalmente. Quando Wayne, sentiu que as balas acabaram, e que eles estavam sobre o balcão, ele fez o impensável.

- Eu me rendo!!!! - Gritou Wayne
- Quê? Esse filho da mãe está vivo?

Wayne se levantou sob a mira de Zed e seu capanga. Wayne colocou suas armas novamente sobre o balcão.

- Creio que essa estrela pertence a vocês? - Disse Wayne, lentamente levando a mão à estrela para entregar a Zed.
- Que pensa que está fazendo? Eu já estou cansado de você! - Disse Zed engatilhando.

Wayne arrancou a estrela de seu próprio peito e cravou no peito de Zed, que disparou, no susto, acertando o ombro de Wayne. "Merda, contei errado", pensou Wayne e Jerusalem Jones caiu. Zed olhou para seu parceiro, pegou a arma em cima do balcão, apontou para a cabeça dele, e atirou. Wayne estava no corpo de Zed agora.

Wayne no corpo de Zed foi ao outro lado do balcão. Seu "parceiro" estava caído no chão. A bala só passara de raspão. Wayne não sabia se ele estava desmaiado pelo susto, ou pela súbita saída sua de seu corpo. Mas tudo indicava que ele ficaria bem. Só precisava de um curativo. Antes Wayne precisava encontrar Verona e se despedir. Ele precisava fazer isso, mesmo que fosse ali, no corpo de Zed.

Quando se levantou Wayne viu que, no alto da escada, escondida, Verona observava assustada e chorando a todo os acontecimentos. Ele largou as armas, fazendo um gesto de que estava sem mais nenhuma arma e disse:

- V-verona... não se assuste! - Quando disse isso, Verona deu um grito e correu... correu para os braços de Wayne.
- Eu sabia... eu sabia...sabia que você conseguiria, meu amor... - Dizia Verona cheia de paixão!
- Então você sabe? Você consegue me ver?
- Claro, meu amor! Claro, Zed! - (música de suspense!)
- O quê?!
- Graças a Deus você escapou. Pensei que depois de tudo que passamos para nos livrar do Wayne, você ia morrer pelas mãos desse fracassado. Já bastava de eu viver nessa cidadezinha com um xerife caipira, sem perspectiva de uma vida melhor. Quando nos encontramos sem que Wayne soubesse e você me contou sobre tudo que poderíamos ter juntos, eu arrisquei tudo dopando Wayne e entregando el... - Um tiro interrompeu Verona. Um buraco fora aberto ao lado de sua cabeça. Os olhos brilhantes, vidrados em Wayne, se apagaram.

Wayne achou engraçado que a única coisa que lhe viesse a cabeça, naquele instante, fosse se matar, mesmo já estando morto. Apontou o revólver para sua cabeça, para a cabeça de Zed e aper... "Não. Eu posso fazer melhor", pensou Wayne. Foi até o balcão e procurou uma faca bem amolada. A mais amolada que ele pudesse encontrar. Pegou um pano, enrolou e pôs na boca. Ele tinha todo o tempo e privacidade do mundo. As pessoas estavam bem longe do saloon, em suas casas, com medo e esperando aquilo tudo terminar.

Wayne sentou o corpo de Zed, no qual estava dentro, numa cadeira. Abriu a calça de Zed e puxou para fora o bem de Zed mais precioso. A dor, naquele momento, quem sentiria era Wayne. Mas só naquele momento. Colocou a faca bem no talo, fechou os olhos e, com toda a raiva que Wayne sentia, cortou fora!

Wayne quase desmaiou. Ficou zonzo de dor. Mas fez de tudo pra manter-se acordado. Sangrando e segurando a "jóia" de Zed, se aproximou da porta e jogou para alguns cães que estavam por perto.

"Lúcido. Preciso ficar... lúcido e terminar isso". Wayne foi até Jerusalem Jones, arrancou a estrela de seu peito, da camisa de Zed, e a colocou de volta em Jerusalem Jones. Nesta hora, Zed caiu desacordado. Wayne levantou, agora de volta ao corpo de Jerusalem Jones. Por um prazer mórbido, Wayne juntou o corpo morto de Verona ao de Zed, desacordado, como se fossem um lindo casal. Wayne colocou a faca na mão de Verona, e foi embora.

Foi até onde seu corpo estava pendurado, retirou-o e deu a si mesmo um enterro decente. Antes de ir, tirou a estrela do peito e jogou sobre sua cova. Jerusalem Jones bambeou um pouco, mas não caiu. Porém, não conseguiu evitar de vomitar, sem saber o porque. Viu a cova, a estrela sobre ela, e viu árvore sem o corpo. Sentiu um calafrio e resolveu não se fazer muitas perguntas, e apenas ir embora dali sem levar nada.

Quando montou em seu cavalo e estava se preparando para partir, Jerusalem Jones ouviu um grito pavoroso vindo da cidade. O grito de alguém que parecia ter pedido a própria alma ou, quem sabe, mais que isso.


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