sábado, 5 de agosto de 2006

JJ Vivo ou Morto

JERUSALÉM JONES - VIVO OU MORTO


Jerusalem Jones nem podia acreditar que um dia isso pudesse acontecer mas, sim, ele estava casando. Apenas Jenny Eckhart conseguiu mudar a cabeça de Jerusalem quanto ao casamento. Os dois se conheciam desde a infância e foram namorados por muito tempo, até que Jerusalem decidiu não criar mais raízes em um só lugar e, com a morte banal de seu pai, resolveu virar um pária, um nômade sem destino. Jenny aceitou bem a coisa toda, depois de dar-lhe um belo soco cara adentro. Fez um discurso sobre compromisso, responsabilidades, infantilidades e tudo mais. Parecia que estava concorrendo a algum cargo político. Jerusalem apenas montou em seu cavalo e disse que ia "viver a vida". Jenny apenas viu a poeira levar aquele desgraçado que ela tanto amava.

Mas, depois de viver muita coisa estranha em sua vida, Jerusalem Jones acabou reencontrando a mulher que nunca deixou de amar. Jenny era agora víuva. Fora casada com um tenente que morreu na Guerra Civil. Jerusalem dava graças a Deus que eles não tiveram filhos, pois não estava a fim de cuidar da cria dos outros. Para que Jenny o aceitasse de volta em sua vida, ele teve de pedi-la em casamento. Jenny EckHart aceitou se tornar a Sra. Jones, Jenny Jones. Jerusalem brincou que podiam colocar o nome do filho que tivessem de James e assim seria jota para tudo quanto é lado.

A cerimônia foi simples, na igreja da cidade onde agora Jenny morava e onde Jerusalem ia se estabelecer e ter uma vida pacífica. Na igreja estavam os pais de Jenny e a mãe de Jerusalem Jones, a qual ele foi buscar. Parecia cansada, mas estava feliz. Alguns poucos convidados davam ao casamento uma certa importância que Jerusalem nunca pensou que seu casamento poderia ter.

A cerimônia começou e o padre fez tudo como manda o figurino e, enfim, disse:

- Eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva agora.

Jerusalem abraça Jenny, e aproxima sua boca dos lábios dela, fecha os olhos e tasca um beijo de recém-casado em sua recém-esposa, e sente o quão macios são seus lábios, saborosos por assim dizer. De repente Jerusalem Jones escuta gritos horrorizados dentro da igreja. Quando abre os olhos vê que, sem saber porque, ele arrancou um pedaço da boca de Jenny e sente o gosto da carne dela em sua boca... e ele gosta disso. Jenny desmaiou em seus braços e sangra muito. Jerusalem olha para os convidados e o pai de Jenny saca de sua arma e a descarrega sobre Jerusalem, que apenas recua para trás com o impacto das balas. Mas não morre.

Uma algazarra toma conta da igreja. O padre saiu em fuga pela porta de trás. As pessoas correm e gritam, tentando sair da igreja. A mãe de Jerusalem Jones continua sentada, olhando para ele sem nada entender. O sangue pinga pela boca de Jerusalem Jones, que sente apenas que quer mais. O pai de Jenny descarrega sua arma e Jerusalem apenas o observa, sem entender porque ele mesmo não morre. Quando o velho se prepara para recarregar sua arma, Jerusalem dá um salto incrível e crava seus dentes no seu pescoço, arrancando um pedaço grande de carne. O sangue espirra em seu rosto , deixando-o com um aspecto demoníaco. O velho não é mais problema. Está morto. Mas Jerusalem tem fome de pessoas. Pessoas vivas.

A única pessoa que ainda restou no recinto é sua mãe, que o olha com um ar estupefato, mas ao mesmo tempo de piedade. Jerusalem não está mais consciente do que faz ou deixa de fazer e vai na direção dela. Ela não se move. Ele não se pergunta porque. Ele apenas tem fome. Uma fome que o consome por dentro, e que apenas carne humana pode saciar. Quando está para cometer o impensável, ele ouve um grito. É o padre, que voltou.

Está com uma haste de ferro na mão. Parece um ferro de marcar gado ou algo assim. Grita para Jerusalem Jones algo que ele não entende. Parece língua indígena. Mas ao fazer aquilo, Jerusalem não consegue mais se mover, nem sair do lugar. O padre começa uma cantoria estranha, e começa a dançar como um velho índio. Jerusalem sente uma coceira infernal no pescoço. O padre usa a parte do marcador de gado que é pontuda, e enfia na cabeça de Jenny, estendida no chão. Faz o mesmo com o velho pai dela.

Ao se aproximar de onde está Jerusalem e sua mãe, o padre apenas aponta a porta, para ela, com um movimento da cabeça. Ela se vai. Olhando para Jerusalem frente a frente, o padre diz com um sotaque indígena pesado:

- Agora sou eu e homem branco, e mais ninguém. - E enfia o marcador de gado, em brasa, no pescoço de Jerusalem Jones, que sem poder se mexer, apenas grita. Grita muito. E desmaia.

... ... ...

Jerusalem Jones abre os olhos, sentindo como se tivesse dormido por uns dez anos. Logo se dá conta que está amarrado a uma espécie de tronco. Seus braços e pernas imobilizados e seu corpo preso. Sente uma coceira desgraçada no pescoço, mas não pode coçar. Sente, no entanto, que é uma coceira diferente da que vinha tendo por causa da mordida de Betina.

Adiante dele, fazendo café em uma pequena fogueira, está Bufalo Pequeno, a quem ele pergunta:

- O quê... o quê aconteceu, Traseiro Pelado? Por que tô amarrado aqui, como um peru de natal?
- Não lembra mais, Jones? Nossa, foram quatro dias e quatro noites de arrepiar, meu amigo. Provavelmente eu vou ter pesadelos com isso pelo resto da minha vida e mesmo depois que eu partir para os Grandes Pastos Celestiais.
- Quatro dias e quatro noites?!
- Sim, depois que saimos de Candace Falls City, consegui convencê-lo a deixar meu avô cuidar de você e tentar impedir que você se transformasse em uma daquelas coisas. Fiquei aqui para ajudar ele a cuidar de você. A sua ferida no pescoço já tinha aumentado demais e o único jeito foi usar um ferro em brasa para cicatrizá-la. Claro que não deu pra fazer isso apenas uma vez só. A ferida era tão persistente quanto você. Por umas três vezes você quase conseguiu me morder enquanto eu cuidava dela. Depois que o vovô conseguiu fazer com que você apagasse, ele tratou de usar todo tipo de erva que ele conhecia. Ele colocou sobre a ferida, mas não dava pra fazer você beber. Então ele fez uma pasta, embrulhou em folhas e enrolou até ficar bem pequena e, entenda, Jones... era isso, ou você teria virado um daqueles bichos vivo-morto.
- Era isso o quê, Bufalo Pequeno?
-Ahahahaha, lembrou meu nome, não é.
- Era isso o que, Búfalo Pequeno?
- Cara, você tem sorte de meu avô gostar muito de mim. Ele não faria isso por qualquer um.
- DO QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FALANDO, BÚFALO PEQUENO?!
- É isso mesmo que você está pensando, ele enfiou a erva pelo seu cu adentro, meu amigo sortudo!

Jerusalem Jones xingou toda a geração de Búfalo Pequeno. Xingou, esperneou amarrado. Esperneou até não poder mais. Depois que se acalmou, fez Búfalo Pequeno prometer por tudo que era mais sagrado para ele, que essa história nunca sairia dali, ou ele arrancaria seu pescoço a dentadas, mesmo sem sentir a mínima vontade de comer carne humana. Búfalo Pequeno disse que sim, que estava tudo bem, ele sabia que no fundo (e quando disse no fundo, soltou uma gargalhada), aquilo não valia a pena ser contado.

Depois de perguntar várias vezes se ele estava realmente calmo, Búfalo Pequeno o soltou do tronco. Jerusalem Jones deixou de lado a parte humilhante e se sentiu agradecido por estar vivo e bem:

- Onde está seu avô, queria agradecer-lhe.
- Ele já foi, não sabia qual seria sua reação quando eu contasse. Heheheheheeh. Tô brincando. Ele foi descansar na aldeia. Foi muito cansativo para ele. Ele me dizia que era feitiçaria de homem branco o que você tinha. Coisa que ele pouco conhecia, mas ele fez de tudo e parece que conseguiu te salvar. A ferida do pescoço já quase sumiu. Aliás, me responde uma coisa: quam diabos é Jenny Eckhart? Você falou muito nela, enquanto delirava.
- Era... alguém do meu passado. Obrigado por tudo, Búfalo Pequeno. Te devo essa, mesmo tendo tomado no... bom, você sabe. -E dizendo isso, apertou a mão do índio, se despediu e montou em seu cavalo.

A manhã estava agradável, e ao cavalgar, seus pensamentos se voltaram para Jenny. O que estaria fazendo agora a única mulher que amou de verdade? Jerusalem Jones sentiu uma ereção ao pensar nela e em tudo que viveram, e pensou consigo mesmo:

- Nossa! Preciso chegar ao bordel mais próximo. Preciso comer alguém, mas no bom sentido da palavra.

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