quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Adeus

ADEUS, ATÉ LOGO, ATÉ MAIS





Eu nunca fui a um enterro, hoje foi o meu primeiro. O enterro de meu tio.

Meu tio era um tipo simpático, mas que gostava muito de viver isolado, em seu próprio lugar. Mesmo morando aqui no RJ era difícil nos visitar e minha mãe precisava, na maioria das vezes, arrastá-lo para que ele fosse visitá-la. Quando estava na casa de minha mãe, contava os minutos para ir embora. Não que não gostasse da companhia, apenas ele era assim, meio ermitão. O mais estranho é que essa atitude nem combinava com ele, que era sempre alegre e simpático com todo mundo, o que foi uma grande ajuda em seus últimos dias por aqui, pois as vizinhas do sobrado onde morava, gostavam muito dele. Estavam todas elas lá no enterro.

Meu tio era quase uma lenda para nós. Gostávamos dele, e gostávamos quando ele podia nos visitar. Ele era padrinho de uma de minhas irmãs, que não pôde ir ao enterro, pois não estava bem. Sua voz era engraçada, ao mesmo tempo calma e anasalada. Fácil de se reconhecer. Tendo trabalhado por uns 35 anos como garçon, não aproveitou nem três anos de sua merecida aposentadoria.

Era uma pessoa teimosa que, com sua simpatia, declinava educadamente das sugestões para melhorar sua saúde. Sempre ria e dizia que estava tudo bem. Só viu que as coisas não estavam bem mesmo, quando viu que estava sem conseguir andar e teve de aceitar que minha mãe o ajudasse. Depois de tentativas fracassadas em hospitais aqui do centro do RJ, ele foi, enfim, internado em um hospital de Bonsucesso. Apenas para ter lá, seus últimos dias de vida. A causa-mortis que deram foi "insuficiência respiratória". Muito vago.

Recebi a notícia de seu falecimento ontem e, até agora, não sei realmente o que sentir. Aparentemente, fosse lá o que ele tivesse, a tendência parecia ser piorar, deteriorar, e esse fato, faz com que eu sinta que o que aconteceu tenha sido o melhor e, ao mesmo tempo, me sinto culpado por pensar assim. Não consegui chorar por sua morte, mas chorei ao ver minha irmã mais nova (a que parece a mais durona de todos nés) se desmanchar em lágrimas. A abracei, coisa que parece que nunca fazemos, nos abraçar.

Minha mãe era quem mais sofria. Sua irmã mais querida morreu ano passado, lá no Ceará, depois de ter vivido aqui no RJ, por muito tempo. Então, adoeceu e voltou para o Ceará de onde não saiu mais de uma cama, até falecer. E agora, seu irmão mais querido. Não contive as lágrimas ao ouvi-la dizer sobre o corpo dele: "meu irmão, nós nunca brigamos, nunca discutimos, meu melhor irmão, adeus para sempre". Nunca vi minha mãe tão transtornada. Acho que ela sentia falta de mais momentos ao lado dele. Ela sentia que era injusto, pois pouco se viram. Agora que ela estava arrumando tudo para que ele morasse com ela, ele se foi. Tento consolá-la dizendo que assim que melhorasse, ele ia querer voltar para seu quarto, apertado e solitário. Ele era assim. Ele preferia assim.

O enterro acabou atrasando por que o pessoal da funerária pegou um engarrafamento. Assim, quando enfim pudemos levar o caixão para ser enterrado, já era meio-dia, e o sol estava a pino. Minha mãe não foi até a sepultura, e foi melhor assim, ela não aguentaria a despedida final. Fomos eu, meu irmão, a tia da minha esposa (que não pôde ir também) e as vizinhas, numa romaria silenciosa até o túmulo. Lá o deixamos, deixamos as flores, as velas e viemos embora.

Deixamos para trás, uns mais outros menos. Acho que precisava escrever isso, para poder chorar de verdade, para chorar por mim mesmo, não pelos outros que estavam chorando. Choro, mas não de tristeza, ele não ia querer isso. Meu tio era uma pessoa feliz, ao seu modo.

Adeus João Pedro, Até logo.

Nenhum comentário:

Business

category2