domingo, 24 de setembro de 2006

Um Conto de Uma Espada

UM CONTO DE UMA ESPADA





Meu pai me deu esta espada e disse "use-a com sabedoria". Hoje me pergunto se a sabedoria com que tentei usá-la foi suficiente. O vento frio, que vem do norte, parece dar uma resposta que me gela a alma. Não há sabedoria no uso da espada. Não há sabedoria em trazer a morte. Mesmo quando tentei fazer justiça, o sangue da vingança manchou a lâmina.

A marcha dos vencidos é mais longa que a dos vitoriosos e, mesmo quando estou comandando os vitoriosos, o sal das lágrimas dos derrotados arde em minha garganta. O temor é algo que levamos a muitos lugares, mas nem sempre é o suficiente para a vitória. Do outro lado há centenas como eu, há milhares como nós.

Meu pai viveu e morreu pela espada, a mesma que eu empunho agora, mas às vezes me pergunto, se ele não teria vivido mais feliz e por mais tempo se apenas tivesse se rendido à paz que nunca cultivou. O cultivo dos campos da morte era a sua labuta. Hoje sou o herdeiro do seu latifúndio lúgubre. Herança maldita, sangue maldito. Sou impelido ou o fogo me impele?

Quando me deito à noite, nos braços de Necate, e escuto meu filho dormir em seu berço, me pergunto se meu pai apreciava isso tudo. Se nos braços de minha mãe ele me escutava dormir, e imaginava se um dia poderia relegar as suas guerras. Mas não teve tempo de obter a resposta. Mas com certeza, a resposta seria não.

Minha mãe me deu a bainha da espada de meu pai e disse "saiba quando guardá-la". Me pergunto se a guardei sempre na hora certa, no momento exato ou, pelo menos, antes de infligir a injustiça cortante. Não sou meu pai, apenas seu filho. A história dele foi contada por outros, seus feitos foram entalhados em muros distantes. Minhas cicatrizes são diferentes das dele. Nem mesmo meus soldados são os que serviram a ele.

Meu pai tinha coragem, esteve em todas as guerras. As Nemóias, Catares, Deviantes, Calendas. Paz para ele era algo impensável. Paz para ele, era uma fraqueza do espírito. Às vezes parece que o mundo inteiro pensa como meu falecido pai. Como se falar em paz fosse admitir a derrota. Às vezes é preciso ser mais forte para fazer o que é considerado uma fraqueza. A guerra me cansa.

Fui soldado, muito antes de ser general. Na verdade, fui filho antes de ser soldado. Nas lendas de meu pai, nos feitos ligeiramente exagerados, eu via um mundo ao qual a guerra parecia ser a ordem, e sem ela haveria anarquia. Meu pai era um fanfarrão, e divertido. Tudo na sua boca soava grandioso, mesmo as mortes de crianças inocentes. Eu acreditei, até ver por mim mesmo.

O sol se põe, o frio me envolve. Coloco a espada de meu pai, na bainha que minha mãe me entregou. A luz faz a sua dança final, se despedindo. Vou na direção de Necate que prepara o jantar, com sua graciosidade de sempre. A abraço, ela se surpreende. A beijo, ela começa a rir. Eu a acompanho.

Me pergunto se nossas guerras são para fazer um mundo melhor. Me pergunto se esse mundo melhor, num futuro distante, terá a paz pela qual guerreamos. Pela qual eu vou guerrear. O combate será mais feroz do que com muitas legiões.

Os clamores dos próximos dias serão altos, mas pelo menos não serão de dor, mas o lamento de quem não quer perder o combate, de que não quer parar de lutar.

A noite chega. O amanhã é incerto. A espada é pesada.



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