segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Preso em Uma Queda Livre

PRESO A UMA QUEDA LIVRE





A viagem era segura, mas não do modo como ele a imaginava. Descer assim não era bem a sua idéia de diversão. Ele apenas queria agradar a ela, aceitando aquela espécie de desafio lançado. Claro que ele tinha coragem. Por que não? Assim, agora ele estava a sabe-se lá a quantos quilômetros por hora em direção ao chão. Ela convenceu aos instrutores que ele podia saltar sozinho, depois do pequeno curso que foi ministrado. Ele fez o pessoal acreditar que sim, que era verdade o que ela dizia, ele poderia saltar sozinho. Naquele momento ele se perguntava porque diabos estava fazendo aquilo. Ela nem era tão gostosa assim!

Se sentia a pessoa mais idiota do mundo. O vento era tão forte que parecia querer arrancar o seu rosto. O pára-quedas nas suas costas parecia pesar uma tonelada, empurrando-o contra o solo. Depois do que pareceu uma eternidade, ele terminou a contagem de 10 segundos e puxou a cordinha do pára-quedas. Sim, vocês já sabem o que vem a seguir. O pára-quedas não abriu. Ele não sabia bem o porque, mas parecia estar sabendo que isso iria acontecer. Parecia poder ver que, lá em cima, dentro do avião, ela estava dando um sorriso meio que diabólico, ao notar que ele estava em queda livre para a morte.

Aquela história de que a vida inteira da pessoa passa na sua frente em segundos, bom, tudo mentira. Ele só conseguia pensar em uma cerveja gelada. Sentia a garganta seca, por culpa do vento e, claro, de estar em direção ao chão. Talvez desse para avaliar sua vida enquanto o solo demorava a chegar. Engraçado como parecia que ele tinha todo o tempo do mundo. Pensou que deveria ter esquecido essa idiotice de ser advogado. Afinal nunca foi mesmo sua vocação. Mesmo tendo sido bem-sucedido, ele queria mesmo era ser escritor e morar em uma ilha qualquer, escrevendo livros de faroeste, deitado em uma rede, com o laptop no colo. Claro, com mulheres peladas trazendo daikiris. Coisa mais clichê. Mas ele adorava clichês. Ele estava dentro de um agora.

De repente ele sentiu seu peito vibrar e achou que estivesse tendo um ataque do coração. Mas, por mais estranho que parecesse, era seu celular, que ele esquecera de tirar do bolso, que estava tocando. Era seu cliente, Thomas Lenght. Ele o estava defendendo da acusação de estupro e assassinato de uma menor. Certo, ele era culpado até o último fio de cabelo e, provavelmente iria para a cadeira elétrica, e se ele morresse ali, agora estoporado no chão, Lenght ficaria sem um dos melhores advogados, modéstia à parte, e certamente seria condenado, se defendido por outro. Ele atendeu o celular com muita dificuldade.

- ALÔ, O QUE VOCÊ QUER LENGHT, ESTOU MEIO OCUPADO AGORA!
- Eu preciso de sua ajuda, Merrick!!! Recebi uma visita esquisita, de uma mulher. Ela se dizia tia da garota que me acusam de ter estuprado e assassinado, irmã da mãe dela. Não sei como ela conseguiu meu endereço. Ela disse que ia dar um jeito para que eu fosse condenado.

Merrick pensou por um momento, e perguntou:

- COMO ELA ERA, LENGHT?!

Depois de uma rápida descrição, Merrick disse:

- LENGHT, ENTÃO MEUS PÊSAMES, ELA ESTAVA FALANDO A VERDADE. ELA TE FERROU MESMO!

Merrick desligou o telefone e jogou-o fora e por um tempo os dois caíram juntos. O chão esta bem mais próximo agora. Foi quando num estalo, Merrick lembrou que havia a droga do segundo cordão, que tanto falaram nas lições. Onde ele estava com a cabeça. Bom, mas se a coisa toda era uma armação, puxar o segundo cordão não daria em nada. Mas não custava tentar. Encontrou o cordão e puxou. Um monte de panelas, frigideiras e utensílios domésticos saíram de dentro da mochila que deveria ser o pára-quedas. Pelo menos foi isso que veio à mente de Merrick. Ele via desenho animado demais. Na verdade, o que aconteceu mesmo, foi que o pára-quedas abriu, com ele bem próximo ao solo. Foi uma aterrisagem dolorosa.

Mesmo assim, foi melhor do que morrer como um inseto num pára-brisa. Merrick aterrisou num local meio deserto, com uma floresta bem adiante e deu graça a Deus de não ter aterrisado em cima das árvores. Provavelmente não sobreviveria. Uma neblina fina cobria o chão gramado onde ele estava. Ele não conseguia entender por que o pessoal com o avião não estava por perto. No fim das contas, a mulher não tinha nada com isso, e a descrição dela, feita por Lenght era apenas uma coincidência.

Merrick estava meio perdido, mas vivo. Era apenas uma questão de encontrar o caminho de volta para a base de salto. Retirou o pára-quedas e já ia embora quando uma sentiu que alguém tocava suas costas. Levou um susto ao ver uma menina ali, no meio daquele nada.

- M-mas... de onde você saiu, menina? Onde estão seus pais?
- Eles estão ocupados chorando, moço. Eles estão ocupados chorando.

O rosto pálido da menina, que estava com um vestido azul claro, fez o estômago de Merrick revirar e ele quase vomitou. Era a menina assassinada por Lenght. Ele vira as fotos. Era a porra de um fantasma. Merrick percebeu que ela estava descalça com a névoa cobrindo seus pés também pálidos. Ela segurou a mão de Merrick, uma mão gelada. Merrick tentou retirar a mão, mas ela o segurava forte.

- Vamos passear, moço. Assim você não tem que fazer coisas que não deve. Deixa a culpa cair sobre quem tem culpa.

Merrick jurava que aquilo só podia ser um pesadelo. Ele deve ter desmaiado com a queda, e estava sonhando. Seu corpo devia estar em uma confortável maca na base de salto. Pelo menos era o que ele queria muito que fosse a verdade.

- Vamos passear na floresta, moço. Todo mundo gosta de lá, e não quer mais sair. Por isso vim te buscar.

Merrick só queria que ela largasse sua mão pelo menos. Era gelada demais. Ela o puxava em direção a floresta, que era de onde vinha aquela névoa. Quanto mais se aproximavam, mais Merrick sentia que nada bom poderia estar escondido ali dentro. A menina sorriu para Merrick que se sentiu incomodado com aquele estranho sorriso. O que era tudo aquilo afinal. A menina pareceu ver a dúvida no rosto de Merrick, e disse:

- Moço, não existe segundo cordão.

Merrick soltou um grito de horror que ecoou pela floresta inteira.

Então, Jerusalem Jones acordou, agitado e suado, de um pesadelo do qual ele nada entendeu, mas que sabia, nunca iria esquecer. Seu estômago doía. Ele lembrou de que Merrick era o nome de seu irmão mais novo, que morreu de pneumonia aos 5 anos de idade.

Jerusalem virou pro outro lado e tentou voltar a dormir. Não conseguiu.


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