sexta-feira, 20 de outubro de 2006

O Portal

O PORTAL

20 de Outubro de 2006





O portal dimensional se abriu e a cena foi extremamente comum, para mim. Não era nada parecido com os filmes e gibis que eu vi em toda minha vida. Sim, existia um outro universo além do nosso e, provavelmente, como o portal ia verificar, existiam outros mais.

Os cientistas vasculhavam os espaço através das várias telas que o portal permitira abrir. Vários setores do espaço eram mapeados em segundos. Na verdade, eu não via muita diferença daquele universo para o nosso. A única coisa que tínhamos era a "palavra" do portal, pelo menos até então. Mas isso iria mudar.

Mapeando uma seção diferente, uma das telas captou uma formação estranha em um setor que parecia bem diferente de qualquer coisa vista em nosso universo conhecido. Os cientistas logo se alvoroçaram e denomiram a coisa de Buraco Branco. Eles deduziram que aquele universo estava nascendo dali. Explosões silenciosas ocorriam em seu centro e, por isso, os cientistas deduziram isso. Mas logo percebi que não era nada disso. Aquele era um efeito colateral da abertura do portal naquele universo estranho. Estávamos interferindo em um mundo que não era nosso, como sempre fizemos desde que a humanidade aprendeu a dominar o fogo.

Pensei em avisar aos superiores, mas seria perda de tempo, não iriam me ouvir. Apenas continuei a observar a tela em que o Buraco Branco aparecia. As explosões cessaram e o buraco se tornou azulado. O portal soltou um zumbido forte. Quando eles se deram conta da verdade, era tarde demais. O universo recém-descoberto começou a ser dizimado impiedosamente. O buraco, que um dia foi branco, agora estava de uma cor indefinida, que nem mesmo parecia ser conhecida por nós, e aumentava gradativamente, devorando toda a matéria em seu caminho.

Tentaram desligar o portal, mas isso não era tão simples assim. O portal estava programado para funcionar mesmo com falta de energia. Os computadores entenderam isso como se ele não pudesse ser desligado de imediato. Os cientistas, militares, pessoas com interesses particulares no projeto, estavam tensas e, na verdade, eu sei o que estavam pensando: que consequências isso poderia ter em nosso universo? Não foi preciso esperar muito tempo para se obter a resposta.

O portal não fora criado como uma passagem para outros universos, era para ser apenas um observatório... em teoria. O zumbido no portal ficou mais intenso e, de repente, uma nuvem negra o atravessou. A nuvem adquiriu um formato humanóide, mas continuava muito indefinida. O alvoroço no recinto piorou, alguns apenas correndo sem direção. A maioria ficou, inclusive eu. A curiosidade científica era maior.

A coisa apontou para as telas que o portal abrira. Apontou para elas depois para si mesma. Não precisava ser um gênio para entender que ela queria dizer que veio de lá. Nas telas, um branco cegante invadia tela por tela. O universo da coisa estava morrendo, e ela veio tomar satisfações.

Apontando para um dos cientistas, a nuvem negra lançou um pedaço de si mesma contra ele. O homem estrebuchou e uma coisa louca aconteceu, ele implodiu. Inchou um pouco e, em seguida implodiu. Sumiu como se nunca tivesse existido. Os cientistas e os com interesses particulares começaram a correr e a gritar. Os militares, é óbvio, ordenaram que os soldados atacassem. Eu fiquei ali mesmo olhando tudo aquilo.

A criatura parecia não dar importância ao ataque. Parecia estar se sentindo entediada. Não atacou mais ninguém. Recebia a saraivada de balas e outros tipos de armas, ali, parada. Pude ver que o que parecia ser sua cabeça, olhava para as telas. O seu universo seria destruído eternamente. Será que ela pensava em fazer o mesmo com o nosso?

Os soldados continuavam a atacar, destruindo muito mais o local do que a criatura, que nada sentia. Um verdadeiro inferno. A criatura pareceu suspirar e, de repente, começou a se dissolver, lentamente. Em pouco tempo, a criatura melancólica não existia mais. Os soldados cessaram o fogo, os cientistas que não fugiram ordenaram uma varredura subatômica em todo local. O portal havia sido destruído no ataque. O prejuízo era de bilhões de dólares.

Eu passei por toda aquela balbúrdia e peguei uma pequena placa que ficava perto do portal. Uma placa de vidro, que agora não tinha mais utilidade nenhuma. Fazia parte do portal. Percebi que ela estava enegrecida. Achei, inicialmente, que pudesse ter sido devido aos estragos provocados pelos soldados, mas não era. Fui até um microscópio subatômico que ninguém usava mais e coloquei a placa ali. Ajustei para o máximo, e o que eu pensava era verdade: a nuvem negra era um aglomerado de pequenas naves pilotadas pelos habitantes daquele universo, destruídas. Ninguém percebera, mas estávamos vendo um universo subatômico.

Até mesmo o tempo devia passar de modo diferente por lá, o que deu tempo para que organizassem uma fuga em massa usando o portal como meio de escape. Agora eles estavam por aí, e iam recomeçar suas vidas aqui mesmo, em nosso mundo, do melhor jeito que pudessem. Será que pensavam em vingar seu mundo, ou apenas recomeçar? Quem vai saber. De repente, senti uma mão sobre meu ombro. Era Johnson, chefe de todo o projeto.

- Templeton, o que falamos sobre você utilizar os aparelhos do projeto? Estamos com sérios problemas agora, por favor. Faça seu serviço e deixe as pesquisas para quem entende do assunto. - Ele me deu um tapa amigável e cansado, nas costas e foi embora.

Peguei meu balde e o esfregão e fui fazer meu serviço de limpeza, que agora seria bem maior do que aquele ao qual eu estava acostumado. Pelo menos o salário é bom.


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