quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Sua Mente em um Liquidificador

SUA MENTE EM UM LIQUIDIFICADOR





Pisco duas vezes, tentando concatenar as idéias. A pessoa à minha frente é meu colega de seção, no almoxarifado onde trabalho. Ele falou alguma coisa, eu escutei atentamente, mas eu não entendi nada. Sorrio e concordo com a cabeça, para que ele não perceba que não estou entendendo nada do que ele está falando. Estamos no refeitório da Piraquê Indústria de Produtos Alimentícios S/A.

Trabalho aqui a quase três anos. Entrei aos 18 anos e agora tenho 20. Fui para o almoxarifado, trabalhando de 12:00 às 22:00 hrs e, depois de um ano e pouco, pedi transferência para a manhã, de 6:00 às 16:00. No início meu trabalho era mais físico, empilhando a arrumando o material que chegava, todo referente à embalagem de biscoito e macarrão: caixas, plástico e etc. Devido a um início de incêndio, acabei subindo de posto. Explico, um dos funcioinários que cuidava da parte burocrática não teve álibi e, mesmo sem se provar que foi ele, o mandaram embora, devido ao início de incêndio na seção. Entrei no lugar dele. Aqui é assim. Daqui a dois anos serei eu a experimentar esse tipo de injustiça.

Eu tento me concentrar e algumas coisas que meu colega diz fazem sentido, mas em seguida eu perco de novo. O refeitório é enorme, com mesas longas e brancas, a luz de lampâdas fluorescentes incide sobre elas. Aquilo me incomoda naquele momento, em que não consigo me concentrar. Me lembro que não é a primeira vez que isso me acontece. Nos últimos dias, quando converso com as pessoas, perco parte de coisas que elas dizem. Vendo TV também tem acontecido isso. Continuo comendo, mas não me sinto muito bem.

Depois que passei para a manhã, preciso acordar às 4:00 hrs., para pegar o ônibus às 4:30, e depois mais um até a fábrica. Dia desses dormi andando, enquanto ia para o ponto de ônibus, e caí... duas vezes. Chego às 6:00, e se chegar às 6:01, não pode mais entrar, preciso esperar até às 7:00, e ser descontado em uma hora, no salário. Se me atraso, todo meu serviço se atrasa. Só eu posso fazê-lo. A carga de responsabilidade é estressante.

Eu paro termino a refeição e levanto da mesa. Levo a bandeja de alumínio vazia, até onde se empilham elas, para serem lavadas. Não me sinto muito bem. Meu colega continuou na mesa. Vou até o vestiário, pego escova e pasta de dentes. Vou até uma torneira e começo a escovar os dentes. Realmente não me sinto bem. Lembro que aos 15 anos tive uma única crise convulsiva. Não sei por que isso me veio à mente. Meu coração dispara sem motivo algum. Minhas mãos começa a suar descontroladamente e minha barriga começa a doer do nada. Sinto um terrível pressentimento de morte iminente.

Quando entro na fábrica preciso ir direto para as máquinas onde se embalam os biscoitos e recolher todo materia que se estragou, que não colou direito, ou que simplesmente rasgou. Subo alguns andares e faço o mesmo na seção do macarrão. Levo tudo para o almoxarifado, onde peso o que se estragou e anoto para fazer o devido relatório. É preciso ter calma e errar o menos possível, pois vai para a mão de um dos donos. Certa vez ele discutiu dizendo que a porcentagem estava tinha de ser retirada do que foi gasto e não do total. A coisa ficou feia, pois ele estava errado. Ainda não era eu a cuidar disso.

Minha mente entra em colapso. Eu não consigo mais saber onde eu estou. Olho na direção das pessoas que estão nessa parte do vestiário, mas não consigo dizer nada. Não consigo mais formular palavras. Um sentimento de despespero, morte e loucura se abate sobre mim. Olho em volta tentando definir em que lugar eu estou. Não consigo. Os pensamentos se amontoam em minha cabeça, mas nenhum deles faz sentido real. Não consigo entender de onde eles vem, o que são e porque aparecem assim do nada. Eu não estou raciocinando mais, meu cérebro não é mais meu. Alguma coisa tomou conta dele.

Eu termino de pesar tudo, entrego os sacos de material estragado para o pessoa que cuida da prensa. Um trabalho chatinho que eu já fizera também. Prensar o plástico estragado era o pior, pois exigia mais paciência, devido a ser escorregadio. Prensar o papelão estragado era bem mais fácil. Lembro de fazer isso, sozinho, à noite, naquela seção enorme e vazia, pois o turno da tarde/noite, era composto de apenas três funcionários para cuidar de dois andares: eu e mais dois. Depois que entrego o que foi estragado, subo para o último andar, onde fica minha "base de operações" sob o comando do encarregado Hotorgail (eu nunca me acostumo com esse nome).

O sentimento de que vou ou morrer ou ficar louco para sempre aumenta e parece que nunca vai ter fim. Meu cérebro parece que foi jogado em um liquidificador. Eu começo a andar na direção de alguém próximo quando sinto que vou perder a consciência. A pessoa me olha, assustada. Eu imagino como devem estar minhas feições. Não dá tempo de pensar mais em nada, pois eu apago. No meu entender, eu desmaiei. Estou inconsciente. Mas na verdade a coisa não é bem assim. Estou inconsciente, mas apenas para mim. Continuo a me mover. Estou tendo uma crise convulsiva, mas não sei disso. Quando ela começa, eu caio para trás e, a parte de trás da cabeça, atrás da orelha direita, acerta a pia de metal.

Eu passo para o computador todas as minhas anotações. O computador foi colocado a pouco tempo, e todo mundo da seção gostou. Bom, nem todo mundo usava o computador, mas todo mundo gostou da menina que vinha nos ensinar como usá-lo. Imagine uma seção com uns 20 homens arranjando sempre um motivo para passar em frente às mesas. Pois bem, o que era feito à mão, agora parecia que ia mudar. Mas não mudou. Depois de passar para o computador, tinha de preencher requisições de material entregue às seções, no dia anterior, e levar para os chefes das seções assinarem. Depois disso finalizar o relatório em uma pasta que ia para a mão de um dos donos.

Eu estou em convulsões, mas realmente acho que estou apenas demaiado esperando acordar. Quando acordo, estou sentado nas escadas que levam ao refeitório. Minha boca tem um gosto estranho e alguns funcionários estão a minha volta, assim como um segurança. Eu não consigo falar. Eles não me dizem o que aconteceu exatamente. Com muito custo pergunto porque minha boca está com um gosto estranho. Alguém me diz que enfiaram sal na minha boca. Não sinto gosto de sal. Não sei que gosto é, não consigo identificar. Mas não parece sal. Alguém me dá água, eu bebo, e a água tem um gosto esquisito. Não parece água. Na verdade, nada parece nada. Me sinto num sonho bizarro e não sei quem são aquelas pessoas e que lugar é esse que estou. Minha percepção da realidade foi alterada pela crise. Crise de quê, eu ainda não sei.

Terminado todo esse serviço burocrático, fico esperando os pedidos de materiais do dia, aos quais eu peço para alguém entregar, ou eu mesmo levo. Me acostumei a usar os carrinhos hidráulicos aos quais eu uso como se fossem patinetes, para ir até a pilha de caixas mais distante. As vezes os caras apostam corrida andando neles. Enfio o carrinho em um estrado com caixas e o levo ao elevador de carga. Vamos até o segundo andar, a seção de wafers, onde uma rampa me atrapalha a descer sem derrubar as caixas. Para piorar há uma máquina enorme que me impede se descer em linha reta. Coloco o estrado de frente para mim, e desço de costas, apoiando as caixas com a mão; quando começo a descer e pego velocidade, tenho de fazer uma curva brusca para não bater na máquina e essa curva, faz a pilha de caixas se inclinar. Vai cair, vai cair! Caiu!

Me levam para a enfermaria, me dão algum comprimido e descanso. As coisas vão tomando forma, a realidade se firmando. Isso não é algo rápido, dura mais de uma hora, creio eu. Não tenho como saber direito, pois a percepção de tempo também está alterada. Não sei o que eu tive ainda. Mas com o tempo acabo descobrindo: uma crise de pânico seguida de uma crise de epilepsia. Apenas 12 anos depois vou descobrir que isso é raro, por isso o tratamento adequado não era encontrado e sofreria 12 anos de crises, pois seria jogado de psiquiatria (para o pânico) para neurologia (para a epilepsia), pois ninguém entendia que eu tinha as duas doenças, e não apenas uma.

Eu termino meu trabalho. A cabeça dói um pouco de tanto fazer cálculos. Me sinto cansado física e mentalmente. Pegar dois ônibus e chegar em casa lá pelas 17:30 não ajuda muito. Mas me sinto melhor, a crise parece algo distante. Ninguém me manda embora da fábrica por causa disso. Venho a ter outras crises, sou sempre levado a enfermaria e prossigo meu dia de trabalho. Descubro que as crises são mais frequente durante as refeições então passo a fazer apenas lanches rápidos. Acho que como ela se seguiu a uma refeição, fiquei com fobia. Entro no ônibus, me sento no canto, e encosto a cabeça no vidro. Não demora nem 5 minutos e eu caio no sono. zzzzzzzzzzZZZZZZZZ!


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