sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Gritar

GRITAR





Gritar talvez seja uma das melhores coisas da vida. Gritar para estravazar a raiva. Não se pode fazer isso sempre que se quer, pois com certeza teremos uma vaga imediata numa cela alcochoada ou, como provavelmente eu iria para num manicômio público, seria apenas amarrado a uma cama, com tiras de lençol velho.

Posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes precisei fazer isso, para evitar que eu apelasse pra violência pura e simples, e acabasse machucando alguém, ou saísse bem machucado. Não sou de gritar sempre e, talvez por isso, quando acontece eu quase estouro as cordas vocais. É uma coisa meio Dr. Jeckyll e Mr. Hyde, o médico e o monstro, para quem ainda não sabe.

Uma dessas poucas vezes, eu devia ter uns 12 anos. Nunca fui de jogar bola, não gosto e nunca aprendi mas, como toda criança que se preze, já tentei jogar. Então eu estava na rua, num jogo apenas de toques, quando um marmanjo sentado numa escada, conhecido meu da vizinhança, começou a me encher a paciência jogando piadas sobre o fato de eu não saber jogar. Como ele era mais velho e maior, eu só tinha três opções: aguentar quieto, chorar ou ir embora pra casa. Bom, eu preferi uma quarta opção. Parei de jogar bola. Fui até onde ele estava sentado, com o coração saindo pela boca de raiva. Me postei a sua frente, respirei fundo e soltei uma avalanche de impropérios, palavrões e palavras de baixo calão, entremeadas por "O que diabos eu te fiz?", "Por que resolveu implicar logo comigo?".

Não eram bem as palavras que fizeram efeito, mas a altura com que eu as pronunciava. Todas as pessoas na rua pararam para olhar para nós dois. Depois de dizer tudo que eu queria no volume máximo, fiquei esperando a reação do cara, que parecia ter saído de uma academia de musculação. Estupefato, ele apenas balbuciou algo sobre eu ser doido e, desde então, nunca mais quis dar uma de técnico de futebol pra cima de mim.

Uma outra vez, mais adiante no tempo, foi com minha irmã caçula. Ela, depois que deixou de ser aquela criança engraçadinha, se transformou numa adolescente ranzinza e mandona, cheia de vontade, que só pensa nela mesma. Certo dia, ela me pediu e eu gravei um programa que ela queria, em uma fita de vídeo. Mesmo ela sendo como era (e é até hoje), fiz de boa vontade. No dia seguinte, enquanto ela assistia a TV, durante os comerciais, eu mudei de canal para ver o que estava passando nos outros. Televisão, desde que ela se deu por gente, tornou-se um problema para se assistir com ela em casa. Quando eu fiz isso, de mudar, ela começou a gritar comigo. Não prestou. Peguei a vida de vídeo que havia gravado no dia anterior, e o primeiro pensamento que me veio a mente, foi quebrar a fita na cabeça dela. Segurei a adrenalina e arrebentei a fita com as próprias mãos. Mas a adrenalina estava pra estourar, eu precisava de mais, só a fita era pouco. Pra não avançar nela, eu saí para o quintal e berrei o mais alto que pude. Tinha de liberar a raiva de ver uma pessoa tão mal agradecida, de alguma forma. Mas, só gritar não adiantou. Eu fui na direção da parte de trás da casa e havia um portão baixo de madeira na minha frente, eu dei um tapa com a palma da mão aberta e o portão, que estava bem preso, se soltou. Machuquei a mão, claro. Mas, pelo menos, me sentia melhor e deixei minha irmã viva no processo.

A última vez faz uns dois anos. Eu, voltando a estudar, fazendo segundo grau, estava bem lá na minha turma. Cismavam de me pedir para ser o representante, devido a minha cara de CDF. Não adiantava dizer que eu não servia para ser representante da turma. Certo. Eu acabava aceitando. Uma amiga era a vice-representante. Não demorou para que um dos alunos da sala tivesse problemas com ela, e ao ver que ele estava discutindo com ela, eu fui argumentar, coisa que não adiantava muito. Logo ele começou a ofender a garota. Eu disse que era melhor resolvermos aquilo na diretoria, tentando manter a calma. Ele não se mostrava disposto a isso. Não se movia de onde estava. Eu não podia pensar em brigar com ele na mão. Ele parecia pesado e forte. Ele não parava de falar um segundo. Aquilo estava me irritando. Ele queria vencer pelo cansaço. Estávamos na porta da sala. Vendo que a disputa era de quem falava mais alto, eu me coloquei a um palmo de distância da cara dele e berrei o mais alto que minhas amígdalas podiam.

Eu usei todos os argumentos de antes mas, agora, acompanhados de palavrões e de um volume de décibeis. Minha garganta chegou a arranhar. Estávamos no terceiro andar e, mesmo lá embaixo, todo mundo escutou. Dentro de instantes todas as pessoas, alunos e professores, vieram ver o que estava acontecendo. Ele calara a boca. A diretora veio ver o que era e fomos levados para a diretoria onde consegui explicar tudo. Com uma ficha de perturbações anteriores, o aluno nada pôde fazer e, depois de fazer beicinho - mesmo tendo uns 30 anos - admitiu forçadamente, que estava errado.

O ruim de gritar assim é que depois os ouvidos ficam zunindo.



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