quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Fragmentado

FRAGMENTADO

Estou deitado no sofá, assistindo a qualquer coisa na TV, quando o sono chega, como areia movediça me puxando para baixo. Mas não quero dormir, não está na hora. Essa luta contra o sono provoca uma sensação estranha, que já senti tantas outras vezes. Uma mistura de dèja vú com uma impressão de não estar realmente ali mas sim, em outro lugar. Olho em volta com os olhos pesados e quase não reconheço a sala aonde estou. O sono que sinto é diferente do sono normal. Sinto algo como um pressentimento de morte iminente, e parece que se eu sucumbir ao sono, não voltarei mais. É um sono macabro.

Tento prestar atenção ao que se passa na TV, mas tudo é uma mistura que o sono não deixa eu compreender. Penso em me levantar e ir fazer alguma outra coisa, mas não consigo, quero apenas dormir, mesmo sabendo que não posso. Por várias vezes, quando quase durmo, tenho a impressão de estar caindo.

Fecho os olhos por menos de um segundo e quando os abro estou em uma maca. Alguém está colocando eletrodos em meu peito. Meus olhos cansados de sono não conseguem divisar a pessoa. Parece ser uma jovem, algo como uma enfermeira, não sei. Ela tagarela sobre seus filhos e de como ela precisar fazer um upgrade em seu computador que está ultrapassado. Ela continua colocando eletrodos em meu peito. Ela passa alguma coisa gelada, algum tipo de gel e os coloca. Prende meus tornozelos contra a maca, com alguma coisa, e meus pulsos também. Ela faz tudo aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Ela coloca dois eletrodos em cada lado de minha cabeça, esses bem maiores que os outros. Não acredito quando ela abre minha boca e coloca um pedaço de pano dobrado entre os meus dentes. Ela diz algo como "Vai dar tudo certo desta vez. Nada de paradas cardíacas, tenho certeza". Sem saber o que me espera, sinto uma descarga elétrica percorrer o meu corpo. Entro em convulsão. Minha cabeça parece querer explodir em mil pedaços que e esses pedaços em outros mil pedaços. Perco a consciência.

Acordo com a água fria à minha volta. Água fria e salgada entrando em minha boca. Estou me afogando. Estou afundando lentamente, em algum lugar que não sei aonde é, e nem porque estou ali dentro. Estou prestes a morrer. De repente sinto que uma mão agarra meus cabelos e me puxa de volta para a superfície. Sou levado de volta à praia. Estou na praia do Flamengo no Rio de Janeiro. O sol está a pino e eu estou com apenas com um short. Como pude vir parar aqui, vindo do meu sofá e daquele lugar estranho onde me eletrocutaram?

As pessoas estão me olhando estranho. A garota que me tirou da água enfia a mão na minha boca e retira... nossa, ela arranca um dente meu. A dor é horrível. Ela puxa um dos meus caninos e arranca com força. O sangue jorra na minha boca, sinto o gosto, e me sinto mal. Estou deitado na areia com a boca cheia de sangue. A multidão em volta... bom, na verdade não é uma multidão tão grande... fica olhando para o dente que a garota acabou de arrancar da minha boca. Um murmúrio de "é ele! é ele!" se faz ouvir. Quando parecem ter certeza de que sou eu mesmo, seja lá quem eu seja para eles, eu vejo uma espécie de arpão surgir na mão de um dos caras que está mais próximo de mim. Ele levanta aquela porra e com toda a força, finca bem no meu coração.

Eu sinto o ar escapar de meus pulmões num grito abafado e quando me dou conta, estou sentado aqui, em frente ao computador, com o editor do Blogger aberto. Acho que cochilei enquanto pensava em algo para escrever. Olho para a tela e há um texto nela. Este texto, que não consigo lembrar de ter escrito. Minha cabeça dói levemente.

Estou com sono, e resolvo ir me deitar no sofá. Depois eu leio esse texto que não escrevi. Esse sono quando chega... é como areia movediça, me puxando para baixo.

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