domingo, 26 de novembro de 2006

JJ e o Caçador de Recompensas Chinês

JJ E O CAÇADOR DE RECOMPENSAS CHINÊS


Eu detestava quando isso acontecia. Era um verdadeiro pé no saco. De tempos em tempos eu era confundido com algum bandido, pé-rapado ou não, que estivesse sendo procurado. E, por mais que eu dissesse que meu nome era Jerusalém Jones, o desgraçado do caçador de recompensas não acreditava. Assim sendo, era sempre um custo para me livrar deste bando de urubus que caíam em cima de mim como abutres.

O pior de tudo é que eu nem tinha como provar que eu era eu mesmo. Você já reparou que nós que vivemos no velho oeste (quer dizer, ele ainda é novo, mas quando você estiver lendo isso, ele será velho) nunca temos um documento de identificação? Tipo, como a gente sabe que o Buffalo Bill é o Buffalo Bill? Só por causa daquele cavanhaque brega? Qualquer um pode ter um cavanhaque idiota daqueles. Qualquer um pode dizer que é o Bufallo Bill.

O fato é que, desta vez, era um maldito de um chinês que estava no meu encalço. Eu fugia pelo deserto como o gato foge de água molhada. Não que eu realmente estivesse com medo daquele amarelo, o desgraçado nem mesmo tinha armas. Eu corria apenas porquê não queria ter de matar um filho da mãe e depois ter, realmente, minha cabeça posta a prêmio. E mais, ter minha cabeça posta a prêmio e por uma ninharia, o que seria mais vergonhoso.

Assim sendo eu galopava o vento (nossa, se um dia eu for escritor vou colocar essa frase pro texto ficar mais, tipo, cheguei!). Lá ia eu galopando o vento quando meu cavalo se assustou com alguma coisa (uma cobra eu acho) e me derrubou, saindo em disparada, me deixando sozinho a mercê do comedor de peixe cru (peraí, é japonês ou chinês que come peixe cru, eu nunca sei).

Não demorou muito pro amarelo me alcançar e ele saltou sem nem mesmo pôr as mãos no cavalo. Por um momento eu achei que o nanico tinha voado da cela. Devia ser o sol que estava me fazendo ver coisas. Se tudo aquilo tivesse um fundo musical, eu teria escutado um assovio melodioso.

Me levantei e encarei o china bem dentro dos olhos. Minha vontade era sacar e encher o boneco de balas. Afinal eu estava bem arranhado por conta da queda, e o suor que caía nos arranhões não me faziam ficar mais feliz. Mas, em vez disso, eu apenas gritei: "EU NÃO SOU QUEM VOCÊ ESTÁ PENSANDO, SEU CHINEZINHO DE MERDA, MEU NOME É JERUSALEM JONES!". E, antes que eu me desse conta, senti um pé no meu queixo, rodopiei três vezes e caí no mesmo lugar de onde havia terminado de levantar.

Eu me levantei grogue, olhei para o desgraçado parado a minha frente, sorrindo, me olhando com aqueles olhos que eu não tinha certeza se estavam mesmo abertos. Me dei conta de que ele devia ter parte com o demo, já que eu não lembro de ter visto ele se mexer. Ele deu outro sorrizinho e disse:

- Meu nome é Pe Bo Lim! Você não "Zerusarem" Jones! Você Paul "Macarister", e eu vou levar você "pureso" e "pegá" a "lecompensa"!

- Peraí, Paul McCallister? Como alguém pode me confundir com aquele troncho do Paul McCallister? O cara é uma mistura de Corcunda de Notre Dame com Frankenstein. EU NÃO SOU TÃO FEIO ASSIM!!!! Vê se abre mais esse olho, china desgraçado - ser comparado com o Paul McCallister foi demais pra minha beleza. E aquele china tava tentando me matar, assim seria apenas legítima defesa. Saquei as armas e... e nada.

O china deu um pulo no ar. Se existisse cinema nessa época eu diria que a cena toda ficou em câmera lenta. Eu meio que vi o china flutuar, com aquela roupa rídicula de cowboy que não combinava com ele, então girar no ar, e daí seus pés acertaram meus dois revólveres, jogando-os muito, mas muito longe.

Ele voou! Eu juro que o china voou. Foi coisa de segundos, mas o viadinho voou! Quando ele aterrisou seus pés se enterraram no chão. Ele olhou de volta para mim, com um olhar (pelo menos eu deduzia que fosse um olhar, já que não se via nada, a não ser seus olhos fechados) de "eu sou o maioral". E pra completar, ele disse, todo cheio de confiança:

- Ou vem "poro" bem, ou vem "poro" mal!

Diacho, eu já tinha ouvido historinhas sobre esses chineses, e que eles tinham umas técnicas de luta conhecidas como Funde Ku, Bung Fu, ou algo assim. O Padre Crowns disse que uma vez, estava em um clube de lutas proibido quando aceitaram um desses amarelos numa luta onde valia tudo. O padre disse que foi um massacre, e que Dwight, o peso-pesado mais assassino de todos os tempos, ficou aleijado. Claro, o padre Crowns sempre bebeu demais e sempre viu coisas demais. Ele jurava que quando esteve pelas bandas de Roswell viu um "pires voador", assim sendo eu não acreditei em nada do que ele disse. Pelo menos até agora...

Eu não estava nem um pouco a fim de ser preso no lugar do McCallister. Eu até podia deixar ele me levar e ver a cara de idiota que ele ia ficar quando o xerife dissesse que não era eu que estavam procurando. Era isso que eu fazia na maioria das vezes que me confundiam com procurados. Mas agora, agora eu estava puto, e aquele amarelo não ia me levar a lugar nenhum, pois mesmo não sendo eu o bandido, iam rir de minha cara por ser capturado por aquele toco de gente. Eu precisava dar uns pipocos no rabo desse chinês e pôr ele pra correr.

Olhei na direção das minhas muito distantes armas. Olhei para o chinês metidinho e... disparei na direção delas. Eu corri como nunca corri em minha vida. Eu escutei um barulho de tecido ao vento, atrás de mim, e senti uma pancada nas costas. O viadinho me acertou de novo. Eu pensei que ia ter de enfrentá-lo e isso não seria muito bom... pra mim. Pra piorar, eu suava tanto que um bando de moscas se juntava em mim, por causa do suor e dos meus arranhões que devia estar uma beleza de podres. Agora eram o chinês e as moscas que me irritavam.

Me levantei e fiquei de frente para o chinês. Eu não sabia bem o que fazer. Se eu corresse ele me enchia de porrada, se eu ficasse ele me levava preso e o vexame seria maior. Quando eu espantei uma mosca da cara, ele se assustou e ficou em posição de ataque, com as mãos em frente ao rosto. Fazia uns barulhos esquisitos, uns gritinhos meio afeminados demais para o meu gosto. Uma mosca quase entrou em meu nariz e eu fiz um gesto mais brusco, o que bastou para que ele me desse um chute na cara. PORRA!!! Esse chinês é maluco??!!

Meu nariz sangrava. Agora as moscas (de onde vinha tanta mosca?) estavam na minha cara aos montes. Eu dei um grito de raiva e o chinês pulou com a perna esticada pra me acertar de novo, foi quando ao tentar afugentar as moscas eu acertei o pé dele e o derrubei no chão. Ele se levantou estupefacto. Na verdade eu também estava, só que não tinha tempo pra isso, pois as moscas me perturbavam.

O chinês estava furioso por ter sido derrubado, deu um grito e avançou pra mim, começando a tentar me acertar golpes com as mãos, a cada vez que ele tentava, eu o impedia sem querer, enquanto tentava me livrar das moscas que zuniam na minha frente. Era golpe do chinês de lá, e golpes meus, sem querer, de cá. Acabei por me defender de todos os seus golpes. Quando ele tentou me acertar a orelha com um golpe do pé, eu tentava pegar uma mosca ali bem na hora e acabei por pegar o tornozelo do china. Sem pensar duas vezes rodopiei o cabra pelo tornozelo e acertei a cabeça do disgramado numa pedra que estava ao meu lado.

O chinês apagou na hora. Acho que ele não esperava isso, e nem eu. As moscas nessa hora, se dispersaram, foram embora. Não entendi muito bem. Zung Fu, né? Olhei para aquele corpo estendido no chão, com mais ou menos metro e meio e pensei que não existia lutador perfeito, e que tudo dependia da sorte... ou das moscas, sei lá.

Estava sem saber o que fazer com o chinês desacordado, (que, claro, amarrei bem amarrado) quando me lembrei do que o Padre Crowns disse sobre o clube de lutas clandestino. Eu sabia onde tinha um, e se era dinheiro que o amarelo queria, ele ia ganhar, mas ia ter de dividir comigo. Ou isso, ou eu ia colocá-lo para trabalhar em uma pastelaria.

Chamei meu cavalo de volta, joguei o china amarrado no dele, e fui na direção do pôr do sol, sabendo que tudo que se precisa para ganhar dinheiro na vida, é um chinês que lute Fung Su.

Rai rô, rai rô... Ó suzana, não chores por mim, vou voltar pro Alabama tocando Pe Bo Lim... (argh... podre essa!)

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