sábado, 4 de novembro de 2006

Roland Bishop

A ESTRANHA MORTE DE ROLAND BISHOP


Quando fui atravessar a rua, com o sinal vermelho, não percebi o carro que não freou cortando pela esquerda. A pancada não doeu. Provavelmente eu já estava morto antes mesmo de conseguir perceber a dor. Cético como eu sempre fui, ficava difícil de acreditar que eu estava vendo meu corpo estatelado, no chão, numa posição que me deu vontade de rir. O sangue aumentava, vindo de detrás da minha cabeça, formando uma poça. A multidão ia se juntando cada vez mais. Um metido a médido se abaixou para tocar meu corpo. Eu tentei contê-lo mas minha mão apenas atravessou seu ombro. Ele deu um pulo, ficou de pé, olhou para trás, mas não conseguia me ver. De repente ele parecia estar com muito frio.

Eu não sabia muito bem o que um morto deveria fazer, quais eram os protocolos a seguir. Afinal, eu nunca acreditei que algo assim pudesse acontecer. Eu, um fantasma. Na verdade, eu achava que a morte era o fim de tudo. Ah, esqueci de dizer que o motorista que me atropelou, fugiu desabalado. Eu até que olhei a placa, mas a novidade de ser um fantasma me tirou a atenção. Além disso, como eu ia anotá-la? Minha memória sempre foi péssima.

Ficar entre aquela multidão não estava sendo uma boa experiência. Frequentemente as pessoas me atravessavam e a sensação não era das melhores. Eu sentia algo como gosto de cabo de guarda-chuva. Pensando nisso, me perguntei quem foi o idiota que inventou essa expressão "gosto de cabo de guarda-chuva". A imagem de alguém experimentando o cabo de um guarda-chuva me veio à mente. Se é que eu tinha uma mente. Acho que ser fantasma não era bem como nos filmes. Eu ainda existia, mas eu não sabia exatemente o que eu era. A meu ver, fluído de isqueiro tinha mais consistência que eu.

Eu não estava nu, mas também não estava vestido. Eu não me sentia exatamente com tendo uma forma. O que me parecia, era que eu tinha apenas a idéia de um"corpo". Eu tinha cabeça, tronco e membros, mas apenas como uma abstração. Foi chegando a essa conclusão que eu consegui dar passos, sem exatamente andar. O problema todo nem era andar, mas para onde diabos eu iria. Foi com essa última expressão em mente que pensei se o Inferno realmente existiria, já que se eu não acreditava em vida após a morte e estava errado, devia estar errado sobre todo o resto. Ou não.

Estava divagando sobre tudo isso, quando vi uma forte luz branca e senti algo me puxando para dentro dela. Um desejo incontrolável de adentrar aquela luz se apossou de mim, quando de repente eu escutei um grito vindo da multidão: "ELE AINDA ESTÁ VIVO!"

Agora a coisa toda se complicava. Como eu poderia estar vivo e ao mesmo tempo ser um fantasma? Atravessei a multidão (literalmente falando) e dei de cara com dois paramédicos que terminavam de injetar alguma coisa em meu corpo, que fez com que este se mexesse, e começasse a grunhir, como se tentando acordar. Aquilo foi meio assustador. Logo me colocaram em uma maca e me puseram na ambulância. Sem pensar duas vezes, entrei na mesma, para ver como terminaria essa história. Eu não podia estar vivo. Eu estava morto. E bem morto.

Os dois paramédicos iam na frente, e eu estava sozinho com meu corpo, lá atrás. Eu tinha parado de me mexer, mas senti que estava respirando, ou pelo menos era algo que se parecia a uma respiração. O que será que injetaram em mim? Adrenalina ou algo assim? Droga, eu acho que assisti filmes demais. A ambulância saiu da estrada pavimentada e entrou numa estrada de terra. Daí a viagem foi bem longa e algo tenebroso, passando por lugares que eu não conhecia. Depois que eu já estava pensando que nunca chegaríamos a lugar algum, entramos em um túnel, descemos uma rampa e entramos em um galpão enorme. Com certeza aquilo não era um hospital.

Os supostos paramédicos agarraram a maca onde meu corpo estava e, rapidamente, levaram por uma entrada bem iluminada. Acompanhei-os da melhor forma que pude. Me jogaram dentro de um elevador, que desceu muito fundo. Ninguém acompanhou o corpo. Quando as portas se abriram duas pessoas puxaram a maca e a levaram para um lugar que parecia saído de um filme de ficção científica. Se eu tivesse uma boca, meu queixo teria caído. O que diabos era aquilo?

Uma fileira de macas cobertas com lençóis brancos estavam perfiladas e o número delas eram incontáveis. Mas diferente da minha, que acabara de chegar, essas estavam sendo despachadas e recebiam uma placa com um número e um código, como por exemplo "5428 Rejeição Intravenosa". Em cada maca a palavra "rejeição" se repetia mudando apenas o motivo. Eu quase pude sentir um frio no estômago que não tinha mais. Distraído quase não vi meu corpo ser carregado. Novamente fui até onde eles o levavam.

A quantidade de pessoas ali dentro, do que era óbvio ser um laboratório, era enorme. O teto era alto. Parecia um hangar para a contrução de um zepellin, ou algo parecido. Uma sala envidraçada foi onde meu corpo foi parar. As portas de vidro se abriram e lá dentro uma penca do que pareciam ser cientistas se preparavam para fazer alguma coisa com meu corpo.

Dois que pareciam apenas assistentes pegaram meu corpo e colocaram sobre uma mesa de metal. Logo acima, uma coisa horrorosa estava diretamente apontada para mim, quer dizer, para meu corpo. Uma espécie de braço mecânico com pelo menos uma centena de agulhas, que obviamente, carregavam alguma coisa a ser injetada naquele que um dia foi meu corpo.

Dado um sinal, todas as pessoas na sala colocaram aqueles óculos protetores, numa cena bem clichê, e ao disparar de um alarme, o braço mecânico se expandiu e as agulhas começaram a brilhar, num tom meio esverdeado. Num movimento rápido, acertaram meu corpo. As agulhas entraram TODAS em minha caixa craniana. Eu quase senti a dor daquilo.

Um silêncio mortal se abateu sobre todos. Era surreal que um lugar tão apinhado de gente e de máquinas pudesse, de repente, ficar em tão profundo silêncio. Todos olhavam para meu corpo, inclusive eu, é claro. Parecia que os segundos que se passaram era horas, até que...

Com um grito sepulcral meu corpo levantou-se ficando sentado na mesa metálica. Todo escoriado do atropelamento e com algumas fraturas, eu me vi ali, sentado, com olhos vazios. Senti algo muito ruim quando meu corpo girou a cabeça e olhou diretamente para onde eu estava. O que afinal era aquilo tudo. Uma fábrica de zumbis? O que queriam ressuscitando corpo de pessoas mortas? A resposta não demorou a chegar.

Uma gritaria tomou conta do lugar. Todos estavam felizes, se cumprimentando. Todos diziam ""deu certo", "mais um". Meio que apressados, como se alguma coisa fosse perder o efeito, pegaram meu corpo que, apesar de estar "vivo" novamente, não tinha muita idéia do que estava acontecendo, afinal era só uma casca vazia, e levaram para uma outra parte daquele lugar imenso. Segui-os novamente.

O que vi a seguir era ainda mais impressionante. Uma enorme câmara estava aberta e uma fila de mortos-vivos estava apontada para ela. A porta da câmara se abria, um zumbido horrível se fazia ouvir, ela se abria vazia e um outro zumbi entrava. Por um instante pensei que estavam sendo desintegrados, mas não faria muita lógica. Olhando para o resto do lugar, pude ver que se parecia com uma estação da NASA, ou algo assim. Monitores mostravam gráficos incompreensíveis para mim. Vi que alguns homens com roupas protetoras se aproximaram de meu corpo e amarraram um cinto estranho em minha cintura. Cheguei mais perto e vi que havia um contador. Obviamente era um bomba.

Me distraí e não percebi que já era minha vez na câmara. Sem saber o que pensar entrei junto. Cheguei a conclusão de que aquilo era um teletransportador, como aquele de Jornada nas Esttrelas, só que muito maior e mais desengonçado. O meu eu zumbi olhava em volta, com aquele ar de idiota, típico de zumbis. Era até bem claro ali dentro. Mas a pergunta era, será que eu, um fantasma, seria teletransportado? O alarme soou e eu saberia em poucos segundos.

Um clarão cegante tomou conta da câmara, um tremor sacudiu tudo e um som irritante, como um zumbido no ouvido, foi aumentando. Um barulho como uma explosão fez a câmara balançar. Logo eu saberia se um fantasma poderia ser teletransportado, ou não.

Continua...

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