domingo, 24 de dezembro de 2006

O Natal de Jerusalem Jones

O NATAL DE JERUSALEM JONES


Então não havia muito o que festejar. Jerusalem Jones estava bêbado como um gambá alcóolatra. Queria apenas esquecer que era Natal. Não, não que sua infância tenha sido um desastre, e ele nunca tenha ganho nada. Seu Natal sempre foi o de uma criança normal. Pena que ele nunca foi uma criança normal. Ele detestava o Natal apenas por detestar. Ou era apenas mais um desculpa para se entupir de bebida. Na verdade, acho que era isso mesmo, afinal ele dizia odiar a Páscoa também, e enchia a cara pelas mesmas razões... ou falta delas.

Jerusalem Jones nunca acreditou em Papai Noel e, certa vez que seu pai foi cair na besteira de brincar com isso, tentanto subir no telhado da casa, Jerusalem Jones, lá com seus 8 anos de idade, pegou o revólver do pai, e começou a atirar em sua direção, que rolou, deslizou pelo telhado e caiu no chão, passando o Natal todo quebrado. Jerusalem Jones nunca entendeu qual era a da barba branca e da roupa vermelha. Sua mãe só fazia rir de tudo aquilo.

É, Jerusalem Jones apenas detestava isso de espírito natalino. Ele dava graças a Deus de não ter parentes ou mesmo amigos a quem tivesse que dar presentes. Além de estar sempre duro, provavelmente daria algo que não seria do agrado da pessoal. Foi pensando nisso tudo, meditando na vida ao sabor do álcool destilado, que Jerusalem Jones viu, àquela hora da noite, quatro Papais Noel saindo de um dos bancos da cidade. Cada um com um saco mais cheio do que o outro. Jones sabia, por algum motivo, que os sacos não deviam estar cheios de brinquedos.

A rua estava deserta, pois todos estavam em volta de suas árvores de Natal, e a Gangue do Papai Noel parece ter achado a oportunidade ideal para limpar o banco. E, com aquele disfarce, podiam ser abordados por aí e diriam que eram mais um dos tantos Papais Noel que andavam circulando pela cidade.

Jerusalem Jones foi notado por todos eles, que olharam em sua direção, mas vendo o estado alcoolizado dele, não deram a mínima importância e seguiram em frente. Mas Jones estava sóbrio agora, apesar de não parecer. Havia duas coisas que deixavam Jerusalem Jones sóbrio por mais bêbado que estivesse: cheio de mulher gostosa e cheio de dinheiro. E ele estava sentido o cheiro de muitas notas naquele momento.

Mantendo o aspecto de bêbado, Jones seguiu a quadrilha a uma certa distância. Eles estava indo na direção de uma carruagem, que já tinha um cocheiro à espera. Entraram todos os quatro e a carruagem partiu a toda. Jerusalem Jones entrou em desespero. Tinha que segui-los. Enfiou dois dedos embaixo da língua e tentou assoviar para chamar seu cavalo. Não conseguiu. Tentou novamente. Só saía baba. Ele ainda tinha efeito do álcool agindo sobre ele. O jeito foi gritar:

- CADÊ VOCÊ, CAVALO DE UMA PORRA?!

O cavalo apareceu dobrando a esquina e correu em sua direção. Jones pulou na cela do jeito que dava e disparou na direção da carruagem. A noite estava um breu e a lua mal iluminava o caminho. Ele mais escutava a carruagem do que propriamente a via. Seguiu mantendo uma boa distância até, que depois de um longo tempo, viu que eles decidiram parar. Com certeza iam dormir, para seguir viagem de dia. Estavam todos eles no meio do deserto.

Jerusalem Jones saltou e tentou pensar no que ia fazer. Uma coisa que ele tinha notado agora, ele não pensou em nenhum plano para enfrentar quatro Papais Noel armados. Ele suspirou, tossiu, e quase morreu com o próprio bafo de cachaça. O que fazer, afinal? Nessas horas é que ele queria que algo de estranho acontecesse. Uma daquelas coisas que costumam acontecer com ele quase sempre, sem ele saber o motivo. Ele precisava de ajuda! Ou isso, ou era morrer tentando tomar a grana daquele pessoal.

Jerusalem Jones via a fogueira, que eles acenderam, tremular no meio da escuridão. Ele tirou seus revólveres da cartucheira, segurou bem rente ao rosto, se preparando para fazer algo que ele nem sabia mesmo o que era. Morrer, talvez. Foi quando ele começou a escutar gritos horrendos e barulho de ossos sendo quebrados, despedaçados. Ouviu grunhidos e gritos de dor lancinantes. Sua espinha tinha virado uma trilha de gelo em suas costas. Os sons eram horríveis demais. Jones achava que nunca mais conseguiria dormir. Quando, enfim, o rebuliço parou, o silêncio voltou a reinar sobre o deserto. Mas ir lá ver o que era, nem pensar, não com essa escuridão.

Jerusalem Jones esperou, esperou e esperou até o dia amanhecer, sem pregar os olhos. Qaundo o sol nasceu, Jones sentia dores horríveis pelo corpo, por não ter conseguido dormir. Foi andando, devagar, até o local onde os bandidos estavam acampados. Quando chegou bem perto, conseguiu entender mais ou menos o que acontecera. Eles não viram, mas levantaram seu acampamento bem no centro de um cemitério indígena de animais. Ou talvez até soubessem, mas não estavam nem aí.

Mesmo assim, Jerusalem Jones não entendia o que podia ter atiçado a ira desses espíritos para tanto. Havia pedaço de Papai Noel para todo lado. Roupa vermelha, barba branca e pedaços de gente enterrados no chão. Jones olhou ao redor e viu os sacos de dinheiro intactos. Sorriu feliz da vida. Olhou mais em volta, vendo todos os estranhos túmulos de animais mais adiante, que eram marcados por pedras empilhadas. Viu que uma das covas estava remexida, e não acreditou no que viu. Um dos bandidos abriu o que pensou ser apenas um buraco e cagou dentro. Vendo o que restava dos ossos, Jones viu que era o tumulo de cão bem grande. Devia ser de algum chefe da aldeia. Que péssima idéia esse cara teve.

Jerusalem Jones se apressou em juntar os quatro sacos, quando ouviu um barulho às suas costas. Ah, não. Era o xerife e seus ajudantes:

- Jones! Foi você mesmo quem fez isso, meu filho?! Eu sempre achei que você era um vagabundo insolente, mas nunca pensei que fosse dado a heroísmos. Vou conseiderar esse massacre - que não faço idéia de como cometeu - como legítima defesa, meu filho. Pelo jeito você sabia que esse dinheiro era para obras de caridade de quatro cidades, doados pelo governador e conhecidos seus, devido ao Natal. Passe as sacolas, filho. Você fez um bom trabalho.

Jerusalem Jones ficou ali, parado, segurando quatro sacos vermelhos, cheios de dólares, pensando em como ele odiava ser chamado de "filho", por pessoas que não eram seu pai. Ele fungou, pensativo. Estava meio perdido em seus pensamento, até que decidiu entregar as sacolas e disse:

-É, xerife, tudo pelas criancinhas. Feliz Natal para o senhor e sua família.
- Pra você também, meu filho.

E o xerife deu as costas e se foi com seus ajudantes em seu encalço, sem que vissem o dedo que Jerusalem Jones mostrava para eles.

Já estava indo embora quando viu um é atrás de uma grande pedra. O corpo de um dos bandidos estava destroçado atrás dela, um de seus braços estava mais adiante, segurando um maço de notas. O idiota deve ter tentado subornar a assombração. Que coisa mais imbecil. Jones pegou o maço de notas e viu que tinha uma grana considerável.

Olhou para onde estava a cabeça do bandido, ainda com a barba branca (na verdade a barba parecia verdadeira), e disse:

- Obrigado, Papai Noel! Eu adoro o NATAL!

E se mandou para a cidade mais próxima, onde iria comprar alguns presentes para si mesmo!

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