sábado, 27 de janeiro de 2007

JJ e a Crise no Velho Oeste

JERUSALEM JONES - CRISE NO VELHO OESTE

Jeremiah Bernstein me devia uma grana e eu precisava ir até a casa dele cobrar. Isso implicava em ter de chegar perto dele, e eu detestava isso. Ele era um velho que teimava que era cientista e, em função de suas muitas invenções "revolucionárias, ele nunca tomava banho enquanto não as terminasse, e como ele estava sempre terminando uma e começando outra, isso significava não tomar banho nunca. Até mesmo eu não conseguia ficar sem banho tanto tempo, mas o maldito Bernie conseguia.

Outro coisa chata era como ele me agarrava e começava a delirar, contando como inventou o trem a vapor e a caneta-tinteiro e de como essas patentes foram roubadas dele por pessoas inescrupulosas. Tudo bem, fora o cheiro insuportável, algumas vezes eu dava boas risadas dessas histórias loucas do Bernie, mas hoje não era um dia em que eu estava de bom humor.

Quando me aproximei da casa, e bati na porta, ela se abriu sozinha. Quando eu entrei um cheiro forte de putrefação invadiu meu nariz que eu quase desmaiei. Acho que o Bernie realmente estava precisando de um banho, urgente.

Uma fumaça espessa vinha de outro cômodo da casa, onde eu mesmo nunca estive. Quando fui até lá, a visão de tudo me deixou enjoado. No chão, saindo de uma espécie de máquina, algo parecido com uma enorme caldeira, mas com uma porta na frente, estava o Bernie, saindo dela, como quem estivesse se arrastando, o rosto em desespero, olhando diretamente para mim. Mas o pior é que não era todo o Bernie, mas apenas metade dele. Algo o rasgou pelo meio, levando seu corpo da cintura para baixo.

Estranhamente sua metade estava bem em cima da linha da entrada daquela máquina estranha. Eu o rodeei, tentando entender o que havia acontecido. A máquina continuava a emitir um som, como se estivesse resfolegando, como um velho trem que se prepara para partir da estação. E estava muito, mas muito quente. Olhei de um lado dela, e um relógio esquisito estava conectado a vários canos que davam para o centro no alto da estranha máquina. Em vez de dois ponteiros, o relógio tinha uns cinco. Em vez de marcar as horas, ele parecia estar marcando certas datas. Porém, eu não conseguia entender o que era tudo aquilo. Quando me aproximei mais do relógio, senti uma pancada forte na cabeça, e apaguei.

... .... ... ...

Xingando a mãe de todo maldito traiçoeiro que ataca pelas costas, eu acordei, fui abrindo os olhos e divisando as coisas ao meu redor. Quando consegui ver com clareza, percebi um cara olhando diretamente para mim. Fiquei pasmo ao perceber que ele se parecia muito com o Bernie. Ele nunca havia me dito que tinha um filho. O homem devia ter uns 40 anos. Será que ele tá achando que eu matei o pai dele?

- Você é Jerusalem Jones? Ele me disse que eu devia procurá-lo se algo desse errado, e parece que deu. - Disse o suposto filho de Bernie, apontando para o corpo do seu - supunha eu - pai.

- Sim, sou eu. Mas porque me acertou na cabeça?

- Não fui eu, amigo. Quando eu cheguei aqui você já estava desmaiado aí no chão.

- Hmmmm... certo. Você é filho do Bernie?

- He he he he he!!!!

A risada dele parecia estranha, ao mesmo tempo melancólica e com um certo tom de apavoramento. Ele não parecia querer responder a minha pergunta. Ficou olhando para o corpo de Bernie com um olhar estranho, longínquo. Talvez estivesse tentando sentir alguma coisa por aquele velho que não via há tantos anos e não conseguia. Talvez Bernie o tivesse abandod...

- Eu sou ele. Sou Jeremiah Bernstein, que vai morrer daquela forma ali. Acho que não é todo dia que alguém vê como vai morrer. Sabe, quando esse velho maluco me procurou dizendo que eu devia tomar cuidado com quem eu me associava, para não perder patentes de importantes invenções minha, eu não acreditei, assim como você não está acreditando agora. Não acreditei até que alguns estranhos invadiram minha casa, exatamente nesta mesma hora, e foram na direção do velho, que agarrou uma espécie de caixa com uma pequena alavanca, mas quando ele a acionou... bom... os homens o agarraram pelas pernas, e foi com isso que eles ficaram. Metade do corpo dele.

A caixa com a alavanca acabou ficando na sala, não sumiu com a outra metade do corpo do velho. Os homens ainda estavam tentando entender o que aconteceu quando eu peguei a caixinha, e sem parar para pensar, eu a acionei... e aqui estou. Saí por aquela porta, de dentro daquela máquina, e não faço idéia de como vou voltar para minha época, pois pelo que pude perceber, eu viajei para o futuro. O futuro do meu eu idoso, que constrói essa máquina aí que parece poder transportar as pessoas através do tempo.

Eu fiquei sentado olhando para o homem, para o filho do Bernie, estupefato, de boca aberta, sem conseguir dizer uma palavra. O cara era jovem e já estava tão louco quando o pai que jazia morto ali, saindo de dentro daquela coisa que, com certeza, era alguma invenção estúpida do Bernie que deu errada. Talvez um novo tipo de máquina para retirar o fedor de meses sem tomar banho.

Eu tentava não rir, não cair na gargalhada, afinal o cara era, evidentemente, um maluco tão doido quanto o pai e, sabe-se lá o que poderia fazer se eu começasse a rir de sua história ridícula. Foi pensando em tudo isso que eu escutei a máquina chiar alto. A porta se fechou com um estrondo, quase jogando o corpo do Bernie do outro lado da sala. Um silvo alto quase ensurdeceu a nós dois e o vapor preencheu a sala. Quando tudo parou, a porta se abriu e de dentro da máquina saiu... saiu... saí... EU... 20 anos mais moço!!!

Meu eu u mais jovem olhou para mim mesmo, sentado ali no chão, deu um sorriso maroto, mas não falou nada. Foi até o cara que eu achava que era o filho do Bernstein, pegou-o pelo braço e enfiou-o dentro da máquina. Meu eu mais jovem mexeu nos ponteiros do relógio estranho, apertou uma alavanca perto do mesmo, e correu para dentro da máquina, se apertando junto com o outro. Antes de fechar a porta, olhou para mim, e disse:

- Cara, os anos não vão ser nada gentis comigo. - E dizendo isso, tocou a aba do chapéu num cumprimento e fechou a porta. A máquina chiou e apitou de novo, e um estrondo deu a entender que os dois foram embora.

Quando tudo terminou.... e a fumaça de vapor se dispersou... Bernie não estava mais na sala. O corpo havia sumido. Na verdade, a própria máquina também sumira. A casa estava limpa e não fedia mais. Ouvi passos vindo de outro cômodo, e era, bom, era o Bernie, trazendo um copo d'água:

- Desculpa ter te acertado, Jones. Pensei que fosse um ladrão ou algo assim. Não que que você seja muito honesto - E dizendo isso, soltou uma gargalhada. Era tudo estranho demais, e para piorar, o Bernie estava limpo, sem barba e parecia gente de verdade.

- Aqui está a grana que eu estava te devendo, Jones. - Bernie me pagou integralmente, e isso foi a gota d'água.

- Bernie, o que diabos aconteceu aqui?!

- Não sei, mas acordei hoje com uma sensação de dèja vu que não quer ir embora por nada. E mais, com uma estranha sentimento de que estou com uma dívida enorme com você.

- Não, não, tudo bem. Acho que o dia hoje está estranho demais pro meu gosto. - Me levantei e ia saindo, quando vi uma caneta-tinteiro na mesa do Bernie. Ao lado dela estava escrito Bernstein Inc.

Quando saí da casa, pude ver que ela, agora, era bem maior que antes. Com uma baita dor de cabeça, montei no meu pangaré fui embora, para não voltar a ver o Bernie tão cedo.

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