quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Perca Seu Tempo

PERCA SEU TEMPO, ACHE SEU RUMO

Uma parte da máscara se dissolveu e caiu sobre meu colo. Eu estava ali sentado no cais, quando isso aconteceu. Nem sei exatamente o porquê. Na verdade eu estava a observar as gaivotas mergulharem e saírem com peixes no bico. Vida e morte. E quase morro quando um carro passou rente a mim e afundou na água. Não consegui ver se estava vazio. Vidros fumê. Que pena, era um belo carro.

Saltei para as ruas de Granpicke Ville e fui em direção aos Altos e Baixos. Não era um bom lugar de se visitar, mas eu estava sem fazer nada mesmo. Andava do meu jeito costumeiro, apressado, ainda com metade de minha máscara no rosto. Ou seja, nem todos me conheciam bem ainda. E talvez nunca conhecessem. Todos nós temos nossos segredos e a maioria de nós morremos com eles... ou não.

Um avião a jato espirrou água da chuva do dia anterior. Disse um ou dois palavrões, mas isso era inútil, já que o desgraçado estava voando na velocidade do som. Imaginei em que faixa ele estaria. Minha calça ficou meio molhada, mas nada que não secasse dentro de alguns dias. O que deu raiva mesmo foi o susto que o desgraçado me deu.

Eu estava meio distraído nesse momento quando Deck, o mais nerds dos nerds apareceu do nada, como um fantasma pálido (sim, ele é pálido mesmo), e começou a falar sobre os mais novos seriados que a TV Avulsa vem passando. Eu fingia que o escutava, mas prestava atenção à loira que descia a ribanceira logo à frente. Ela rebolava tanto que quase fiquei hipnotizado pelo balanço da... região glútea. Pena que eu tinha que entrar em outra alameda e não naquela. E Deck continuava comigo.

Agora ele falava sobre a última moda extra-terrestre, que eram as antenas em forma de mola. Tinha gente implantando isso na cabeça. Depois dessa eu simplesmente holotaquigrafei Deck para outro lugar, esperando que ele não lembrasse de que fiz aquilo. A dor de cabeça que ele ia sentir provavelmente não ia passar nem com Astenovalgina. Estava perto dos Altos e Baixos quando senti que tinha tomado a entrada errada. Tremenda burrice. Território de Valência.

Peguei duas pastilhas e joguei para o alto. Elas tremeluziram e seguiram em frente, procurando uma saída. Eu esperava que elas voltassem rápido, mas escutei apenas dois baques surdos. Já era. Valência.

Senti que minha vida passava em minha mente em segundos. Mas parou quando chegou na minha decepção com a Dalila. Acho que não aconteceu muita coisa depois disso. Duas explosões à minha frente me acordaram e eu corri para o lado que parecia mais seguro. Dalila, aquela desgraçada. Ih, esquece isso, cara! Sua vida está em jogo agora. Não que você precise muito dela, mas morrer pode ser doloroso. Não mais do que aquilo que Dalila fez com... aaaah... escorreguei!

Desci por meia dúzia de becos invertidos. A noite caiu como um saco de batatas. Na verdade eu não vira ninguém me perseguir, só vi as explosões. Acho que Valência não era mais a mesma. Foi quando eu olhei para trás, enquanto escorregava sem saber onde ia cair, e vi uma nuvem de catarse vindo atrás de mim. Não me perguntem como é uma nuvem de catarse, eu não saberia descrever. Ela ia me engolir se eu não me desviasse dela. A porra da descida parecia não ter fim, e eu não conseguia parar. A nuvem estava bem perto quando senti um puxão.

Que doido! Era o jato. O piloto me agarrou com cabos aderentes e me jogou em um lugar seguro. Só ouvi o grito da nuvem de catarse se desfazendo. O que diabos foi tudo isso? Eu estava no cais novamente. E era dia ainda. Aqueles malditos becos são escuros demais.

Senti como se tivesse ganho uma segunda chance. Começar tudo de novo outra vez. Mas, nossa, estou cansado demais. Deixa isso pra outra hora. Melhor me sentar aqui e ver as gaivotas mergulhando. Até outro ciclo de horas. Chega por hoje.

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