domingo, 28 de janeiro de 2007

Bhalai dos falcões

BHALAI DOS FALCÕES


Bhalai alterou a rota em que estava voando já fazia algumas horas. O falcão não estava mais preocupado com as ordens que recebera. De repente ele entendeu o significado da palavra liberdade, e soube porque nascera com asas, soube que elas o faziam livre. Bhalai bateu suas fortes asas mais forte que o de costume. Alçou vôo mais alto e mergulhou mais fundo. Não estava mais preocupado com as ordens que recebera. Poderia ir onde quisesse.

De longe Bhalai viu as grandes manadas, presas ao chão e sentiu pena de todos eles. Bhalai jogou suas asas para trás e sentiu, pela primeira vez, o vento em seu corpo. Seu bico apontava para o sul, para as terras nunca antes visitadas por nenhum deles. Tantas regras, tanta coisa que os incapacitava, sendo que eles eram livres, desde que nasceram. Nada mais importava.

Ele lembrou de Kharuia, a Pequena Princesa, e de como ele a almejava. Sabia que voltaria, sendo ele Bhalai, O Liberto. Mas precisava ir às Terras do Sul, antes de desafiar o o Grande Rei, Thelon. Mas não tinha mais medo, dentro de si ele sorria, ao pensar o quanto demorou para se libertar de seus medos, de como apenas sobrevoou o Palácio Khandai, para ter pequenos relances da Pequena Princesa. Tudo que podia fazer, pois ela estava prometida ao Falcão-Mor Isthalum. E Bhalai sentia - e ele tinha certeza - em suas penas mais profundas, que Kharuia almejava a liberdade tanto quanto ele.

Bhalai não estava mais triste, e nem se preocupava com as pequenas dificuldades - sim, ele agora as via como pequenas - e estava disposto a encontrar nas Terras do Sul, a resposta para sua repentina epifania de liberdade. As Terras do Sul. O que haveria lá de tão importante para que algo dentro de Bhalai o impelisse até lá, fazendo-o acordar de desrespeitar as regras impostas pelo Grande Rei.

Ao sentir o vento frio que parecia vir diretamente de lá, ainda assim Bhalai não sentiu que deveria recuar, voltar e ser submisso ao Reino dos Alados, como sempre fora. Se manter na hierarquia das aves onde - todos sabiam, mas ninguém realmente admitia - as Águias de Rakha, eram quem realmente dominavam o Vasto Céu. O Reino dos Alados não era exatamente uma democracia, e Bhalai nunca seria mais que um Servo de Thelon.

As águias sabiam os segredos mais íntimos dos céus, e só partilhavam o que as interessava. Mas Bhalai não se importava com essa politicagem. Muito menos agora. Agora, que a mítica Liberdade o havia atingido em cheio. Seu bisavô, Thothai, lhe falara sobre essa Liberdade, mas isso era história para noites de insônia. Thothai era lembrado por alguns rompantes que o marcaram para a vida toda, até sua morte, e seu túmulo, no Cemitério dos Alados, ainda sofre com algumas "manifestações" de ira. Falar em liberdade era algo visto como execrável.

Bhalai sentia-se um pouco cansado. Já havia adentrado as Terras do sul fazia um bom tempo, e não via nada demais, que fizesse com que... ao voar mais baixo, Bhalai é, repentinamente capturado. Não pode ser! Bhalai achava que fossem lendas, histórias de terror para assustar os filhotes. Mas, ao que pareciam os domashes (humanos) existiam mesmo. Assim como os animais da terra, eles também não tinham asas. Como as lendas diziam, eles capturavam as aves, por se sentirem ressentidos de não poder voar. E agora Bhalai sabia não só que existiam, como fora capturado por eles.

... ... ...

Os meses se passaram, e os domashes insistiam em ensinar coisas que Bhalai já sabia. A maioria delas era para o manter em submissão, e de submissão Bhalai entendia. Mas, para não desagradá-los, Bhalai fingia que aprendia tudo, e sentia pena de como se sentiam felizes de estarem conseguindo domesticá-lo.

Bhalai pensava muito em fugir, mas ainda queria saber mais sobre as Terras do Sul, por isso, quando o soltavam para os "treinos", ele não voava para longe, como seria simples de se fazer. Aqueles domashes viajavam muito e, quase sempre, o levavam consigo. Pareciam ter orgulho de Bhalai. Mesmo sem entender nada dos grunhidos que eles emitiam, Bhalai sentia suas emoções, sendo a raiva, a mais frequente. E Bhalai a sentiu em suas penas, bem mais explicitamente, algumas vezes.

... ... ...

Eis que passado o que pareceu ser muitos anos, Bhalai estava já acostumado a viver entre aqueles domashes. Era difícil admitir, mas era possível que Bhalai até mesmo os amasse. Mas havia a Pequena Princesa do Reino dos Alados, a quem ele não esquecera um só dia de sua estadia nas Terras do Sul. Era hora de voltar e, quem sabe, usar alguma coisa que aprendeu entre esses seres sem asas, para mostrar que era mais que um Servo de Thelon e que a Liberdade era mais que agradecer por servir a tão "generoso" rei.

Bhalai esperou por um dia de vôo regular, em que seus "donos" o levavam para exibição, e sim, Bhalai voou para longe, para voltar a seu lar no Reino dos Alados. Não quis olhar para trás, não queria admitir que sentiria falta de tais criaturas.

Bhalai voltaria ao Reino dos Alados, e não apenas Kharuia, mas todos aprenderiam sobre a Liberdade, afinal a Liberdade era para todos, para isso nasceram com asas.


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