terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Vidas no Deserto

VIDAS NO DESERTO


Não era tanto o calor, mas os ferimentos que incomodavam. Ser atacado por uma horda de guinans, os ratos do deserto, não era uma experiência das melhores. Levaram tudo, tudo. A mensagem que era para ser entregue ao khfaer de Kanandra, se foi, e os ratos nem mesmo sabiam o que era, ou o que significava. Rasgaram-na apenas por diversão. Guinans apenas pilhavam e matavam. Ratos sem mente ou alma.

A mensagem acabaria com a guerra de 36 anos entre Kanandra e Thuliati. Todo meu destacamento foi morto. Treinados, eu sei. Bem treinados por mim mesmo, a maioria. Mas os guinans... eles eram milhares. Nós apenas umas poucas dezenas. Há séculos um ataque guinan assim não acontecia. Porquê logo hoje, justamente hoje.

O sol já começa a descer e a sombra a muito passou do ponto em que o khfaer Ramassir disse que esperaria uma resposta de meu mestre, o khfaer Dharã. Com meu destacamento assassinado e minha missão totalmente inutilizada, sobreviver não era motivo de alegria. Morrer parecia ser a única opção. Morrer no deserto. Mas parecia que o dia ainda me reservava algumas surpresas.

O céu ficou nublado e nuvens de chuva começaram a se formar. A quanto tempo não chovia por essas bandas? Meu avô disse que uma vez alguém lhe contara que chovera, e que foi algo para ser festejado durantes semanas. Assim disse ele, mas ninguém acreditava muito nessas histórias. Chuva era uma lenda,e no Deserto de Mahagha seria tomado como piada se alguém contasse que choveu ali.

A chuva caía forte, agora. Eu não conseguia me levantar por causa dos ferimentos. Estava esperando a morte, ali, em meio as águas. Morrer sob um milagre, era bem irônico. Eu estava um pouco desorientado, por causa da dor, quando pensei ter visto um vulto vindo com a chuva. Não. Não poderia haver ninguém por estas paragens. Todos sabiam que esse deserto não permitia que ninguém fizesse dele sua morada. Ninguém sobreviveria.

Eu continuava olhando para a direção onde pensei ter visto o vulto, quando de repente, senti que alguém agarrou meu braço, vindo pelo lado ao qual eu não estava olhando. Não podia reagir, e a pessoa pegou meu outro braço e começou a me arrastar. O que estava acontecendo? Eu estava morto e era assim que eu seria carregado para o Eterno Merivah?

Me senti sendo arrastado por horas e horas. Com a chuva nos acompanhando. Ao mesmo tempo, eu sentia uma paz enorme, e as mãos que me seguravam os pulsos, eram tão macias. A chuva não deixava eu ver como era a pessoa, ou mesmo se era homem ou mulher. Poderia ser um guinan que veio terminar o serviço. Mas por que se daria ao trabalho de me arrastar tanto tempo?

Senti a chuva parar, mas não porque acabara e sim, porque entramos em uma pequena caverna. Estava a salvo, seja lá por quem fosse, creio eu. A pessoa me colocou num canto da caverna e quando limpei os olhos para enxergar melhor, vi uma moça. Não conseguia divisar de que tribo eram seus trajes. Seu véu também não me deixava ver seu rosto. Ela começou a juntar gravetos para uma fogueira. Eu tentei me sentar, mesmo com toda dor. Não consegui. Dor demais, ferimentos demais.

Ela abriu um frasco e veio na minha direção com ele. Pensei que ela fosse me dar aquilo pra beber, mas, em vez disso ela bebeu... ou pareceu beber. Ela segurou minha cabeça, levantou-a um pouco, apoiou em sua perna, e abriu minha boca. Então ela cuspiu o conteúdo do frasco em minha boca. Eu estava fraco demais para reclamar daquilo. Acabei engolindo, mesmo sem querer.

Era um líquido morno, com gosto de almíscar. Tossi um pouco, engasgando. Quando terminei de engolir o troço, senti um clarão na cabeça que quase me fez desmaiar. Uma sucessão de imagens estranhas apareciam em minha mente. Duas pessoas em lugares, terras e tempos diferentes. Uma mulher e um homem, apareciam em uma sucessão de cenas que pareciam ir e vir no tempo. Seus rostos ia mudando sempre que mudava a cena. Aquilo foi me dando uma sensação de vertigem, até que acabei desmaiando.

- Ahdan kha meir! - acordei com a moça me falando essas palavras. Eu estava sentado, as dores tinham passado, e eu sobreviveria. Mas ainda não entendia o que ela estava dizendo.
- Ahdan kha meir! - ela repetiu. Era um dialeto desconhecido para mim. Vendo que eu não a entendia, ela fez um gesto dizendo que ia retirar o véu, talvez achando que isso ajudasse a reconhecê-la, eu acho.

Assim que ela tirou o véu, uma sensação estranha de reconhecimento e de já ter vivido aquela situação antes se fez presente, e não queria mais ir embora. Já tive essa sensação antes, mas muito ligeiramente. Dessa vez era permanente. Ela parecia impaciente e repetia:

- Ahdan kha meir! Ahdan kha meir! Ahdan kha meir!

Jogou as mãos para cima num gesto de desespero. Ela parecia sentir que errou em alguma coisa. Olhava para mim, depois para o vazio, pensando, imaginando algo, acho que tentava se lembrar de alguma coisa... de repente ela pareceu se lembrar de algo, seus olhos quase saltaram e ela soltou uma exclamação!

Ela me segurou, e pensei que fosse me beijar. Talvez ela fosse uma feiticeira e seu beijo fosse me fazer entender o que ela falav... hmmm.. não, o que é isso? Ela está chupando o lóbulo da minha orelha?! Mas o q...? Oh! Eu... eu lembro agora! Então ela disse a mesma frase e eu consegui entender:

- Encontrei você, novamente!

Então reconheci seu rosto, e entendi tudo que estava acontecendo.



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