sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

JJ e os Terrores da Noite

JERUSALEM JONES - TERRORES DA NOITE


Jerusalem Jones estava completamente louco. A maldição que adquirira ao ser mordido por uma morta-viva, que aliás tinha sido sua melhor amiga, voltara com força total. Mesmo os feitiços de um velho índio, avô de um amigo seu, só serviram para evitar que ele se tornasse um cadáver ambulante. Mas a fome, sim, a fome por carne humana o atacava de tempos em tempos... como agora.

Ele entrou na cidade e atacou sorrateiramente os moradores, saciando sua fome. Ele não se lembrava mais exatamente o que fora fazer nesta cidade. Talvez encontrar uma pessoa, não lembrava. A cidade era familiar, algo no fundo de sua memória embotada pela fome. Ele estava a espera de mais uma vítima, escondido entre os becos escuros.

Escutou passos. Uma mulher se aproximava. Quando ela passou por onde ele estava, agarrou-a e a mordeu arrancando um naco de sua face, com uma única dentada. O choque a impediu até mesmo de gritar. Jerusalem Jones ia continuar sua refeição quando percebeu que conhecia a mulher... oh, não!

- Mãe?!

Jerusalem Jones acordou de um pulo, suado, tremendo. Um pesadelo horrível. Fazia muitos anos que não via sua mãe. Depois que seu pai morreu, ele ganhou um padrasto, e então decidiu que, estando sua mãe com alguém, era hora dele ganhar o mundo e viver sua própria vida. Ainda estava tremendo, relembrando o sonho horrível. O mais estranho era que não sentia nada na maldita cicatriz em seu pescoço. Parecia nem mesmo existir.

Logo ele percebeu que ainda era noite lá fora. Estranhou, pois parecia que tinha dormido muito tempo, e que já deveria ser manhã. Chegara em Dodgeville apenas para descansar e partir na manhã seguinte. E agora estava sem sono. Mesmo que quisesse não conseguiria dormir, depois de um pesadelo desses.

Desceu as escadas da pensão e saiu para a rua deserta. Uma brisa incômoda trazia um cheiro esquisito que ele não conseguia definir o que poderia ser.

Acendeu um cigarro e continuou andando, sem rumo. De repente, escutou o barulho de bater de asas e ao olhar para trás, um homem vestido com uma espécie de uma batina preta estava postado exatamente atrás dele. Jerusalem Jones levou um susto, mas não teve tempo suficiente para reagir, quando foi agarrado e o estranho enfiou os dentes em seu pescoço.

Porém, ao engolir o sangue de Jerusalem Jones, o estranho deu um grito horrível, e e seu corpo começou a literalmente evaporar, exalando um fedor indescritível. Logo restava apenas um monte de cinzas no chão, junto ao manto estranho que ele vestia, e um anel com um "D" enorme.

Acostumado com as bizarrices em sua vida, Jerusalem Jones apenas continuou andando. Na verdade, ele achava que tudo não passara de alucinação. Estava pensando nisso quando de uma casa de dois andares, próxima, pulou um enorme bicho peludo, que ele viu com o canto do olho. Só deu tempo de amortecer a queda.

Os dois rolaram pelo chão. O bicho que parecia um cachorro enorme, ou um lobo, sei lá, rosnava e babava sobre o rosto de Jones, que tentava manter suas presas longe de sua cara. Em meio a isso tudo, Jones pensava porquê ninguém acordava com todo aquele barulho.

O bicho já se preparava para arrancar sua cabeça quando alguma coisa o puxou de cima do J.J. Ele quase não acreditou no que via: um homem nu, de uns dois metros e meio de altura, com costuras por todo o corpo, inclusive no rosto, agarrara o bicho, que se debatia.

Jones sacou sua arma (que na verdade era a arma, que tinha balas de prata, do mascarado que ele matara no deserto) e atirou no cachorro gigante. O bicho estrebuchou no chão e... nossa... começou a diminuir, perder pêlo, até que se transformou em um homem franzino... que estava bem morto, agora.

O homem costurado olhou para Jones, e o agarrou da mesma forma que fez com o homem-cachorro, começando a apertá-lo, quase quabrando sua espinha. Jones conseguiu colocar o revólver na barriga do dito cujo, e descarregar. Os dois caíram.

O que estava acontecendo afinal? O que era tudo aquilo? Porque ninguém acordava na cidade, com todo aquele alvoroço?

Jones escuta um grito vindo de uma das casas à frente. Um grito humano. Corre para tentar ver quem é essa pessoa que parece ser a única da cidade.

Ao localizar de que casa vem o grito, arromba a porta, corre para o quarto de onde parece vir o som, e encontra um monstro com barbatanas nas costas, atacando um velho deitado. Era do velho o grito. Jones saca um dos revólveres que ainda está carregado de balas de prata, e atira, matando o bicho.

Jones se aproxima da cama do velho e vê que ele segura um livro. Pega e lê a capa onde está escrito "Histórias de Terror - Monstros e Pesadelos". Pesadelo, hein, pensa Jerusalem Jones. Ele suspira, olhando para o velho de olhos abertos, vidrados, mas que ao mesmo tempo parece estar dormindo.

Lá fora um barulho ensurdecedor de passos faz com que Jones pegue o livro e veja onde o velho parou de ler... é o capítulo "A Legião do Inferno".

Jerusalem Jones coçou a barba por fazer, e tentou raciocinar. O barulho lá fora aumentava e o cheiro de enxofre dava ânsias de vômito. Logo eles estariam ali, e ele não tinha mais balas. Apenas uma, na verdade.

Jones lembrou de seu sonho, com sua mãe, e de como aquilo pareceu real. O velho, ele estava sonhando. Sonhos bem reais, depois de ter lido aquele livro de terror. Mas porquê só ele estava vendo as coisas que o velho sonhava? .... Oh, é isso. Por algum motivo, que ele não fazia a mínima idéia de qual era, Jones estava nos sonhos daquele velho.

As coisas já estavam dentro da casa. Jones não teve muito tempo para pensar. Tentou acordar o velho e não conseguiu. Era como se ele estivesse em coma. Sem muito tempo, ele só conseguiu pensar em uma saída. Atirar na cabeça do coroa, para ver se conseguia sair daquele sonho. Será que ele iria morrer na vida real? Aliás, será que Jones ia sobreviver também?

Os monstros do Inferno apareceram na porta, e Jones não teve mais o que pensar, encostou o cano na cabeça do velho, pediu perdão pelo que ia fazer, e atirou... BLAM!

Jerusalem Jones abriu os olhos... seu coração parecia que ia sair pela boca. Estava acordado, estava vivo. Nem conseguiu acreditar. Outro maldito sonho.

Jurou que não ia mais ler livros de terror. Estava velho demais para essas coisas. Já com 74 anos, ele devia saber que seu coração não aguentaria esses pesadelos. Ele só não sabia quem diabos era o cara que, no sonho, atirara em sua cabeça sem a mínima piedade. Parecia conhecido, mas o velho J.J. não conseguia lembrar quem poderia ser.

Maldição, pensou Jones, me mijei de novo.

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