segunda-feira, 12 de março de 2007

Lars na Cidade dos Pássaros

LARS NA CIDADE DOS PÁSSAROS


Lars se dava conta de que era apenas um cão, ele sabia disso. Como ele passou a raciocinar, e entender que era um cão, aí ele já não sabia mais. E ele não estava nem um pouco a fim de usar seu cérebro para filosofar se isso era devido a algum tipo de Grande Plano Divino das Coisas Que Ninguém Mais Sabe. Ele era apenas um cão. Um cão que pensava.

Às vezes ele sentia apenas saudades de morder a cabeça da sua vaquinha de pelúcia, ou de sair correndo para pegá-la quando seus donos apenas pediam. Na verdade ele pegava a vaca sempre que seus donos pediam qualquer coisa. Eles acabavam rindo disso. Lars agora fazia isso, conscientemente.

Pensar não tornou sua vida mais fácil. Talvez fosse para isso que ganhou esse novo "poder". Afinal tudo aconteceu logo em seguida ao desaparecimento de Lúcia, a bebê recém-nascida, que fez com que todos esquecessem um pouco de Lars, e dessem atenção a ela. Bom, pelo menos agora ele ENTENDIA o porquê disso tudo. Ele faria o mesmo.

Lars ficava amuado num canto, entendendo tudo que seus donos passavam. Sentia uma tristeza profunda. A casa parecia mais vazia e até o sol que fazia lá fora parecia mais triste.

Joanna, a filha mais velha, que até a chegada de Lúcia tinha sido filha única, vivia chorando, talvez mais que seus pais. Tão novinha e já tendo que enfrentar esse tipo de sofrimento, a perda da irmã. Lars perdeu seus irmãos logo cedo ao ser separado deles, mas não era a mesma coisa. Era algo a que estavam acostumados, ele entendia isso agora.

Lars teve um sobressalto e se pudesse, daria um patada na testa, e diria, como não pensei nisso antes?! Mas não, ele não sabia falar, apesar de conseguir pensar, e não tinha coordenação suficiente para dar uma patada na testa, como os humanos faziam.

Correu até o berço de Lúcia, que estava intacto, deixado do mesmo modo desde que ela desapareceu. Lars farejou o quanto pode, tentando sentir algum cheiro estranho, algum cheiro diferente do que estava acostumado. Fora o de xixi, ele sentiu sim, um cheiro de.... hmm?... pássaro?! Por quê?

Era um cheiro forte e, por estranho que parecesse, ele sabia que era de um pássaro grande. Lars desatou pela porta da frente, e rezava (cães podem rezar?) para que, mesmo tendo passado tanto tempo, o cheiro não tivesse desaparecido.

Lars correu até o bosque perto da casa. O cheiro vinha de lá. Ele não se lembrava de ter visto pássaros grandes por ali, apenas os usuais, comuns. Mas não queria pensar muito nisso, ele estava na pista, e correu, correu como o vento (nossa, cães também podiam ser bem clichês).

Logo chegou em um ponto em que o cheiro se dispersava. Sumia. Ou subia, não sei! Era uma clareira. Ele começou a ganir sem saber o que fazer. Ele sentia algo estranho em sua alma de cachorro. Algo iminente. E aconteceu.

Sentiu quando as garras se cravaram em seu corpo carregando-o para cima. Parecia incrível, mas devia ser o maior pássaro que ele já havia visto na vida. Ele o carregava sem esforço. Lars não conseguia definir que tipo de pássaro era. Mas sendo daquele tamanho, não devia ser nenhum conhecido.

O bicho o carregou por horas, e Lars já estava todo dolorido. Foi quando notou que estavam por cima das nuvens. E em direção ao que parecia ser uma cidade. Lars se sentia em um livro de contos de fada para crianças de 3 anos. Mesmo nunca tendo lido nenhum.

Ao entrarem na cidade, viu que era composta principalemente de construções-poleiros. Como se fosse edifícios sem paredes. Todos os tipos de aves, mas a maioria desconhecida para ele.

Foi levado pelo meio da cidade até a construção que parecia ser a principal, porém a mais vazia de todas. Foi depositado nada-gentilmente no solo... PLOF!

Lúcia estava num berço que estava mais para ninho, entre duas aves mal encaradas. Guardas, provavelmente.

"Sabemos que pode raciocinar, criatura Lars".

Wow, wow, wow... quem estava falando dentro de sua cabeça?! Olhou para o outro lado e viu quem era, e que evidentemente, devia ser o dono do lugar. Imponente, mais colorido que a maioria, forte... devia ser o re...

"Rainha, Lars, rainha... você está mal acostumado entre os humanos. Começa a enxergar como eles! Mas vamos ao que intessa, tanto a você, como a nós da Cidade dos Pássaros.

Lúcia é o que os humanos chamariam de 'A Escolhida', o propósito de seu nascimento nem seus pais se deram conta. Trouxemos ela até aqui, pois ainda havia uma última , digamos... peça, a ser encaixada, para que ela se dê conta de quem é, quando chegar a hora.

E sim, calma, seu papel nisso tudo está bem comprovado, não? Você será seu guardião terrestre. Provou hoje que tem competência pra isso.

Quando você voltar com ela, será no ponto onde ela desaparece. Será como se nada tivesse acontecido e assim nem os pais, nem autoridades terrenas lembrarão o que houve.

A Cidade dos Pássaros é apenas uma espécie de portão de entrada, guardando de onde Lúcia realmente veio. E isso ela saberá no devido tempo.

Agora você será levado de volta com ela, e cumprirá seu propósito, Lars."

Acho que Lars não podia discordar, e também não havia porque. Ele só pensava se seu dono deixara cair algum remédio controlado dentro da sua ração e ele estava preso em uma alucinação.

Lars e Lúcia foram levados de volta, e sim, voltaram ao dia do desaparecimento. Coisa incrível. ele não acreditava. Ela estava agora no berço e ressonava, como se nada tivesse acontecido.

Vindo da sala ele ouviu a voz de Joanna dizer:

- CADÊ, LARS?! CADÊ A VAQUINHA?

E Lars correu para procurar a vaca.

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