quinta-feira, 1 de março de 2007

O Cheiro da Noite

O CHEIRO DA NOITE
01 de Março de 2007
Eu estava sentado assistindo TV, quando tive uma sensação estranha. Não era dèja vú (ou seja lá como se escreve isso), pois eu estava acostumado a isso. Era algo... diferente. Levantei, abri a porta e o barulho que ela fez quase me ensurdeceu. Mas não havia nada de errado com ela, tinha absoluta certeza. Saí para a rua, sentindo o cheiro da noite. Sabe, o cheiro da noite, como quando a gente sente o cheiro de terra molhada, ao chover. É parecido. Bom, na verdade é diferente. E agora eu parecia sentir o cheiro da noite ainda mais intensamente.

Uma brisa leve parecia deixar meus sentidos mais intensos. Meu chinelo raspava as pedras de paralelepípedo que a prefeitura cismou em colocar na minha rua. Todo o bairro era asfaltado, mas justamente aqui, teve de ser paralele... ah, esquece, é muito chato escrever paralelepípedo... ... ... droga!

Eu parecia sentir cada pedrinha embaixo de meu chinelo. Então achei melhor parar e me sentar numa calçada ali perto. A brisa ainda se fazia sentir. Suave, constante. A sensação estranha ainda continuava. Mais ou menos como se eu estivesse esquecendo alguma coisa. Sabe... aquela sensação terrível de quando você sai de casa, indo trabalhar, por exemplo, e você SABE COM CERTEZA que está esquecendo alguma coisa, só não sabe o que é. Então se conforma que não pode se atrasar mais e deixa para quando seu cérebro voltar a funcionar e você lembrar que era algo realmente importante que não podia ficar para trás...

Eu aspiro o ar com mais força. O movimento na rua é quase nenhum. Porém, nesse instante, quando penso nisso, Kayla, minha amiga de infância passa, chegando do trabalho. Ela acena, mas não pára. Sinto que ela está cansada e... oh, meu Deus! Como eu fiz isso? C-como, por todos os santos, eu fiz isso?!

Como se percebesse algo, Kayla se vira e acena novamente. Eu aceno sem graça. Que será que foi aquilo? Deve ser café demais. Pelo menos tem de ser café, já que eu não bebo. Acho que foi algum tipo de alucinação, sei lá. Vai ver é influência da TV. Bom, não sei o que Chaves pode fazer de mal... começo a rir sozinho lembrando do Chaves.

Ainda estou rindo sozinho feito um panaca, quando as luzes dos posts começam a queimar com um pipoco. Uma a uma, em sequência. Cara, isso tá ficando cada vez mais estranho. Pra piorar não parece ter mais viva alma na rua.

Sei que aqui fica meio deserto a essa hora por causa da novela, mas sempre tem a Barraca do Nêgo ali, aberta. É mesmo... agora que notei. O Nêgo nunca fecha. Mas nunca mesmo! Isso é ainda mais sinistro que tudo. Será que morreu alguém da família? Nãaaooo. Quando a mãe dele morreu, ainda assim ele deixou um moleque tomando conta do bar e foi ao en... bom, deixa eu ir até a esquina e ver se tem gente na Rua Principal. É, podem acreditar, o nome da rua principal é Rua Principal.

Quando me levanto, alguma coisa me derruba, e nesse momento, eu sinto uma baita dor de barriga de tão nervoso que fico. É psicológico, sempre acontece quando fico ansioso. Engulo em seco. Fico no chão, olhando em redor. Os cotovelos arranhados.

A brisa fica morna, quase espessa. Os sons dos grilos pararam faz um tempo, agora que percebi. Minha vontade é não me mexer mais, e ficar aqui, quem sabe dormir aqui mesmo no paralele...ah, vocês sabem, e ver se acordo e isso tudo é só um sonho estranho.

"Sonho estranho". Nossa! Quase me mijo. Uma voz fantasmagórica repete esse meu último pensamento bem no meu ouvido. Pareceu raspar o meu cérebro. "Sonho estranho". Puta merda... me levanto sem saber exatamente o que fazer. Não quero voltar pra casa, ficar sozinho lá dentro não me parece uma opção muito boa. Sinto vontade de vomitar. Vontade de correr e vomitar. Mas só posso escolher entre uma delas, as duas seria um desastre. Então resolvo correr. E quando disparo na direção da Rua Principal eu... realmente... disparo.

Corro, como o The Flash, dos gibis... e acerto um carro parado mais a frente. Acerto com força. Muita força. E nessa hora, sem saber o que tá acontecendo... eu vomito.

Depois que termino, respiro. A sensação estranha aumenta.

"Se lembre agora!". A voz fantasmagórica novamente. E agora ela não pára mais. Começa a falar sem parar. comigo.

"Você não é desta realidade. Enviaram você pra cá. Se lembre, agora! Sua realidade precisa de você, mas você precisa se esforçar mais. Você se acomodou a isso aqui, a este mundo decadente, sem esperanças. Retire o implante. Lembre-se agora!".

Que implante?! Eu disse em voz alta. Não havia mesmo ninguém por perto. O bairro todo estava mergulhado na escuridão. Até o cheiro da noite estava diferente. Queimava em meu nariz.

Isso tudo é ridículo! Eu tô dentro de um sonho muito real. Faz séculos que eu não leio gibi, mas tenho certeza que deve ser culpa deles. Minha mãe vivia me dizendo que um dia eu ia ficar maluco... isso e que eu ia ganhar pêlos nas mãos. Não, não por causa dos gibis, por causa d.. bom, vocês sabem.

Minha cabeça dói. Quero dormir, voz do inferno. Eu não sei de implante, do jeito que sou "sortudo", seria uma sonda anal, ou coisa assim. Vou pra casa, dormir. Quem sabe acordo.

"NÃO!"
Alguma coisa me segurou pela camisa. Parecia estar tentando me levantar. Oh, merda! Está me levantando. Drogaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!

Me jogou... me jogou pra cima. Vários metros pra cima!!!! Estou caindo. Eu sei, agora eu devo acordar! ACORDAR! ACORDAR! Ou...

Voar.

Eu... vôo... flutuo de volta ao chão. Então eu vi mesmo através da roupa da Kayla. Visão de raio-x, sei. Bom, pelas contas então eu devo ser o cara lá...ah, nem me atrevo a pensar isso. É ridículo demais.

Preciso pensar, pensar!

"O implante!"

Tá, tá! Já sei, já sei. Implante, implante. Saco. Pelo que lia de gibi essas coisas de implantes ficavam em lugares bem óbvios, tipo... hmm... ouvido?

Silêncio.

Ok. Meto o dedo no ouvido e... bom... cêra. O que mais eu queria. Eu tô sonhando. Se bem que meus arranhões estão doendo pacas e... hmm... se eu sou o... você sabe... porque ainda tô arranhando e ardendo pacas? Hm?

De repente as luzes dos postes acendem uma a uma, espoucando. O barulho dos grilos voltam e como se sempre estivessem estado ali, algumas pessoas estão na rua e a barraca do Nêgo tá aberta.

Não há vômito no chão.

Sinto que estou tremendo... e não é de frio. Quando começo a andar na direção de casa, uma revista cai bem na minha frente... do nada. Me abaixo, olho, mas não pego. É do Super-Homem.

A voz retorna e sinto-a encostada ao meu ouvido. Dá uma risadinha sinistra, bem debochada, e diz:

"Hehehehe... vai dizer que não foi engraçado?"

Minha espinha gela. Eu corro pra casa (em velocidade normal dessa vez), sem saber como vou conseguir dormir... pelos próximos dez anos.


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