quinta-feira, 26 de abril de 2007

Arcano

ARCANO


O Mago de centenas de anos estava alquebrado, sem muito saber o que fazer, pois enfim o Hielomundo estava prestes a mudar, entrar na assim chamada Nova Era. Não que ele não estivesse acostumado às mudanças, afinal ele passou por muitas, mas agora a coisa era muito diferente. Novas tecnologias se levantavam contra a magia e as pessoas nem mesmo o procuravam mais por ajuda. Era um novo começo e um novo fim.

Mesmo estando presentes, as forças da natureza e da magia intrínseca pareciam se diminuir ante à enormidade das novas mudanças que os seres humanos vinham promovendo. Ou talvez o mago estivesse enganado e a magia apenas estivesse indo embora, procurando um lugar não-contaminado por idéias desvirtuantes.

O arco da janela desenhava a escuridão ao longe, onde relâmpagos pareciam trincar o céu nebuloso. Tudo ia mal, tudo ia tão mal. O Rei Trebus havia sido derrotado e o povo queria uma nova forma de governo que o mago enm mesmo sabia que existia, Democracia. Cada coisa. O povo decidir. O povo sempre decidia pelo pior.

O mago tomou um gole de sua infusão e tentou esquecer tantos problemas por alguns minutos. Seu corvo estava agitado e parecia saber de tudo que se passava na cabeça de seu mestre. Num canto, depositado de qualquer jeito, o escudo de Trebus jazia. Escudo que o protegera de tantas batalhas, agora era mais que apenas um objeto entre tantos, pois Trebus, assim como muitos, perdera a fé, e sem fé não há magia que resista. O povo queria mais que pão e circo, como assim chamavam o governo do rei deposto.

A Batalha de Agrimendor fora decisiva e o líder populista, Keran, tomou o castelo e o poder, dizendo que este agora, ao povo pertencia. O mago avisara a Trebus as consequências de se deixar os desígnios do destino de lado e esperar que a Ciência desse todas as repostas. Aparentemente ela deu uma resposta que Trebus não gostou de ouvir: a população aprendera a usar bem as novas tecnologias e usou isso contra seu senhor. O escudo se partiu.

Um relâmpago mais próximo quase ensurdeceu o velho mago. No clarão ele vislumbrou parte do futuro. Ele viu um clarão dentro de outro clarão. Tão cegante quanto este. Contagioso. Na verdade, era chegada a hora de ir.

O Mago largou o cajado em cima da pequena távola no meio de seus aposentos, conjurou, movendo os lábios quase silenciosamente, um antigo feitiço e se transportou para um outro tempo, quiça um outro mundo. Antes de partir, viu Trebus em uma prisão nada digna de sua anterior realeza. O escudo se partiu em mais partes do que podia ser remendado, apesar de estar inteiro. O Mago se foi. Seu tempo havia terminado, mas não sua vida.

Deixou para trás apenas uma centelha de luz. Se duraria, não era mais assunto dele.


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