terça-feira, 8 de maio de 2007

A Princesa e o Mico

A PRINCESA E O MICO

A professora começou a tagarelar sobre a Festa da Primavera e eu juro que não estava prestando atenção. Não até que ela disse quem seria a princesa. Ela, Valéria. A menina mais linda que eu já tinha visto em toda minha vida. Tudo bem que minha vida se resumia a meros dez anos!

Eu sabia o que viria a seguir. A professora Celina ia pedir que algum dos meninos fosse o príncipe. E foi o que ela fez. Sendo a Valéria a princesa vi que todos os meninos da sala levantaram a mão. Pelo menos todos que eu sei que babavam por ela e, claro, eu era um deles. Só que eu não levantei a mão, não de imediato.

Entendam, eu sou tímido. Sempre fui tímido a minha vida inteira. Tudo bem que a minha vida toda se resumiam em apenas dez... OK, OK... eu sei que já disse isso! Quando eu era mais novo que sou hoje, eu costumava até mesmo me esconder atrás das portas quando chegavam visitas lá em casa. Para que eu entrasse em um ônibus era um sacrifício. Eu tinha vergonha das pessoas estranhas dentro dele. Mas agora se tratava dela, da Valéria!

A professora não escolheu nenhum dos meninos. Eu sabia que, no fundo ela estava esperando que eu me apresentasse. Se a princesa fosse qualquer outra, eu ficaria quieto, talvez fingindo que estava dormindo. Eu abaixei a cabeça e levantei o braço, escutando murmúrios entres os garotos chateados, quando a profesora me escolheu. Logo eu aprenderia que menina linda nenhuma Valéria... quer dizer, valeria aquele sacrifício.

Os ensaios eram motivos das risadas mais cruéis que eu já havia recebido. Nem mesmo os olhos brilhantes de Valéria faziam com que eu esquecesse a humilhação e a vontade de me meter em um buraco. Mas eu ainda era muito novo para isso (piadinha!).

Para ela isso era a coisa mais comum do mundo, afinal ela era uma menina, devia brincar de ser princesa o dia inteiro. Para mim era mais fácil ter farpas de enfiadas nos olhos. Mas isso era só o começo de tudo. A coisa iria piorar bem mais, pois logo eu vi o... figurino!

A professora "confeccionou" uma roupa de príncipe - na verdade só a blusa - em um papel crepon, ou sei lá como se dá o nome. E a coisa era bufante. BUFANTE! E pra piorar era um papel meio transparente, esverdeado. Eu tinha vontade de chorar. Mas eu não podia mais voltar atrás. Tinha dado minha palavra à professora. Tinha de ir até o fim agora.

O dia, o fatídico dia do Festival da Primavera, chegou. Uma quadra cheia de gente. E eu ali, no centro das atenções... com uma camisa bufante de papel, e uma coroa feita de papel laminado e cartolina. Eu queria ir pra casa. Minha mãe, e meus irmãos estavam nas arquibancadas. Eu lá, no meio de de várias meninas que rodeavam o príncipe e a princesa.

Eu estava com uma bermuda que minha mãe, não sei porquê, me deu em cima da hora. E era muito apertada. Eu não sabia se era ela espremendo minha bexiga ou se era meu nervosimo que me deixou com vontade de urinar logo de imediato. Eu só queria que aquilo tudo acabasse. Eu fiz o que tinha de fazer, uma dança que eu não sei como gravei, lá com a princesa, que termina com ela acocorada e eu dançando em volta dela segurando a sua mão. Nem mesmo o prazer de segurar a mão da menina mais cobiçada da escola, me fazia esquecer o embaraço.

Quando por fim acabou, corri para o banheiro, pensando em como eu nunca esqueceria isso pelo resto de minha vida. E, provavelmente, odiaria todas as Primaveras a partir de então.

Demorei a sair do banheiro. Acho que não queria ver ninguém mais. Minha mãe foi me buscar. Eu ainda estava vestido de príncipe. Na verdade, eu não tinha outra roupa além dela!

Meu coração gelou quando minha mãe disse que queria encontrar algum fotógrafo para que tirasse uma foto minha. Eu tentei largar da mão dela, mas ela segurava forte. Ela vasculhou a escola atrás de um fotógrafo e, nessa hora, eu senti que Deus estava me dando pelo menos uma chance. O único fotógrafo que se encontrava na escola não tinha mais filme em sua máquina. Eu suspirei aliviado.

Estava tudo terminado. Era só ir pra casa. Sim, com a roupa de príncipe. Fazer o mesmo caminho que fiz para ir, sendo alvo dos olhares como a primeira vez. Pelo menos eu podia tirar a coroa.

Desde então nunca me ofereci mais para nada, fosse por quem fosse... e fui feliz para sempre!

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