quarta-feira, 27 de junho de 2007

JJ e o Demônio Interior

JERUSALEM JONES: O DEMÔNIO INTERIOR

Era quase meia-noite e eu estava no meio do nada, com um bando ao qual me juntei para fazer um "trabalho" por essas bandas. Depois de despistarmos quem precisava ser despistado, resolvemos levantar acampamento por aqui mesmo, pois já era tarde para continuar cavalgando. Dividimos o suor do nosso servicinho entre nós.

Eu não conseguia dormir. Na verdade, estava tenso e desconfiado demais pra dormir e sono era a última coisa que se pensaria. O bando estava contando histórias de fantasmas, que parecia cair bem para tirar o sono. O'Halley terminava a sua agora:

- ...e quando o idiota foi ver, o "fantasma" que o perseguia pelo cemitério, era nada menos que um abacate que tinha caído no cesto que ele carregava nas costas. Mas a essa altura não adiantava mais nada, porque ele tava mortinho da silva, de tanto medo.

- Ahh, O'Halley, você tá brincando, né? Que historinha safada! E o Jones aqui? Você tem alguma história boa pra contar?

- Naaaaah! Eu não sei nenhuma história de fantasmas ou assombração, como meu pai chamava.

- Vai dizer que nunca aconteceu nada de estranho contigo?

- Não, não! Eu levo uma vida bem pacata, que só fica mais agitada quando preciso de grana. No geral eu não...

Nessa hora, um coiote uivou tão próximo que fez com que a maioria empalidecesse.


- He he he! Isso deve ser um sinal! - Disse o Bonney, e insistiu em que devia contar alguma coisa.

- Tá bom! Tá bom. Teve uma vez, há um tempo atrás, quando eu estava em casa, altas horas da noite e alguém começou a bater na porta. Quando fui atender não vi ninguém, até que olhei pra baixo e vi que era o moleque mais novo dos Kindall.

- Meu pai tá chamando o sinhô. Ele diz que é urgente.

Os Kindall eram uma família bem generosa comigo, enquanto eu estava morando naquela cidade, e várias vezes eu pude almoçar com eles, ou mesmo jantar. Eles gostavam da minha companhia e eu da deles. Além do menino eles tinham mais um filho adulto, chamado Ramsey.

Devido a isso tudo, eu fui sem pensar, apesar de já ser bem tarde, até a casa deles. Quando cheguei por lá, eles estavam bem nervosos e muito assustados. A casa parecia ter sido atingida por um tornado e havia gosma verde na parede.

- O que aconteceu, pessoal? Você foram assaltados?

- N-não, Sr. Jones. F-foi o Ramsey, entende?

- Não, não tô entendendo não.

Eles me pediram para sentar e explicaram rapidamente o que achavam que tinha acontecido ao seu filho mais velho. Eu fiquei assim, meio boquiaberto, sem saber o que dizer, já que eu achava que era loucura tudo aquilo que me diziam e eu apenas disse:

- Porquê não chamaram um padre, então?

A Sra. Kindall pegou minha mão, me levou até o quarto e me mostrou algo no canto, algo terrivelmente horroroso de se olhar, algo que havia sido uma pessoa algum dia.

-N-Nós... chamamos...

Eu corri e, como bom estômago fraco que sou, vomitei um bocado, em qualquer lugar mesmo, já que coisa nojenta era o que não faltava por ali.

- O que vocês querem que eu faça? Cadê o Ramsey e porquê vocês estão inteiros?

Dessa vez foi o Sr. Kindall quem tomou a frente:

- Acho que o que quer que tenha possuído o Ramsey, estava com pressa, pois quando ele conseguiu se livrar do padre, correu para a o meio do nada, saindo da cidade a pé. Parecia estar procurando alguma coisa.

-Mas porquê o Ramsey? Seu filho era tão quieto.

-É, quieto demais, Sr. Jones. Ele estava envolvido com uma garota que parecia estar envolvida com uma espécie de seita que mistura adoração ao Diabo, e coisas assim. O prefeito prendeu alguns, expulsou outros e deixou por conta dos pais acertar as coisas com os filhos que foram influenciados.

- Nossa, eu fugindo dessas coisas e filhos de vocês indo atrás. O que vocês acham que posso fazer? Ir atrás dele e trazê-lo de volta? Se ele tá mesmo com essa coisa, eu vou terminar pior do que o padre.

- Mas foi aí que erramos, em chamar o padre. A gente não precisava de um homem de Deus, e sim de um homem... - O sr. Kindall parou de falar.

- Ok, Ok! Eu entendi o que o senhor quer dizer, mas saiba que também não é bem assim.Certo, eu vou ver o que consigo fazer. Vocês são gente boa. Pra que lado ele foi?

Os dois apontaram para uma direção que me lembrei, era onde estava um destacamento do exército, que estava de passagem, indo para o Forte Dellaware. Se ele tinha ido naquela direção, poderia topar com eles. E na verdade, ele topou.

Quando cheguei por lá, o cenário era indescritível. E olha que eu nem sei falar direito indescritível. Diante de tantas cabeças, braços e pernas arrancados, eu sabia que não tinha a mínima chance contra Ramsey ou seja lá o que fosse aquilo.

Eu não via mais movimento algum, tudo era tão silencioso. Pensei então em dar Ramsey como perdido, fazer uma hora ali e retornar com as más notícias para os Kindall. Foi quando eu escutei uma voz gutural, como se viesse do fundo de um poço:

- PAI!

Levei um susto, olhei para trás, e vi num canto, debruçado sobre algum cadáver... Ramsey. Ao que parece não tinha me percebido ali.

- Pai - continuou a coisa em Ramsey - te encontrei, depois de tanto tempo. Desde que nasci, fui criado nas mais profundas trevas, sendo ensinado por minha mãe apenas o sentido da palavra... VINGANÇA. Este se tornou o meu nome. Ela me contou como seus truquezinhos baratos a enganaram, quando você era apenas um soldado de merda e ela uma demônia na flor da idade, ingênua, nos seus primaveris 280 anos. Tive de esperar todo esse tempo, pois eu só poderia entrar neste mundo através... de outro filho seu, quando ele estivesse adulto e nas condições adequadas. Um filho bastardo, como eu. QUEM ESTÁ AÍ?

Meu coração quase saiu pela boca, quando o demônio me percebeu. Quando ele se virou, vi que estava com a cabeça de quem ele chamava de pai em uma das mãos.

- Esta é uma reunião de família, e você a está interrompendo.

- J-já estava de saída. S-só vim avisar que os pais... quer dizer, a mãe dele, está... é... preocupada. Sabe como é né... mães são superproteras: filho não saia sem camisa, filho não saia na chuva, filho não empreste seu corpo a demônios e coisas assim...

- Ela não sabe de nada. Ela acha que este corpo é filho de seu marido. Não que eu me importe. Mas eu já cumpri minha missão a temp... hhhrrrcgh...

O corpo de Ramsey estrebuchou e caiu se debatendo.

-M-Mald-dição... o t-tempo a-aqui n-não p-passa como n-nas p-profundezas... v-vou ficar p-preso n-neste c-corpo se v-você n-não a-tirar...

Não acreditei, eu tinha de matar Ramsey pra livrar o demônio. Não tinha saída, se eu não matasse ele seria só uma moradia pro bicho ruim. Apontei para a cabeça do Ramsey...

-RÁPIDOOO HUMANO DESPREZÍVEL!

Resolvi apontar para o coração... e atirei. Ele parou de se debater. E uma fumaça cinza escura deixou seu corpo e escutei uma a voz do demo uma última vez:

- Estou em dívida com você humano. Quando precisar, chame Deculion e pago minha dívida.

Ramsey abriu os olhos, estava confuso. Na verdade eu também estava. Eu errei o tiro propositalmente, não poderia matá-lo. Acho que até no mundo das trevas, algumas coisas funcionam pelo poder da sugestão.

Logo fomos embora pra casa, e não toquei em assuntos delicados como a paternidade de Ramsey, nem nada. Eles eram uma família feliz e podiam continuar sendo. E é isso. Viveram felizes para sempre.

Jones, que historinha de merda! Você quer que eu acredite nisso? Credo! Isso tem mais furos que minha bota. Bom, pessoal, acho que já passou da hora e podemos, depois dessa, despachar nosso amigo Jerusalem Jones e ficar com a parte dele, afinal, ninguém vai sentir sua falta mesmo.

Os outros idiotas concordaram com essa estupidez e Bonney já estava se preparando para atirar, quando eu disse:

-Posso falar uma última coisa em minha defesa?

- Que seja, só não demora muito.

- Deculion.

***
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