quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Um Estranho Numa Terra Estranha


UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA Aventuras Pitorescas na Zona Sul do RJ


Entro no ônibus, saindo da Baixada Fluminense onde moro, e indo para a Zona Sul do Rio de Janeiro. Vou sozinho, sem avisar ninguém, nem mesmo à minha mãe. Sinto como se esses momentos fossem só meus e não devessem ser revelados a ninguém. Sinto como se estivesse indo em uma viagem para outro mundo, e até que não deixa de ser.

O lugar é tão longe que um ônibus apenas não basta. Fico tentando lembrar como aprendi a ir até lá sozinho e não lembro. Vai ver sou como os pássaros migratórios que sabem a direção certa a seguir. Sei lá.

Nem mesmo em que bairro estou eu sei. Apesar de saber que aqui ficam Flamengo, Copacabana e Ipanema, entre outros, eu nunca sei em qual deles estou. Eu apenas ando. Estranho como não sinto medo de me perder em um lugar que praticamente eu não conheço.

Acho que o que me atrai aqui são os cinemas, as livrarias, as locadoras. Tudo aqui é maior, mais bonito e com mais variedade do que onde moro. Os cinemas de lá passam filmes velhos, as livrarias parecem vender apenas livros para crianças e as locadoras, bom, essas nem sequer existem por lá. Só vim a saber da existência delas quando cheguei aqui.

Paro em frente a uma locadora, dentro de uma galeria, toda envidraçada, quase colo o nariz no vidro. Fico olhando os vários filmes naquelas caixinhas engraçadas. Nem mesmo sei como é um video-cassete, então só posso olhar os filmes mesmo. Vejo o "Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu" e lembro que já ouvi falar desse filme, ou li em algum lugar. Parece ser bem engraçado.

Volto a andar pelas ruas desse bairro que nem sei qual deles é. Sinto o cheiro da praia e ouço o barulho do mar. O tempo está nublado, até mesmo um pouco frio. Quando penso em chegar mais perto, minha atenção é desviada por uma livraria. Entro e passeio entre os vários livros, os quais nunca vi antes. A maioria são volumosos, capas brilhantes. Penso que nunca conseguria lê-los com a agilidade com que leio os da escola.

Logo saio dali e volto a passear, entrando desta vez em uma galeria que me parece a entrada de um grande cinema. Cartazes enfeitam os dois lados da entrada e eu fico ali perdido olhando aquilo tudo. De repente me vejo surpreso quando noto que um cartaz do filme E.T. - O Extraterreste está em pé à minha frente. Eu estranho, pois o filme foi lançado em 1982 e, claro, não estamos em 1982, pelo menos eu acho. Olho para o relógio, para confirmar e, isso mesmo, não estamos em 1982.

Mas, logo abaixo, no cartaz, anuncia que é um relançamento nos cinemas. Vejo os horários e noto que está perto da próxima sessão. Nem sei quanto eu tenho no bolso. Não vim preparado para isso. Nem reparo, mas estou ofegando. Confiro o que tenho, vejo a hora, e bom, vou demorar mais do que o normal.

Quando eu pago o ingresso é que eu percebo uma coisa que não tinha notado ainda: é a primeira vez que vou entrar num cinema de verdade. Não em um com cadeiras de madeira quebradas, som ruim, que nada se entende quando é um desenho animado dublado.

Quando me sento, sinto que afundo na cadeira. Elas são dispostas de um jeito que ninguém fica com a cabeça na minha frente. Apesar da excitação das pessoas e dum certo falatório, nem se compara à bagunça que é nos cinemas que estou acostumado a ir.

Me sinto estranho. Como se eu não fosse eu mesmo. Quando a tela se ilumina, ainda não é o filme. Mas não deixa de ser mágico. Mesmo agora, eu viajo. E sinto como se eu estivesse indo ainda mais longe do que quando saio de casa e venho aqui para a Zona Sul. É uma viagem dentro da viagem. Por um instante sinto como se fosse até o futuro, o meu futuro e sinto um formigamento na palma das mãos.

O filme voa, o tempo vai junto. Logo estou saltando do ônibus, de volta para casa. Minha mãe está vendo TV. Nem parece ter notado minha ausência, até que ela pergunta:

- Onde tu tava, Eudes?

- Fui até à Cidade, mãe.

- Tá bom!

E ela ri, como quem diz "esse menino não pára de fazer piada".

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