terça-feira, 14 de agosto de 2007

Cada Passo


CADA PASSO SOA COMO UM TAMBOR(Contos de Uma Noite de Sábado Sem Supercine)

De repente me lembrei que não havia tomado meu remédio. Procurei dentro da latinha onde os guardo, e quase não acho de tão pequena que é a embalagem. Estava entre os lápis, canetas para escrever em CD, e chaveiros velhos. Tiro um e coloco entre os dentes, para segurar, enquanto abro a geladeira e pego água. Quase posso escutar minha mãe dizendo "bebe isso com leite menino, faz mal tomar só com água". Com o comprimido ainda entre os dentes, começo a procurar um copo e não encontro nenhum limpo. Pego um na pia, lavo e encho d'água. Antes que eu possa engoli-lo sinto que algo aconteceu com minha língua.

Ao demorar demais para pegar a água, minha língua ficou encostada no comprimido por muito tempo, e ficou anestesiada. Não sinto a ponta dela. Não pensei que o remédio fosse tão forte assim. Tento não dar atenção a isso e apenas engolir o comprimido sem pensar muito. Mas, quando tento, a água parece não ter sido suficiente, ou engoli de mau jeito e ele fica preso na minha garganta. Começo a tossir, mas ele não sai. Tusso com força, mas nada. Sinto um certo desespero. Apesar de pequeno, ele incomoda demais. E sinto que ele está anestesiando minha garganta também. Em pouco tempo a sensação de dormência me atinge o cérebro e eu desmaio.

Quando acordo, sinto uma dor de cabeça enorme, mas lembro que eu já estava com ela, só não havia me dado conta até aquele momento. É a maldita da sinusite. Parece que o problema com o comprimido só fez a dor piorar. Levanto do chão, sem saber se engoli ou se expeli o comprimido. Não o vejo em parte alguma do chão. Minha testa pulsa de dor no lado esquerdo.

Não sei exatamente quanto tempo passei desmaiado no chão da cozinha, mas parece tarde. Olho o relógio e já é de madrugada. O frio parece ter invadido o apartamento. A janela está aberta, deve ser por isso. Me sinto péssimo, como se estivesse me movendo em câmera lenta, ou entre areia movediça. Vou até a mesinha do computador e olho dentro da latinha onde guardo os comprimidos, pego a embalagem e o nome nela é outro. Na verdade, nem mesmo são letras, mas caracteres que não reconheço de lugar algum.

Me sento em frente ao computador que ficou ligado e não sei muito bem o que pensar. Quando eu coço atrás da orelha direita eu ouço um clique dentro dela. Que estranho. Eu seguro a ponta da orelha e puxo de leve. O clique novamente, lá dentro. Tento o mesmo na outra e nada acontece. Será que bati forte demais com a cabeça e algo se soltou dentro do meu ouvido? Mas não sinto dor alguma e estou escutando perfeitamente bem. Mas aquilo me incomoda cada vez mais.

Pego a tampa de uma caneta e tento sentir se... sim, a tampa toca em algo, sem eu mesmo precisar ir muito fundo. Sinto um clique maior e quando deito a cabeça pro lado direito, alguma coisa cai no chão. É o comprimido?!

Eu o apanho. Sua cor está diferente. Não tem mais a mesma cor que me fez pensar que era o verdadeiro. Está com uma cor prata. E está mais pesado.

Tiro os óculos e o aproximo para enxrgar melhor e ver do que se trata. Não sei muito bem o que está acontecendo, mas tento não pensar muito no quanto aquilo tudo não faz sentido algum. Percebo que há um orifício quase imperceptível, e quando caio na besteira de aproximar mais do olho, um feixe de luz vermelha atinge meu olho. Fico cego de um olho por alguns minutos e quando consigo enxergar melhor, não vejo mais as coisas como antes.

Todas as coisas parecem ter uma película de plástico brilhante envolvendo-as. Sinto o globo ocular atingido girar, e se reposicionar, e consigo enxergar algo além da percepção comum. São - ou imagino que sejam - realidades alternativas sobrepondo-se à minha realidade. Versões do lugar onde estou vão passando na minha frente sem parar, mas eu consigo perceber todas.

As pontas dos meus dedos parecem mais sensíveis que o normal, e meu cabelo parece estar ligeiramente eriçado. Eu toco o ar e o sinto, como se fosse areia quente. Então afundo a mão nessa "areia" e percebo que ela some. Puxo de volta assustado. Mas a mão não volta. Sou sugado para dentro de alguma coisa que me comprime, comprime, comprime até eu me sentir dentro de um grão de arroz. Só que não meu corpo, apenas meu "eu". Não sei mais se tenho corpo.

Sinto que dois dedos pegam a espécie de "grão" que me tornei e sinto o hálito quente de uma boca, quanto escuto ao longe uma voz feminina:

- Bebe isso com leite menino, faz mal tomar só com água!

FIM.


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