quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Atravessando a Cozinha


ATRAVESSANDO A COZINHA Não é Tudo o Que Sempre Parece?

É o meio da tarde e estou deitado no sofá, assistindo a um filme que aluguei a pouco. Então lembro que deixei alguma coisa sendo feita no computador e vou lá ver se terminou. Quando estou passando pela cozinha, sinto um cheiro forte de gás e, em seguida, uma explosão, que mais sinto do que ouço. Não consigo entender como estou conseguindo pensar racionalmente se estou no meio de uma explosão. É quando noto que o tempo se dividiu em cinco partes diferentes, todas elas coexistindo. Me sinto em cinco épocas diferentes, mesmo sem entender como isso é possível.

No primeiro momento eu ainda estou ali, na cozinha, durante a explosão que custo a entender porquê aconteceu, já que não liguei nada que pudesse acionar o gás. Não sei se estou vivo ou se estou morto, mas a explosão parece nunca ter fim, neste espaço de tempo. No segundo momento - que não se apresenta realmente em uma ordem - o lugar onde estou não existe mais. O prédio ainda não fora construído e nem mesmo o bairro, a cidade, nada. Vejo apenas um descampado, com uma vegetação rasteira.

No terceiro momento, sou apenas um feto em crescimento dentro da barriga da minha mãe, me alimentando dos nutrientes que ali me estão disponíveis. Quase posso sentir o gosto. Me mexo desconfortável. No quarto momento, me vejo como adolescente, olhando tudo em volta, assustado, sem entender o que está acontecendo. Paralisado.

Na quinta fragmentação do tempo, não sei o que sou. Pareço um feixe de energia que se move invisível, mesmo eu sentindo a presença, provavelmente devido ao feixe de energia ser eu mesmo, e não algo fora de mim. É nessa quinta parte do tempo que as coisas parecem estar acontecendo mais rapidamente e o meu "eu" feixe-de-energia rebate nas "paredes" dos outros quatro momentos temporais, causando uma espécie de intervenção indevida.

Meu "eu" no presente - ou pelo menos o que deveria ser o presente - tenta sair dessa confusão, mas está preso na explosão que parece ter tornado o tempo essa pizza fatiada em cinco pedaços e que me faz sentir cinco tempos diferentes, cinco sensações distintas, sendo que o feixe de energia me incomoda cada fez que esbarra no tempo atual, sendo que nem mesmo sei como ele pode estar fazendo isso, já que o feixe sou eu mesmo, e não deveria estar fora de mim, mas o fato de o tempo ter se dividido é que parece tornar isso possível.

Meu "eu" adolescente olha tudo em volta, ainda alucinado, e sem voz, ou melhor, sem emitir nenhum som que eu possa escutar. Eu, como feto, é que sou o mais tranquilo, mas o tempo em que a cidade não existe não perece ter um representante meu presente, ou não o estou vendo. A paisagem em volta não dá muita dica de que tempo passado pode ser esse e onde eu poderia estar nele. Provavelmente não existia já que a cidade, obviamente, já existia bem antes de eu nascer.

É quando estou pensando nisso que a explosão se completa, me arremessando fora dos outros quatro tempos, me deixando no presente, batendo com a cabeça na parede, e quase ensurdecendo com o barulho, tenho minhas roupas chamuscadas e um bocado de pêlos queimados. Ainda consigo proteger o rosto, mas sinto meu cabelo queimar um pouco. Desmaio.

Acordo, vendo que tudo está no mesmo lugar, e que não houve realmente uma explosão. Está tudo como antes. Me sinto um pouco enjoado. Sinto resquícios de cheiro de gás, e meus ossos doem comprovando que fui arremesado e, sim, meu cabelo está queimado na pontas. No entando, a cozinha está tão normal quanto antes.

Volto à sala e o filme que eu estava vendo está no mesmo lugar. Vou ao computador ver se o que eu deixei fazendo terminou. Quando olho a tela, não há mais nada do que estava sendo feito antes, nada. Apenas o editor de texto aberto, com um texto digitado. Começo a ler:

"É o meio da tarde e estou deitado no sofá, assistindo a um filme que aluguei a pouco..."

FIM...


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