segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Breve Ato de Recordar


O BREVE ATO DE RECORDAR Eu Queria Ter a Foto Para Ilustrar Isso

Seguro uma foto antiga nas pontas dos dedos. É uma foto do aniversário de um ano de minha irmã caçula. Parece que toda minha família está naquela foto. Na verdade, a família do meu pai em peso. Minha mãe está abaixada cortando um pedaço do bolo quadrado, com glacê branco recobrindo todo ele. Bolinhas de cor prata pontilham o bolo inteiro. Uma vela com o número 1 completa o quadro .

Algumas pessoas na foto não estão mais aqui, seja por falecimento, seja porque se mudaram e eu não saiba mais onde moram. Eu estou na foto. No colo de meu pai. Uma digital manchou a foto exatamente sobre minha cabeça, mas ainda consigo me ver. Como sempre - não sei exatamente o porque - estou sério na foto. Meu pai me deu uma garrafa de algum tipo de bebiba - conhaque, eu acho - para que eu segurasse, sem nem mesmo se preocupar que para mim aquilo pesa uma tonelada. Mas eu não reclamo.

A mancha da digital parece deixar claro que eu não lembro daquele momento, e que só tenho aquela foto para saber que ele aconteceu. Olho mais de perto e vejo como estou pensativo. Sério e pensativo, como se soubesse que logo alguém pegaria a foto e deixaria uma marca bem sobre a minha cara, estragando uma pose tão legal segurando uma garrafa de conhaque.

O aniversário é especial principalmente pelo fato de que não teríamos muitos outros até o aniversário de 15 anos de minha irmã. E eu nem estaria nele. Não era comum festas de aniversários pelo simples fato de que as coisas eram difíceis. Mas, nunca nos ressentimos disso. Acho que uma espécie de consciente coletivo apenas da nossa família, fazia com que soubéssemos do que era possível e do que não era.

Continuo olhando a foto, sem saber exatamente porque gosto tanto dela. É velha, em preto e branco, e nem mesmo é de uma aniversário meu. Olho meu pai me segurando sem saber ainda que ele iria embora dali a dois anos. Eu ainda o veria por algum tempo, antes de ele voltar para o Ceará, com uma nova família, mas eu nunca mais teria uma foto com ele me segurando no colo.

Uma lágrima cai sobre a foto e me apresso em secá-la. Secá-la da foto, para que não estrague mais do que já está. Um sentimento de que a vida é apenas uma foto se apodera de mim. Algo que você só pode olhar e tentar lembrar. Saindo da foto, tudo volta a ser real demais.

Tento entender porque ser pai na foto é tão fácil. Não é sempre que penso nisso, mas quando penso, sempre me pergunto o que saiu errado. E não sei a resposta. Era como se a culpa fosse nossa também, e não tivemos aqueles diálogos novelescos tipo "a culpa não é sua".

Mas a foto não é sobre isso. Ela é sobre memórias, sobre lembranças que não temos mais, guardadas em um pequeno pedaço de papel - ou digitalmente hoje em dia. Sempre que reviro as coisas antigas de minha mãe, a foto, invariavelente está lá. Junto a outras é claro, mas sempre é ela quem me chama a atenção.

Minha irmãzinha está sobre a própria mesa do bolo, olhando para alguma coisa atrás dela. O cabelo tão loiro que, mesmo a foto sendo preto e branco, dá pra perceber. Suas grandes bochechas me fazem lembra que, paradoxalmente, ela tem uma foto mais antiga, só que colorida. Recém-nascida, sentada em uma cadeira colorida, sem cabelo ainda, ela parecia estar pensando em tudo que viria pela frente. Mas, na festa de aniversário, ela apenas está distraída.

Olho a fila de pessoas e mais a frente delas, na foto, estão meu dois tios mais novos, dois moleques ainda, loucos para que se acabe logo com essa história de foto e comece logo a história de comer bolo. Meu avô - pai do meu pai - está ali, como eu sempre lembro dele. Incrível como ele nunca mudou de aparência. Minha avó não está nesta.

Ainda seguro a foto por um bom tempo, agora olhando sem estar prestando realmente atenção. A mancha da impressão digital parecendo mais acentuada, como se estivesse apagando mais e mais o meu rosto. Antes que eu suma por completo, guardo a foto de volta dentro da maleta de recordações de minha mãe. É quando sinto que alguém me pega e me coloca no colo.

Meu pai me leva para a sala, onde um monte de gente está presente para o aniversário de um ano de minha irmã caçula. Ele me dá uma garrafa de conhanque - ou algo do tipo - que pesa horrores, mas eu não reclamo. Olho para o fotógrafo e o flash explode nos meus olhos.

E o tempo pára naquela foto.


segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Nasce Jerusalem Jones


NASCE JERUSALEM JONES
Quando O Anti-Cowboy Volta de Seu Retorno


Porque você tinha que decidir nascer hoje, moleque?! Sim, eu sei que é um moleque. Sinto nos meus ossos. Mas, sexta-feira 13 não é um bom dia para se nascer, mesmo para um garoto. Para piorar, a chuva lá fora faz a noite parecer um quadro do inferno. Chove tão forte que não sei como o Doc conseguiu chegar até aqui. Trovões e raios fazem tudo parecer pior do que já é. Minha mulher urra e grita a todo momento. A noite vai ser longa. O moleque não quer sair. Parece até saber as coisas ruins que temos aqui fora.

- Jones, pára de ficar olhando lá para fora. Me ajude aqui! O que diabos você perdeu lá fora, homem?! Só preciso que você pegue mais panos quentes e mais um balde d'água morna. Depois pode voltar para seu posto.

- Ok, Doc. Eu só... só não gosto dessa chuva esquisita.

- É uma tempestad... KRAAAK-A-BUMMMMM... ...tra qualquer, homem! O parto está dificil, não sei se vou conseguir, Jones. Esteja preparado para qualquer coisa.

O Doc sempre foi assim, nada sutil. Lembro que uma vez estávamos jogado pôquer com uns forasteiros e resolvemos limpá-los jogando um pouco, digamos, em "parceria". Na primeira jogada ele entregou tudo e levamos a maior surra de nossas vidas.

KRAAK-A-BUMMM!!!

Credo, juro ter escutado um grito pouco antes do trovão. Cada pelo do meu corpo se arrepia. Esse menino vai nascer na pior noite que essa terra desgraçada já presenciou. Ou, segundo o Doc, talvez nem nasça.

Olho para a mãe do meu filho e ela está com o rosto desfigurado de dor. Faz força como nunca vi um homem fazer na vida. Mas não posso ir para lá segurar a mão dela. Preciso ficar aqui, na porta. Não sei porque, mas alguma coisa parece me dizer isso.

Pego meus revólveres na mesa e coloco-os na cintura, depois de conferir se estão carregados.

- Que é isso, Jones? Vai atirar na chuva. Você devia era dar um jeito para a água parar de entrar na casa. Está começando a me atrapalhar aqui. Eu te avisei há muito tempo que você devia ter comprado uma casa maior, de dois andares ao menos.

- Ok, Doc. Obrigado por fazer o papel da minha esposa enquanto ela não está em condições.

Eu falo, mas sem olhar para ele, sem prestar nem atenção no que estou dizendo. Juro ter visto um vulto na chuva. Quem seria louco de sair nesse aguaceiro? Nem mesmo o Dead John seria doido pra isso, e olha que ele É doido, clinicamente falando.

Diacho! Acho que vi novamente e... olhando pra cá. Não tenho vergonha de admitir que minhas pernas começam a tremer. Os gritos altos de minha mulher não ajudam em nada os meus nervos. Nasce logo garoto, acaba com esse sofrimento. Eu prometo que nunca mais mexo com sua mãe pra fazer nada. Talvez umas esfregação, mas nada mais que deixe ela grávida de novo.

Ai, Nosso Senhor! É uma pessoa na chuva mesmo. Olhando para cá. Encurvado como um corcunda, ou sei lá o quê. O que diabos esse cretino tá fazendo? Tirou a noite pra me assustar mais do que já estou?

- JONES, SUA MULHER PERDEU OS SENTIDOS! Eu não sei se ela vai sobreviver, Jones! Preciso saber se salvo ela ou a criança. Preciso saber agora.

- Doc, você vai salvar os dois, porque você me deve isso.

Há uns 15 anos atrás eu e Doc atravessávamos o deserto quando ele foi picado por uma cobra, em uma região do corpo delicada demais. O que ele me obrigou a fazer, depois de apontar sua arma pra mim, eu não posso dizer aqui. O pior é que nem sei se essa história de sugar veneno é verdade, já que ele disse que era apenas pra dar tempo de chegar na cidade e ser atendido. Mas, seja como for, ele ficou me devendo. E se ele contasse pra alguém, eu jurei que o matava como se mata um cachorro.

O sujeito lá fora está vindo pra cá.

- JONEEESSSSS... ELA ESTÁ EM CONVULSÃO!

- Ajuda ela, porra!!! Tem um cara estranho lá fora, vindo pra cá. Eu não não acho que seja nada de bom, não posso sair daqui.

Doc a segura como pode. Ele parece não entender o porque dela estar em convulsão. E isso, sendo ele médico, não é um bom sinal.

Meu coração parece que vai sair pela boca quando vejo os olhos do troço lá fora brilharem em vermelho. Não sei se tô alucinando por causa da preocupação com ela, ou se é tudo real. Mas, logo sei que tudo está contecendo de verdade, quando o cara saca o que parece ser uma arma, e vem correndo na minha direção. Quando pego minhas armas, a atiro... não acontece nada. Olho os tambores e estão vazios. Eu tenho certeza que estavam cheios, eu conferi.

A coisa está mais perto e minha mulher grita mais alto:

- SAIA DAQUI, AGORAAAAAA!

Do que ela está falando? Ela pode ver esse troço? De onde ela está não tem como ver. Doc a segura mais forte. O homem corcunda corre rápido. O jeito é fechar a porta. Mas, quando tento isso, ele dispara e a porta se despedaça como se todos os cupins do mundo estivessem nela. Meu Deus. Aquilo não era uma bala, era algo... demoníaco. Fogo no meio da chuva. Vamos todos morrer e eu nem mesmo tenho idéia do porque.

Me afasto da porta, rezando como se fosse o homem mais crente de todo o mundo, e quando a criatura chega na soleira da porta, com seus passos pesados fazendo um som horrível nas poças d'água e sua respiração ofegante nojenta, vejo que ela não tem forma definida, e é como se fosse feito daquela chuva maldita. Vamos todos morrer.

Olho para trás e vejo Doc com meu filho no colo, e minha mulher sentada, como se estivesse em transe, rezando numa língua que eu nunca ouvi antes. Chego a pensar que ela está dopada com algum remédio que Doc ministrou.

- JONES, QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!

Tudo isso acontece segundos antes de a criatura pular na minha direção e eu ouvir um disparo e mais um, e mais um, acertando aquela coisa vinda do inferno. Quem atira não pára um segundo sequer, descarregando toda munição em cima dela. Ela levanta e me esquece indo na direção de quem atira. Mesmo com medo vou até a porta e assisto aquilo tudo.

Um homem de capote atira como um louco e parece que sua munição nunca acaba. Ele a desarma. A criatura tenta ir em sua direção, mas os disparos não permitem. Porém, tampouco ela dá indícios de que vá morrer. Minha mulher grita algo alto naquela língua absurda que ela resolveu falar, e sinto a criatura cambalear. É o suficiente para o pistoleiro pegar uma terceira arma de dentro do capote, mirar no coração e atirar.

A criatura solta uma risada resignada, como se dissesse que pelo menos ela tentou, e corta o próprio pescoço com unhas que mais parecem navalhas. Ainda ouço ela dizer algo, entre os gorgolejos da morte:

- Nem eu, nem você, Jones.

Não entendo como ela sabe meu nome, apesar de não parecer estar falando comigo. Depois disso, ela apenas... morre e some com a chuva que pára, como se a criatura estiasse. A noite fica com aquele cheiro de terra molhada, mas não de um jeito bom. O homem do capote se aproxima e fala comigo:

- A... a criança... ela nasceu?

Eu tento responder, mesmo sem saber o porque da pergunta, mas só consigo fitar a cicatriz em sua garganta. Enorme, pulsante. A cicatriz pulsa! Como se estivesse viva. Oh, Deus. Eu preciso de uma bebida.

Ele olha para dentro de casa, e vê o menino no colo de um Doc pálido, tremendo como vara verde. Minha mulher parece estar morta, depois de toda aquela reza.

- S-sim, ele nasceu? Quem é você? O que era aquilo?

- Não importa. Eu estava atrás daquilo há um bom tempo, e sabia que ele estaria aqui, por isso dei um jeito de estar no mesmo lugar e hora que ele. Uns amigos índios me ajudaram com isso. O senhor nem acredita em que todas aquelas ervas deles são capazes. E eu achava que eram só pra ver elefantinhos cor-de-rosa. Agora vai ficar tudo bem, Sr. Jones. Dê isso aqui à sua esposa. Também é dos meus amigos índios, mas é curativo. Nada de alucinógenos pra ela, pelo menos por enquanto.

E ele foi embora, rindo como um moleque travesso. Podia jurar que ele sumiu diante de meus olhos, mas era apenas a escuridão, eu acho. Dei a planta para minha esposa, sem pestanejar. Eu não estava em condições de duvidar de nada. Doc ficou falando sobre intoxicação e coisas do tipo, mas eu não o escutava. Ela logo acordou e sorriu pra mim, cansada, mas feliz.

Peguei nosso filho no colo e mostrei-o a ela. Ele parecia tão calmo diante de tudo aquilo. Não chorou nem por um instante. A única coisa que parecia incomodá-lo, era algo no pescoço que ele não parava de coçar.

Eu ainda não sabia que nome daria a ele, mas se soubesse qual era o nome do homem de capote, com certeza seria esse.

- Estamos quites, Doc. Mas, agora, aqui entre nós, eu não precisava ter sugado aquele veneno, não é?

- Jones, isso de novo? Eu tô aqui todo cagado de medo, e você vem com coisas do passado. Vou pra casa me limpar e dormir. E, pelo amor de Deus, não faça mais filhos, Jones.

-Se eu descobrir que aquilo não era necessário, Doc...

FIM.


segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Faça uma Redação


FAÇA UMA REDAÇÃO SOBRE O SEU BAIRROMeu Mundo Dentro de Um Pequeno Mundo

Quando a professora anuncia mais uma redação, começo a tremer feito vara verde. Não sei escrever. Não, não é isso. Eu SEI escrever, mas não GOSTO de escrever. Detesto redação tanto quanto ir ao dentista ou comer os legumes. Fico imaginando se foi Deus quem inventou a redação quando mandou que escrevessem uma sobre como a Terra foi criada e, nem posso com isso, amaldiçoar tal tarefa.

Talvez se perguntem - e eu não sei porquê estou falando assim - como pode ser, já que gosto tanto de ler. Não sei, preguiça, talvez. Ou talvez eu deteste minha letra tanto que não gosto de vê-la tantas vezes em uma única página. Talvez se, como nos filmes sobre o futuro, eu tivesse uma máquina de escrever portátil, com uma tela, na qual eu escreveria a maldita redação, e ela saísse imprimida pela traseira da mesma, seria moleza.

BAM!!! - COMECEM!

Caraca! A professora quase me mata de susto. Acho que ela notou que a classe não está nem um pouco empolgada com o trabalho. Alguns escrevem como se um milhão de pregos estivessem cravados em suas costas. As meninas fazem florzinhas, enfeitando tudo, antes de começar. Nossa, como eu odeio redação! Mas, se eu tivesse aquela máquina de escrever mágica, e "soubesse" escrever, talvez eu começasse assim...


Meu Mundo Dentro de Um Pequeno Mundo:
Uma chuva torrencial e uma escada de barro composta apenas de lama. É a minha lembrança mais antiga do bairro onde eu fui criado, o Parque do Ferreiras. Sim, o nome é devido à família portuguesa que era dona de tudo aquilo ali, há muitos anos atrás. Tanto que a avenida principal de chama José Ferreira e todas as ruas têm nomes que remetem a Portugal. Eu por exemplo, moro na Rua Rio Tejo ou, pelo menos, vou morar até os meus 30 anos de idade.

Moro há tanto tempo ali que o próprio nome do bairro parece estar ligado ao meu nome. Como se fôssemos um só. Apesar de ser um lugar esquecido entre Belford Roxo e Duque de Caxias, é praticamente o lugar onde eu me dei conta da vida, de quem eu sou, e de quem eu me tornaria.

A chuva torrencial e a lama é a lembrança que tenho de nossa mudança para a nova casa, naquele bairro. Antes disso, vivíamos nos mudando, devido a morarmos de aluguel. Agora tínhamos uma casa nossa, de verdade. Minha mãe grávida de minha irmã caçula, já está lá em cima e os homens fazem a mudança. Sou pequeno demais para ajudar. Mas posso sentir que ali será um bom lugar para morar. A chuva parece dizer isso.

O tempo passa e me familiarizo com cada rua, com cada aspecto do lugar, conforme os anos vão passando. Por exemplo, a Barraca do Alcino (de onde vêm esses nomes?), vai estar ali até eu ir embora. Estava lá quando eu cheguei a ainda está bem depois que saí. E com o Alcino nela!

Na entrada do bairro temos a Padaria do Vasco. Que, mesmo estando no nosso bairro, e nomeada como se pertencesse ao bairro em frente - o Vasco. Ainda está lá também, mas não tem o mesmo charme. O Armazém do Seu Joaquim seria mais marcante para mim. Meu primeiro emprego aos... 11 anos! Isso porque insisti com minha mãe que queria trabalhar. Bom, ela deixou.

No meio do bairro, havia a "pracinha", que no inicio era apenas um terreno circular, que de pracinha não tinha nada. Prefeituras que vieram mais tarde, resolveram fazer com que o lugar merecesse o nome de Praça, construindo uma. Uma quadra e um playground fizeram com que o bairro ganhasse um pouco mais de brilho. Antes, porém, naquele lugar pude ter minha primeira e - acho que - única experiência circense. Um circo foi montado ali e, por vários dias, uma certa magia pueril deu o ar da sua graça.

O bairro tinha seus próprios personagens que fui conhecendo conforme fui crescendo: A Bruxa, O Mentiroso Crônico, o DJ, o Louco da "Aldeia", o Tim Maia, o Eterno Candidato a Vereador (que nunca venceu), A Professora, A Desfrutável, Os "Ricos", O Pastor Mal-Humorado, Os Eternos Moleques, e todo tipo de gente que se pode encontrar em muitos lugares.

Porém, uma das coisas que iriam me surpreender ao me lembrar do meu bairro depois de alguns anos após ter saído de lá, era que, apesar de ele estar no centro da famigerada Baixada Fluminense, o Parque dos Ferreiras parecia estar alheio a toda violência veiculada nos jornais. Tínhamos uma mania de dormir sem trancar a porta simplesmente porque não havia necessidade disso. Era comum, normal. Claro que isso foi mudando com o passar do tempo.

Outra coisa que me surpreendia era eu mesmo que, apesar de ser muito caseiro (leia-se "vivia enfurnado dentro de casa"), ainda assim até que andava muito pelas ruas e, na maioria das vezes, me tornava frequentador assíduo de algumas delas, às vezes por ter alguém com quem trocar gibis, às vezes por ter uma paixonite aguda e/ou mediana, no lugar. Em geral acabava fazendo amizade com outras pessoas e, numa dessas ruas, eu e mais uns amigos, "organizamos" uma festa junina amadora, que terminou com lançamento de carvão em brasa à distância.

Olhando bem para o passado (ou seria para o futuro?) eu andei em todas as ruas, fiz amizades, cresci com aquelas pessoas e isso tudo sendo um "menino caseiro". Minha mania de partilhar, já era forte nessa época, e eu levava discos, livros, gibis, para outras pessoas escutarem, lerem e tudo mais. Quando chegou a era do VHS era alugar filmes e ir ver na casa dos amigos.

Vi o asfalto chegar e cobrir as ruas que sofriam com a chuva. Engatinhei por dentro das manilhas colocadas enfileiradas, quando construiam os esgotos, pensando "e se eu ficar preso aqui dentro"? E continuava. Ainda hoje, quando sinto cheiro de asfalto, sou imediatamente transportado para aqueles dias, em que eu acompanhava cada rua, cada etapa de asfaltamento. Piche é difícil de sair.

Quando eu queria ver o meu "mundo" do alto, subia o morro mais alto que ficava logo atrás de onde eu morava. Às vezes sozinho ou com meus irmãos, subia e ficava olhando tudo lá de cima, tão pequeno e tão grande. Em dias de céu muito limpo eu podia ver o Cristo Redentor bem longe, no lugar onde um dia eu iria morar. No lugar que seria meu novo bairro. Era surreal.

Depois que me mudei, minha mãe ainda continuou morando por lá e eu sempre ia visitá-la, até que ela também se mudou. Mas, não sei se por impressão minha, ou se era algo real, o bairro parecia estar se deteriorando e, foi melhor mesmo não ter de ir mais por lá, e ver minhas lembranças serem deterioradas junto. Não parecia mais o lugar onde morei. Assim, como está, ainda posso ter comigo o que ficou de bom de um lugar que me viu crescer.

Ainda posso ouvir o som das muitas festas juninas das quais nunca tive coragem de fazer parte das quadrilhas, por timidez. As risadas nas festas de aniversário nas quais eu me embebedava com dois copos de cerveja. O cheiro da terra molhada sobre o asfalto velho. O barulho da chuva batendo sobre o telhando de alumínio na varanda. As fogueiras, as histórias, os sorrisos, os pique-esconde, salada mista, os tombos de bicicleta, os bolinhos de chuva. Tudo em um único lugar.

Um lugar que se tornou sinônimo de mim.

FIM.

A professora diz que o tempo acabou e sem piscar, levanto e entrego a ela a redação que escrevi. Ela pega, olha e diz:

- Mas aqui não tem nada, menino!!!

- Mas vai ter, 'fessora. Vai ter.


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

As Locadoras


AS MUITAS LOCADORAS QUE FREQUENTEI Quem Nunca Estragou Um Fita Atire a Primeira Multa

A locadora a que me afiliei mais recentemente aqui em Botafogo, fechou as portas. Nenhuma novidade nisso, locadoras são inauguradas e vão à falência desde que o mundo é mundo. Mas, nesse caso em particular, eu fiquei chateado. Gostava da locadora - a Cinéfilo - que, apesar de ser meio "cult", era a única opção fora a Blockbuster. Claro, há a Videosession, mas essa é uma outra história.

Só sei que isso tudo me fez relembrar meu relacionamento com as locadoras. A primeira vez que vi uma, foi bem longe de casa, em Duque de Caxias, e era mais ou menos como estar vendo a garota mais popular da escola, à qual você pode até olhar, mas não tocar. Bom, certo, eu até toquei (na locadora, não na garota mais popular da escola). Fiquei ali, com as mãos pregadas na vitrine que exibiam as variadas fitas de filmes que eu nunca tinha visto. Lembro bem de ver um exemplar de Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu, e de ficar meio que hipnotizado.

Eu só teria meu próprio vídeo-cassete muitos anos depois, assim como locadora em meu próprio bairro.

Com o tempo, as locadoras locais foram pipocando aos poucos, surgindo aqui e ali, assim como também desapareciam de uma hora para outra, já que era e sempre será, um negócio arriscado.

Logo fui me tornando um assíduo frequentador das mesmas, pelos motivos cinematográficos óbvios e, em algumas, porque o lugar praticamente adquiria vida própria com a camaradagem de quem lá trabalhava. Um desses maiores exemplos era o de uma locadora onde conheci a atendende chamada Cristina. Sempre que eu ia lá, o lugar estava infestado de gente... que não alugava nada. Fui percebendo que era o carisma dela que os mantinha ali, dia e noite batendo papo.

Para minha surpresa logo descobri que o marido dela havia trabalhado no mesmo lugar que eu (a famigerada Fábrica de Biscoitos Piraquê), uns poucos anos antes. E, quando ela levou a filhinha dela ao trabalho, logo fiz amizade com ela também. Então, era quase como se eu fosse da família.

O dono da locadora era seu cunhado que, quase não ficava no local, e quando o fazia, a atmosfera ficava mais "pesada", já que ele não conseguia ter a mesma simpatia que ela, agindo sempre com o O Patrão. Mas, era divertido ver sua cruzada a favor dos filmes legendados, em um lugar onde as pessoas preferiam filmes dublados, muito disso devido a pouca instrução ou apenas o fato de que as pessoas queriam ver socos, pontapés e explosões, e não ficar lendo. Como diziam alguns, "se eu quisesse ler, não alugava um filme, pegava um livro".

Ele fazia isso devido ao fato de ter uma locadora na Zona Sul do RJ, onde o público era bem diferente daquele, e ele queria que as duas locadoras funcionassem do mesmo jeito. Óbvio que isso não daria certo. A única ação louvável dele era não aceitar as fitas piratas que certos "vendedores" ofereciam. Mas, isso também agia contra ele, já que as outras locadoras não tinham os mesmos escrúpulos.

Mais adiante, no bairro chamado Lote XV, uma outra locadora fazia concorrência, tendo duas atendentes, mais os dois donos - irmã e irmão - que tentavam se manter como a maior locadora daquela região. E até que conseguiam. Também evitavam fitas piratas e tinha uma organização impecável. Mas, com o tempo, houve uma ruptura entre os dois irmãos, que se diviram também em duas locadoras e, divididos, caíram os dois.

Enquanto isso, na Sala da Justiça... quer dizer, na locadora da Cris, as coisas também não iam muito bem e teve de fechar do mesmo jeito. Provando-se que nossa amizade se tornou algo bem além da locadora, ainda a visitava, passando algum tempo com ela e sua família. Infelizmente me mudei para longe e o contato ficou mais difícil.

Nesse meio tempo, uma locadora foi aberta no coração do meu bairro. Eu conhecia o dono - Nido - de longa data, mas nunca fomos de muito papo. Sem a locadora da Cris, meu novo recanto era por lá. Com ele, trabalhavam sua sobrinha, Giselle, e uma outra menina, a Gleyce.

A primeira eu já conhecia do bairro, desde que ela era criança. Mas, assim como acontecia com o Nido, eu não tinha grande contato. A Gleyce eu só conhecia de vista até então.

Nesta época eu alugava mais filmes do que podia assistir, então estava sempre por lá, e sempre ficávamos conversando por muito tempo. Giselle dizia que, devido a lidar com tantos filmes, e passar a assisti-los mais, um dia faria faculdade de cinema e, acabou fazendo mesmo. Não era apenas conversa.

Diferente da locadora da Cris, além das meninas, a alma do lugar também era o Nido. Brincalhão e piadista, quase nunca se aborrecia e, tratava as garotas não como empregadas, como como família, sendo que a Giselle era mesmo.

Outra diversão ali era ver algumas figuras "diferentes" que alugavam filmes como por exemplo, um cara com o apelido de Stallone. Por quê? Claro, porque alugava única e exclusivamente filmes do... Stallone. Mais nenhum outro.

Bom, a locadora não fechou (pelo menos não que eu saiba), mas eu me casei e me mudei do bairro. Assim, esta também ficou para trás. Vindo morar na Zona Sul do RJ, o estilo de locadora e de filmes para alugar mudou drasticamente.

Além dos lançamentos normais, e filmes de ação e comédia a que estava acostumado na Baixada Fluminense, agora haviam filmes mais "cults", filmes antigos que eu nunca tivera chance de assistir. Também o público era outro. Tanto que recebi dicas de filmes até mesmo de Othon Bastos, o ator. Ou seja, um público bem diferente mesmo.

Também foi aqui que vi o avanço do DVD de uma simples seção em um canto da locadora, para toda ela, em uns poucos anos. Assisti pela primeira vez filmes clássicos como Os Meninos do Brasil (a dica de Othon Bastos), Rastros de Ódio, Asas do Desejo, entre outros. Também perdi o preconceito com filmesde outros países que não fosse os EUA, principalmente filmes iranianos, que assisti e gostei. Ou talvez fosse apenas a falta de opção que me fizesse ter esse "preconceito".

Com a chegada da Blockbuster aqui ao lado, me associei, só que não é uma locadora para quem gosta de variedade. Dando primazia aos lançamentos, quando o filme se torna uns meses mais "velho" é jogado em um canto, sendo colocado em um estojo mais achincalhado, fazendo parecer que o filme é pior do que parece.

Quando a Cinéfilo apareceu, vi logo que era diferente. Os filmes novos e antigos tinham praticamente o mesmo destaque. Não havia uma categoria para "Nacionais", sendo que estes estavam de igual para igual com os outros filmes em Drama, Ação, Comédia e assim por diante. Mas, quando a locadora reduziu o horário, já era um sinal de que as coisas não iam bem. Talvez fosse o excesso de entregadores que tinham, não sei.

Só sei que no último dia 30, ao ir entregar o filme que estava comigo, a loja estava apenas semi-aberta, e escura. O atendente estava bem amuado e pegou a fita, já me explicando que estavam fechando as portas. Estranhamente senti como se fosse a perda de uma pessoa querida. Apesar de eu não ter grande amizade com os atendentes, a locadora em si, era aconchegante.

Por coincidência, o dia estava nublado e um vento frio tornava tudo mais triste. Eu estava à mercê apenas da falta de visão da Blockbuster.

Mais um pouco e eu poderia ver os créditos subindo e escutar a musiquinha que sempre fechava o seriado do Incrível Hulk.

THE END


quarta-feira, 27 de agosto de 2008

KA-CHUNK


VOCÊS ESTÃO ESCUTANDO ISSO?
Quem Tem Medo da Bomba D'Água do Mal?


Numa época em que não existia Internet nem TV a cabo (e mesmo se existisse, não poderíamos pagar) eu e meus irmãos - mais especificamente, um irmão e duas irmãs - tínhamos de ficar muitas vezes sozinhos em casa, esperando nossa mãe chegar do trabalho. Claro que isso não teria problema se, para crianças, a noite não fosse assustadora já lá pelas 19:00 hrs.

Também, nessa mesma época, tínhamos uma bomba de puxar água que não é como as de hoje, pequenas e que cabem em qualquer buraco estreito cavado no chão. Era algo que parecia saído dos porões de um Titanic do Inferno. Verde abacate, com uma roda maior e outra menor coligadas por uma tira de borracha, ou sei lá que material era aquele. Ela ficava no muro da varanda próxima ao poço e, para ligá-la, tínhamos (na verdade EU tinha, já que ninguém mais queria) de subir no muro e apertar uma chave no teto da varanda. Tudo bem, se fosse como qualquer interruptor de hoje, mas nãaaaooo. Era uma chave que tinha de ser empurrada para dentro de encaixes que causavam pequenas faíscas, ligando assim a máquina-monstro.

O medo de que minha mão escorregasse e acertasse os encaixes elétricos me faziam ter a maior atenção do mundo, já que eu poderia ser jogado para trás e para baixo levando uma descarga de sei-lá-quantos-milhões de volts. Aliás, lembro hoje que todo serviço sujo ou perigoso sobrava para mim e, nossa, como tinham serviços sujos.

Eu detestatava aquela máquina de bombear água e acho que ela não nutria muita simpatia por mim. Com sua cor verde abacate (eu já disse isso, né?), imponente em cima do muro, parecia dona de toda a casa. E quando era ligada, ninguém mais podia ser ouvido pois ela era a única que "falava" em seu "idioma" do mal:

KA-CHUNK... KA-CHUNK... KA-CHUNK!!!

Mas, nos dávamos bem. Eu a ligava, fazendo-a funcionar e "esticar" um pouco as pernas de vez em quando, para que não enferrujasse ali, esquecida e ela nos dava água e não me matava eletrificado. Era algo justo, apesar de, mesmo assim, eu ainda nutrir um certo receio quanto a ela. Mas, nada que não pudesse ser levado diplomaticamente. Pelo menos eu pensava que sim.

Voltando ao assunto de ficarmos sozinhos, era um mal necessário. Depois que meu pai nos deixou, minha mãe tinha de trabalhar e não tinha com quem nos deixar, na maioria das vezes. Assim, era eu mesmo que tinha de engolir meu próprio medo de que pudesse acontecer algo a ela e ela não aparecesse e então acalmar os outros caso ela demorasse. O que sempre parecia ser o caso, já que, na verdade, não tínhamos noção de tempo.

Mas não estávamos sós por completo. Podíamos sair para brincar com os filhos dos vizinhos e assim nos distrair. Paulinho e André sendo os que mais me recordo. Eram da nossa idade ou mais novos até. Tínhamos aquela relação de amor e ódio que parece, na maioria das vezes, permear a relação entre vizinhos. Isso se estendia à mãe deles, e acho que era um pouco devido à eterna amizade/inimizade existente entre nossas mães. Mas estou divagando.

O caso é que eu não queria, obviamente, ficar em casa - mesmo que com meus irmãos - sozinho, em companhia da bomba d'água do mal. Como ela já havia feito seu trabalho, não precisava mais de mim por aquela noite. Assim sendo, fomos até a casa dos vizinhos e, de lá, até a casa de outros vizinhos, Esther, Niel e... Risinho (não me perguntem o porquê do apelido, eu nunca soube, e também nunca soube o nome verdadeiro dele).

A casa desses últimos era do lado esquerdo, sendo que a nossa ficava de costas para a casa deles, tornando impossível ver qualquer coisa que pudesse acontecer lá em nossa casa. Sem contar que já estava escuro. Então estávamos distraídos brincando com o que mais gostávamos de brincar quando escurecia... fogo! É, catar madeira, papel e fazer fogueira. Até o momento em que se encontrava algo de plástico e aí começava realmente a ficar "bom", entre aspas. Minha irmã caçula tem uma cicatriz enorme na mão por conta dessas brincadeiras com fogo e plástico. Ou seja, crianças, não façam isso em casa... nem na rua.

Tudo estava bem, e não estávamos preocupados mais com nada, a não ser com o quente e brilhante fogo, quando alguém disse: "Vocês escutaram isso?". Um silêncio automático se fez, como nunca faríamos se fosse um adulto que dissesse isso. Então eu disse:

- Ei! Tô escutando sim.

Mas eu não sabia o que podia ser. Ou, pelo menos, não podia acreditar que pudesse ser a... Bom, minha mãe quando chegasse, viria diretamente para nós, onde estávamos e nos levaria para casa, ou diria para irmos logo. Não iria direto para casa, então... não podia ser.

- Não... pode...

Eu estava incrédulo. O barulho estava longe, mas parecia muito com... E, estava vindo da direção de nossa casa.

De repente a noite parecia mais escura e o silêncio mais assustador. E o barulho era constante e ritmado, e não parava. Éramos mais ou menos uns 8, se bem me lembro, e como se fôssemos uma espécie de aglomerado, começamos a ir em direção à minha casa. Passo a passo.

O barulho aumentava e eu cada vez mais tinha certeza do que era. Era ELA! Ela estava ligada!!! Mas como?! Quem?

Ninguém mais tinha chegado a essa conclusão ainda, até que chegamos em frente à nossa casa e pudemos ver a bomba d'água funcionando sozinha, lá, no escuro, a todo vapor:

KA-CHUNK... KA-CHUNK... KA-CHUNK!!!

Eu não sei quem foi o primeiro - e, sim, pode ter sido até mesmo eu - mas, de repente, alguém gritou, um grito de horror, e isso contagiou o grupo todo que começou a correr feito louco. Lembro perfeitamente que uma de minhas irmãs caiu e ficou para trás, quase sendo atropelada pelos outros, devido ao caminho estreito. Fomos na direção da casa de Paulinho e André, já que sua mãe estava em casa. Ninguém correu para trás. Instintivamente todos correram para frente, como se ao correr para trás, a máquina pudesse nos perseguir. Corremos como o vento ou mais rápido até.

Não lembro de mais nada depois disso. Minha mente parece ter apagado qualquer coisa após eu ter começado a correr. Mas lembro que nunca descobrimos como a bomba d'água foi ligada. Nunca soubemos quem a ligou ou se alguém a ligou. Também não lembro como eu a desliguei. Já que alguém tinha de desligar e só eu fazia isso.

Uma das vantagens do lugar onde morávamos era que não tínhamos problema com desordeiros Até esquecíamos as portas abertas ao ir dormir, sem problemas. Além de tudo, se fosse alguém com más intenções, porquê ir apenas ligar a bomba e não levar nada, já que tudo estava aberto? Certo, não havia grande coisa que se levar.

Minha mãe acha até hoje que foi a vizinha, para nos assustar. O problema é que assustaria - e assustou - também, os filhos dela. Então não é uma teoria muito boa. Fora o problema de subir no muro e se arriscar no escuro.

Talvez a bomba d'água do mal tenha se sentido abandonada e resolveu ela mesma chamar a atenção. Só sei que, depois disso, ela não durou muito tempo lá em casa. Logo nos livramos dela. Era um trambolho mesm... Droga. Vou ter de sair... estou escutando um barulho estranho vindo da sala. Até mais.

...

...

KA-CHUNK...

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Audrey Spitzhein


O LONGO DESPERTAR DE AUDREY SPITZHEIN
Um Conto Sobre as Peripécias de um Estranho
A Equipe O avançava pelas ruas da cidade em seu furgão equipado com tecnologia ultra-secreta de rastreamento. Era tudo uma questão de tempo. Afinal, tudo SEMPRE é uma questão de tempo na vida, pensava o Sgt. Roskowitz...

***

Audrey acordou como sempre fez todos dos dias de sua vida. Porém, esta manhã tudo parecia estranhamente diferente, distorcido, estranho. Audrey Spitzhein levantou-se, foi até o espelho e notou que sua barba estava por fazer. A barba sempre o fazia lembrar de como seu nome de mulher não combinava em nada com ele. Tentou lembrar porque lhe deram esse nome e não conseguiu. Aliás, não estava conseguindo se lembrar de sua infância. De absolutamente nada sobre ela.

O mais estranho é que ele não estava se sentindo mal com isso. Parecia simplesmente que se libertara de algo que vinha carregando e que não era seu. Suas memórias estavam voltando e não eram exatamente sobre sua vida como Audrey Spitzhein. Quem sabe eram suas memórias de uma vida passada. Logo ele, Audrey, um ateu convicto, sendo invadido por memórias de uma vida passada.

Ainda se olhava no espelho enquanto sua mente se enchia de imagens de grandes construções piramidais em um lugar repleto de uma areia quente e vasta. Por um instante Audrey se pegou sorrindo, pensando que ele poderia ter sido Cleópatra. Afinal, todo mundo que tinha experiências com vidas passadas sempre era Cleópatra, nunca eram aquele escravo que a ficava abanando com uma folha de bananeira ou algo parecido.

Audrey lavou o rosto tentando se livrar daquelas lembranças que talvez fossem apenas resquícios de um sonho mal acabado. Precisava fazer a barba, tomar banho, se arrumar e ir trabalhar, ainda que não se lembrasse onde é que trabalhava.

Levou a lâmina até o rosto e, quando uma lembrança apareceu em sua mente como um flash, sua mão sofreu um espasmo causando-lhe um corte. Não doeu. Não sangrou. Mas sentiu que sua pele descolou, e ficou solta como um pedaço de plástico pendendo, pedindo para ser puxado.

Audrey segurou o pedaço de pele cuidadosamente e virou o lado do rosto em que se encontrava aquele ferimento, para o espelho. Ficou ali olhando e analisando por um bom tempo, como se já esperasse ver o que viu. Tentou recolocar a pele de volta no lugar, mas sentiu que isso não seria mais possível.

Se afastou da pia, sentou-se no vaso sanitário e começou a tentar arrumar as memórias que estavam aparecendo em sua mente. No meio de imagens desconexas ele pôde "ouvir" uma voz do passado dizer:

"Seu nome será Audrey Spitzhein, e você ficará no setor T1, com a força-tarefa 207, composta de 4.800 indíviduos, incluindo você. A missão dea força-tarefa 207 é recolher informação e transmiti-la. Nada mais.

Sr., Audrey, para os terráqueos, é nome de fêmea.

Não nos contradiga, Sr. Z45rsTsR. Nossa missão vem sendo planejada há séculos. Acha que não sabemos sobre nomes de machos e fêmeas?"


Audrey estava confuso. Mas a pele solta e o que havia por trás dela, não deixava muita margem para ele pensar que ainda estivesse dormindo. Passou o dedo sobre a pele por trás da pele e a sentiu áspera, dura, fria. Mas, se ele não era humano, por que não se lembrava disso?

"Para que nossa missão seja um sucesso, cada indíviduo terá que passar por um período de adaptação em que será implantado as memórias de um ser humano e ele esquecerá temporariamente quem é na realidade. Viverá como um deles. Quando sua memória for reativada em 3 semanas, sua missão começa de verdade. Com tudo que as forças-tarefa nos informarem, invadiremos o planeta em cerca de um mês terrestre, sabendo exatamente como e onde atacar."

Então, era isso, se passaram as três semanas?

Audrey notou seu relógio de pulso. Entendeu então o que signifcavam os números abaixo, que só ele conseguia - por ser quem era - decodificar. Marcava o tempo para o incio da sua missão. Marcava... três anos e meio! Sentiu sua boca se tornar ácida. Um enjôo. Ele estava como humano a três anos e meio?

O banheiro tinha uma pequena janela que dava para a rua. Ele morava no terceiro andar de um prédio. Abriu a janela e olhou para a rua. Era uma manhã calma, mas muito movimentada. Prédios e mais prédios sendo reconstruídos. Alguns ainda em pedaços, sem chance de serem salvos. De onde estava podia ver uma praça onde havia um tipo de monumento, era uma espécie de estátua de um soldado segurando o corpo morto de um... oh, Grande Serpente Eterna!

Audrey vomitou, vomitou e pôde reparar que ele não era mesmo humano, quando fez isso. Pôde perceber pelo monumento e pela recosntrução daquela parte da cidade, que nada foi como seus superiores previram. Chegou mesmo a ver destroços de uma nave sendo usada como parque de diversões pelas crianças.

Mas, porque os três anos e meio?

"Chamando base 1. Chamando Base 1. Meu aparelho de camuflagem apresentou defeito durante o teleporte. Não está acionando. Não está acionando. Está apresentando curto-circ... curt...tzzzz.... Audrey Spitzhein, sou Audrey Spitzhein."

Oh, foi isso.

Quando Audrey entendeu o que aconteceu com ele, o banheiro foi invadido pelo que parecia ser um destacamento do exército terráqueo, e o capturaram.

- Sargento, conseguimos. É ele mesmo. Um dos que foram deixados para trás, como os outros. O de número 134 nos Estados Unidos.

- Mais algum sinal de outro sirgoriano no apartamento?

- Não, Senhor. Ele está sozinho, como todos os outros. Não são muito sociáveis. Só não entendi porquê demoramos tanto para encontrar esse.

- Não importa, Caldwell. Nossos cientistas do exército vão saber encontrar essas e outras respostas dele. Vamos embora e chamem a Turma de Limpeza. Vamos.

... ... ...

- Audrey? Você ainda está no banheiro, querido? Eu fui ao closet procurar nosso álbum de casamento para ver as fotos que vamos mostrar ao nosso bebê quando ele nascer. Tudo bem que não dá nem pra saber o sexo ainda, mesmo a gente tendo tentado e a ultra nao ter mostrado grande coisa... Audrey...? Audrey, cadê você....?

- Audrey...?


domingo, 13 de julho de 2008

Adeus Também Foi Feito


ADEUS TAMBÉM FOI FEITO PRA SE DIZER
Goodbye, So Long, Farewell, Tina Oiticica Harris Rouquette





Tina gostava bastante do Nirvana

"Você é mais alto do que eu pensava", foi a primeira coisa que Tina me disse, quando nos encontramos pela primeira vez que não fosse pela Internet ou pelo telefone.

Certo dia, entre os comentários que aparecem por aqui, havia um de alguém que se chamava Tina, juntamente com o endereço de seu blog, o Universo Anárquico. Ao responder seu comentário em seu próprio blog, deu-se início a uma amizade que, para os padrões da Internet pode parecer ter sido longa mas, que para a vida real, foi curta demais.

Nunca pensei que um simples agradecimento a um comentário poderia gerar uma amizade tão marcante. Além de tudo, acompanhada de alguma coincidências. Tina era da família Oiticica, família essa conhecida pelos familiares de minha esposa. Isso fez com que a amizade dela se estendesse a todos aqui de casa.

Tina se tornou uma presença constante em nossa vida. Telefonemas internacionais duravam de duas a três horas e ela teria fôlego para mais se eu deixasse. Gostava de falar da blogsfera como ninguém. Também se envolvia tanto que arrebanhava tantos desafetos quanto possível. Não tinha papas na língua. Eu vivia apenas pedindo que ela não desse tanta confiança a pessoas assim. Alguns conselhos ela seguia, outros não.

Talvez devido já a sua saúde ela gostasse tanto de se envolver no mundo blogueiro, vendo sua atividade no blog como um trabalho que ela tinha de levar a sério... e levava, mesmo escrevendo do seu jeito sempre despachado, ainda que bem culto.

Discordávamos de quase tudo: gostos, política, futebol, religião, música, de como não levar a internet e as pessoas nela não tão a sério e, ainda assim, éramos amigos. Amigos que como todo amigo de verdade, acabam brigando e se reconciliando, como aconteceu algumas vezes.

Como gostava bem mais da blogosfera que eu, ela comentava bem mais que eu aqui no RA, do que eu em seu blog. Com o tempo os telefonemas diminuíram de duração, mas não acabaram. Ela sempre tinha alguma novidade pra contar ou apenas relembrar coisas antigas. Sempre metida em uma nova confusão.

Através de nosso contato constante conheci seu marido, Nicholas, e seu filho, Gabriel. E não apenas por aqui, mas junto com ela, quando os três vieram ao Brasil e ela soltou a frase do início do texto. Por ocasião dessa visita almoçamos juntos, tanto eu e ela, como seu marido, filho, minha esposa e a tia dela. Nossas duas famílias. Pensando bem, nunca tinha acontecido nada parecido antes com uma amizade feita na Internet.

Tina não apenas morava nos Estados Unidos, ela era praticamente uma brasileira que não nasceu aqui, mas lá. Filha de uma brasileira com um estadunidense, viveu aqui no RJ tanto tempo, na capital, que falava com o mesmo gingado dos cariocas e, mesmo vivendo nos Estados Unidos tanto tempo, conseguia falar o português sem sotaque. Era botafoguense de coração, por coincidência, o bairro que moro.

Não nos falávamos tanto nos últimos tempos, talvez por seus problemas de saúde estarem aumentando cada dia mais, com internações e cirurgias constantes.

Nicholas, seu marido, deu a notícia de seu falecimento, escrevendo do mesmo modo que ele costuma falar, misturando português e inglês, mas deixando bem claro que o amor de sua vida partiu. E isso fica evidente em qualquer língua.

Ela sempre dizia que seu blog ficou mais em evidência depois que eu o destaquei aqui no RA. Gostava do banner simples, que fiz pra ela, que eu mesmo não me conformava de ter ficado tão simples. Mas, Tina se destacava por seus próprios méritos, tinha seu próprio público, que já a entendia. Era o tipo de pessoa que sabia ser marcante, que tinha uma personalidade forte e que dizia o que pensava.

Suas últimas palavras aqui no blog foram:

Gostei muito da sua entrevista. Vim aqui no puro palpite, Eudes. Como você mesmo disse, esta entrevista só poderia ser perfeita com suas perguntas escolhidas a dedo. Mande abraços e beijos para a Lia e a tia. Um beijão pra você, Honorato! Ah, o Sedentário e Hiperativo tem um link para o curtíssimo que precede o Wall-E.

Vou sentir falta dela.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Tudo Sobre Gibi

TUDO SOBRE GIBI... NA MINHA VIDA Quase Tudo Pois Minha Memória Não é a Mesma

Minha memória mais antiga referente a revistas em quadrinhos é apenas uma, que nunca esqueço: eu ganhando uma quantidade enorme de revistas de uma de minhas tias, e depois elas sendo subtraídas de mim por meus tios, irmãos dela. Me deixaram apenas com uma do Riquinho, pois eles não gostavam. Infelizmente... nem eu.

Eu ainda não sabia ler, mas obviamente fiquei chateado com o acontecido. Acho que aprendi a ler logo, para poder saber o que estava escrito naqueles quadrinhos tão cheios de ação e tão coloridos, e não ter a desculpa de ter minhas revistas roubadas por não saber ler.

Minhas tias e minha mãe me fizeram um apaixonado por quadrinhos. Me davam revistas quase sempre. Não entendo porque dos quatro filhos, apenas eu peguei o gosto pela leitura, e não só de quadrinhos, mas de quase tudo.

Depois de um tempo minha mãe se viu louca com a quantidade de gibis que eu mesmo comecei a comprar. Ela dizia apenas, "tu quando começa com uma coisa, hein, Eudi". Mas, eu gostava de ler quadrinhos tanto ou mais do que assistir TV ou mesmo brincar. E, simplesmente não entendi como é que todo mundo não gostava, assim como gostavam tanto de TV.

Eu lia todo tipo de gibi que me caía nas mãos e comprava tantos quanto podia. Lembro de algumas vezes ter ficado apenas na vontade, quando vi com um colega de escola a revista gigantesca (principalmente para uma criança) do Super-Homem X Muhammad Ali. Eu pensava, "mas peraí, o Muhammad Ali não é um cara que existe de verdade?". Lembro que, como não poderia ter aquela, devorei todo o conteúdo na hora do recreio e a devolvi (muito a contragosto), para meu colega.

Já deixei minha mãe de cabelos em pé, quando sumi para comprar uma revista (Disney Especial); já trabalhei quase que exclusivamente para comprar gibi, quase era pré-adolescente; já achei gibi raro perdido em pátio da escola, já perdi gibi raro que comprei em sebos muito escondidos; já tentei mostrar a outros como é legal ler gibi. Tudo isso quando era apenas um moleque.

Quando era adolescente, lia tantas revistas de super-heróis e via tantas aquelas cartas e desenhos publicados, que resolvi escrever pra eles, desenhar e enviar. Se ia ser publicado, eu duvidava seriamente.

Meu irmão já mostrava seu talento para a coisa e eu apenas dava minhas "cacetadas". Enviei desenhos tanto meus, quanto dele. Por incrível que pareça, foi publicado um (o desenho no início do texto), que era uma idéia minha, mas desenhada por ele. Saiu em uma revista dos Novos Titãs, e assim, fez justiça aos dois.

Quando fiquei adulto, caí na bobagem de seguir uma religião que, digamos, me "reprogramou". Nem mesmo gibi eu lia. Mas, tudo bem, era a década de 90 e não perdi grande coisa, a não ser Marvels. Depois que acordei e fui "re-reprogramado" de volta, ainda assim li bem pouca coisa, até que entrou o século 21, e descobri Planetary, scans, blogs, fóruns e o resto todo mundo já sabe.

Mesmo gostando muito de gibi, ainda assim só consigo vê-los como uma forma de diversão, um passatempo que me tira alguns minutos de órbita, indo para outros mundos ou, às vezes, até mesmo para esse aqui, em HQs mais realistas e, que mesmo assim, encaro ainda como passatempo. Não sei entrar em fóruns de discussão e tentar descobrir porque o Super-Homem voa, como as garras do Wolverine funcionam, ou se o Mark Millar é melhor que o Greg Rucka. Não tenho essa paciência.

Gosto de pegar a HQ, ler, me divertir, e deixar que tudo acabe ali, onde está escrito FIM.


sábado, 5 de julho de 2008

Entrevista

ENTREVISTA MINHA PARA O RAPADURA Como Falar de Si Para Consigo Mesmo

Devido à falta de compromisso do Sr. Neil Gaiman, que preferiu ir a Paraty e, com isso, não pôde dar a entrevista prometida ao RA, entrevistaremos então, Eudes Honorato, mais conhecido como o Alan Moore brasileiro, em uma piada interna que apenas o jpvolley vai entender.

Criador do blog que vos fala; do F.A.R.R.A. (fórum que, se não conhecem, deviam conhecer); criador de scans nacionais em escala industrial e, por fim, criador de caso, Honorato (como prefere ser chamado, sabe-se lá por que), aceitou de livre e espontânea vontade nos conceder esta entrevista, para preencher linguiça, e espaço que a maioria pulará e irá direto para os downloads.

RA: Sr. Honorato, pode nos dizer porquê escolheu o formato blog para expôr suas idéias na internet?

E.H.: Bom, porque era um novo formato, revolucionário que vinha surgindo, e muita gente de peso estava adentrando essa nova forma de se expressar na internet, deixando sua marca e... pfff... hahahaha... ok, brincadeira. Foi porque eu estava sem nada para fazer e porque nunca soube montar um site.
RA: Porque esse nome Rapadura Açucarada?

E.H: Assim, tipo, como vou dizer... eu estava com fome nesse dia e com saudades da minha terra natal, o Ceará. Uma coisa levou a outra.

RA: Mas o sr. sabe que rapadura é açucar, não sabe?

E.H: Claaaaro que... que... eu sei. Açucarada foi só pra... hmm... dar ênfase à idéia.

RA.: Seeei. Agora me diga, o que diabos rapadura tem a ver com quadrinhos?

E.H.: Rapadura é quadrada... dãaaaa!!!!

RA.: Oh. Não sei porque estou começando a ficar com dor de cabeça. Mas, vamos lá. Porque começou a escanear HQs?

E.H.: Na verdade foi acidental. Eu tinha um scanner. Na época eu não sabia por que comprei aquilo. Eu apenas comprava tudo que se referia a computador. Estava na moda mesmo. Então eu não sabia para que aquilo servia. Daí, um dia eu estava lendo uma HQ do Deadpool, quando de repente, atravessei uma rua e um tambor de produto radioativo me atingiu, derrubando o gibi de minhas mãos, fazendo com que ele caisse, aberto, no scanner, e gerou uma cópia da página. Então descobri para que servia aquele troço.

RA: Certo. Mas porque tantos scans?

E.H.: Vício. Tipo, eu não bebo, não fumo e não f... faço muita questão de ter um carro para lavar todo fim de semana. Também não gosto de futebol. Daí que me viciei em escanear.
RA: Mas não foi por amor aos quadrinhos, para distribuir cultura gratuita, lutar contra preços exorbitantes e pelos nerds oprimidos?

E.H: Hã... o que... quem... como? Que é isso de amor aos quadrinhos e cultura de graça? Tá lôco, é? Eu só escaneio porque eu gosto e me viciei, fora isso, as editoras podem cobrar o quanto quiser pelos seu gibis, se for caro demais eu não compro e pronto, oras. E quem quiser cultura de graça o Teatro Municipal tem sessões a R$ 1,00, todo domingo de manhã. É quase de graça. Faça-me o favor!

RA: OK. E quanto ao seus contos e memórias. Porque começou a escrever tanto, se o blog era basicamente voltado para scans de quadrinhos?

E.H.: Bom, ele não era, como eu disse foi um acidente. Depois tive de parar por um tempo com os scans e não ia terminar o blog por causa disso. Então comecei a colocar links de qualquer troço que encontrava. Também descobri que sabia escrever. Isso veio a calhar, pois eu tinha muita bobagem a escrever. Mesmo voltando com os scans, continuei escrevendo, mesmo sabendo que nem eu mesmo leria depois que terminasse o texto. No máximo para uma revisão dos meus muitos erros. Detesto textos longos.

RA.: E Jerusalem Jones, que aliás está sumido, como e porque o criou?

E.H.: Também foi acidental, mas sem a parte radioativa. Eu só escrevia vários contos e queria escrever um sobre faroeste. Era pra ser apenas um. Mas ele foi ficando, ficando, ficando.

RA: Bom, por último temos o F.A.R.R.A. Por que surgiu?

E.H.: Bom, foi por acidente. Eu sei, tá ficando chato isso, né? Mas é verdade. Eu queria um lugar para colocar os scans e que o pessoal que acessava o blog pudesse ajudar a manter os links funcionando, coisa que eu sozinho não estava conseguindo mais. Acabou virando mais do que um lugar para downloads e é uma casa legal. Às vezes parece um hospício, e o dono parece ser o pior dos loucos, mas no geral é um bom lugar para se vegetar na internet, ou ficar acessando do trabalho.

RA.: Para terminar, a última pergunta. Óbvio, afinal é para terminar. O Sr. é um nerd?

E.H.: Sei lá, já me chamaram de coisas piores.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Cães, Gatos e Murdock


CÃES, GATOS, OUTROS BICHOS E MURDOCK
Talvez Eu Nunca Descubra o Porque Desse Nome



Devo confessar, em primeiro lugar, que eu nunca fui muito fissurado em animais de estimação. Eu mesmo nunca tive um, e todos os que passaram por minha vida, foram por conta de minha mãe que parecia atraí-los como um imã. Raramente ela pegava algum animal de estimação, eles apenas apareciam.

Os gatos pareciam saber quando um morria, pois só aparecia outro depois disso. O primeiro que me lembro, um gato branco, com um olho de cada cor, levou o nome de Naninha, mesmo sendo macho. Para piorar, vários sucessores seus, levaram o mesmo nome, talvez por preguiça de se encontrar um novo. O único que lembro que teve um nome diferente (Miroro) era um gato com um olho ruim. Na verdade, com o tempo, ele parecia ter saído direto do Cemitério Maldito. Dava medo, mas todo mundo gostava do gato assim mesmo.

Já os cães eu realmente me lembro de poucos. Um bem engraçado que tivemos era o Jeremias (e não, foi bem antes do Jeremias do YouTube, então não é uma homenagem). Ele era um vira lata, preto e branco, todo elétrico. Não parava nunca. Ficou conosco até morrer, e tenho boas lembranças dele. Era um cachorro engraçado. Porém, acho que como animal de estimação, nenhum foi mais estimado que Murdock. É, é esse mesmo o nome. E, provavelmente, nunca vou saber porque ele tinha esse nome. Não fomos nós que demos. Aliás, Murdock nem mesmo era nosso. O que aconteceu foi o seguinte:

Tínhamos como vizinhos do lado esquerdo, uma família composta de mãe e 4 filhos, praticamente como a nossa. Já éramos todos adultos nessa época e uma de minhas irmãs até já era casada. Pois bem, aconteceu que essa família ganhou um filhotinho, se não me engano de uma patroa de onde a mãe das crianças trabalhava. Era uma bola de pêlos laranja. Muito bonitinho. Até aí tudo bem.

Ele já veio com esse nome, Murdock, e nunca ninguém explicou o porque dele. Enquanto ele era filhote a família o adorava, porém, ele foi crescendo e perdendo a graça para eles, que o foram esquecendo. Já desde filhote que Murdock, no entanto, nos fazia suas visitas regulares e que foram ficando cada vez mais constantes, até que, já crescido e meio que abandonado por seus donos originais, Murdock nos adotou como sua família. E ninguém do lado de lá se importou muito com isso.

Minha mãe se apegou muito a ele, mais do que a qualquer outro animal de estimação que tivemos. Talvez devido aos filhos estarem saindo de casa, e Murdock ser sua companhia mais constante. Depois que me casei, era incrível ver que Murdock pressentia quando eu estava chegando. Na verdade, ele fazia isso com qualquer um de nossa casa, ficando agitado e latindo e, logo em seguida, alguém de casa chegava. Algumas vezes ele foi me buscar eu estando ainda no meio do caminho.

Murdock era abusado, e sempre estava entrando em brigas com cães maiores que ele, por mais que isso parecesse uma estupidez. Várias vezes chegava em casa como se tivesse sido passado no triturador e lá ia minha mãe cuidar dele. Ela já estava bem acostumada a isso. O problema é que ele estava envelhecendo e mesmo assim não parava com isso.

Um dia estou em casa, o telefone toca e é minha mãe. Murdock tinha acabado de falecer. Ela começou a contar cada detalhe de como foi. Ele estava mau já há um tempo, e piorou nesse dia. Sentindo que ele ia morrer, ela ficou ao lado dele. Ela disse o quanto parecia que ele sabia que era uma despedida, de como olhava pra ela e tudo mais. Nessa altura eu já estava chorando junto com ela, como se tivesse estado presente. Não foi nada fácil para ela.

Acho que sempre vou ver o Murdock assim. Tivemos vários bichos de estimação, mas serão sempre eles e o Murdock. Ele era bem diferente, até mesmo no nome. E, assim, nós nem mesmo o escolhemos para nós, ou quisemos ficar com ele, ele que nos escolheu e achou por bem ficar com a gente. E ficou, pelo menos enquanto esteve por aqui.


quarta-feira, 21 de maio de 2008

Prefiro Ser

PREFIRO SER ESSA ANOMALIA AMBULANTE Do Que Ir Na Padaria Ver Se Compro Um X-Tudo

Acho que foi na Copa de 1994, a Argentina jogava com a Bulgária, ou um desses países daqueles lados. O jogo estava meio sofrido e eu estava quase tendo um troço, torcendo contra los hermanos. A coisa começou mesmo a ficar feia, tanto no jogo quanto pra mim. Eu estava com falta de ar, taquicardia (e não, não era uma crise de pânico). Eu achei que estava tendo um ataque cardíaco. Não estava conseguindo acompanhar o jogo, só pelo simples fato de ver a Argentina quase ganhando. Isso tudo era devido ao fato de que se ela ganhasse pegaria o Brasil, e velha rivalidade entre os dois times é algo que todo brasileiro conhece bem.

Eu desisti de assistir ao jogo. Não estava dando. Saí, fui lá para fora respirar um pouco, me acalmar. No fim, hoje em dia, não lembro se a Argentina ganhou ou perdeu, mas lembro de como eu fiquei. Quem lê isso vai pensar, então, que sou algum tipo de fanático por futebol. Não. Não sou. A verdade é bem outra: Eu DETESTO futebol.

Sério. Sei que posso perder uns 70% dos meus 12 leitores, mas eu tinha que dizer. Eu curto assistir o futebol na Copa do Mundo, mas isso é mais devido a um patriotismo arraigado que a qualquer sentimento futebolístico. Acho que assistiria até o A Copa do Mundo de Palitinho com o mesmo fervor. Claro, assim como futebol para mim é uma coisa ilógica, o patriotismo também é. Sendo assim, nem deveria estar falando nada. Mas vou falar.

Copa do Mundo é de 4 em 4 anos. Nas Olímpiadas também temos, mas não é a mesma coisa. Todo mundo sabe disso. Mas, me diga, qual a graça de assistir semana após semana, ou mesmo mais de uma vez na semana, jogos e mais jogos todos com as mesmas características. Tudo bem, acho que podem dizer que não gosto de futebol porque não sei jogar, o que é toda a verdade do mundo. E, com certeza, eu nunca tentei com grande entusiasmo. Canela machucada e trombadas com machos não são, com certeza absoluta, minhas taras preferidas.

Mas não saber jogar não quer dizer nada. Duvido que todo torcedor de futebol seja um jogador em potencial. Depois tem a questão dos times. Como se escolhe por qual torcer? É genético? Espiritual? É uma herança de pai para filho? No caso do Flamengo eu até "entendo" a escolha. Muitos escolhem porquê é o time da maioria aqui do RJ. Talvez seja o mesmo no caso do Corínthians, em SP. Ou seja, não é uma questão de qualidade, necessariamente, mas de quantidade.

Quando eu era mais novo, eu até tentei ter uma identidade futebolística. Meu pai era Fluminense, e eu achava que devia ser Fluminense também. Mas, daí ele foi embora, e acho que isso comprometeu minha crença no time. Daí resolvi - e creio que isso foi pelos motivos que eu mesmo citei - que seria Flamengo. Certo. Eu não tinha uma camisa, eu não assistia os jogos, eu não conversava sobre futebol, mas eu tinha um boné do Flamengo. Eu fui Flamengo até o dia em que estava num bairro distante de casa. Estava lá com meu boné maneiro do Flamengo, quando uns cinco garotos maiores que eu, flamenguistas, resolveram que meu boné era bacana e o pediram com toda a "educação" que eu o entregasse. Senti que eles não teriam tanta "educação" se eu não entregasse. Minhas tentativas de ter um time terminaram por aí. E minha paixão pelo futebol não se desenvolveu.


Talvez fosse meu jeito nerd de ser. O problema é que memo como nerd eu era um fracasso. Assim eu transitava entre dois mundos, sem nunca pertencer a nenhum dos dois. O mundo dos nerds e o dos outros. Porém, hoje em dia, nesse mundo imenso da internet, vejo que muitos nerds curtem futebol, mesmo que esse seja em um cartucho de videogame, onde ele se sente o Ronaldinho, só que sem o acompanhamento dos escândalos.

Futebol para mim, é e sempre será um enigma, perdendo apenas para o Futebol Americano e o Vale Tudo. Afinal, a maioria dos que gostam de futebol são assumidamente heterossexuais que saíram do armário e foram para a poltrona da sala, ou para uma mesa de algum bar que tenha TV por assinatura. Certo, sendo heteros, qual o motivo de se rasgarem por causa de um bando de homens correndo atrás de uma bola? E porquê diabos a cada gol aqueles caras alisam as bundas uns dos outros?!

Talvez o futebol tenha sido criado apenas para que se tenha assunto nas mesas de bares, ou para quando encontramos alguém e não temos o mínimo assunto. Afinal isso de "está fazendo sol hoje, hein!", é algo que realmente demonstra que você não tem assunto algum. Mas se você diz: "E o teu Flamengo, hein, que papelão", pronto, você tem assunto para três dias. E eles MOSTRAM interesse no que você diz. Talvez seja uma grande invenção, afinal de contas.

E os peladeiros de fins-de-semana?! Quem garante que sempre vão jogar mesmo futebol com os amigos, ou que vão ver outro tipo de pelada? Sim, sim. Como evento o futebol sempre será essa coisa misteriosa em que você nunca terá certeza se o jogador estava mesmo impedido ou até mesmo se você sabe o que é um impedimento, mesmo sendo torcedor. Será sempre essa confraternização de homens-machos que gostam de se agarrar entre si mesmos, ou ao adversário. Porém, pode servir como desculpa para muitas coisas.

Já eu, bom eu prefiro vôley feminino, e os motivos a foto abaixo o mostra bem. Mas, claro que como todo bom heterosexual, um coro se levanta e diz "MAS EU TAMBÉM GOSTO". E, não duvido da masculinidade dos torcedores. Mas diga, se tivesse hoje um jogo qualquer de vôley entre duas equipes femininas, brasileiras, todas completamente peladas e a final do Campeonato Brasileiro com Flamengo e Corínthians, na mesma hora, qual escolheria?

Sei, você deixaria gravando o jogo das garotas peladas. Eu acredito que você ia lembrar sim [sarcasmo mode on].

quinta-feira, 27 de março de 2008

Jerusalem Jones e o Atalho

JERUSALEM JONES PORQUE PEGOU ESSE ATALHO?
Um Conto de Faroeste Além do Bem e Além do Mal



Esse é um daquele momentos na vida em que a gente se pega pensando: "Jerusalem, porque diabos, infernos recalcitrantes das chamas ardentes, você tinha de tomar um 'atalho'?". O cavalo morreu faz três horas e eu devo ver a luz nos próximos minutos. Eu devia pedir perdão por todas as coisas ruins que fiz, mas isso levaria horas. Eu queria só um gole d'água antes de morrer, mas isso seria um paradoxo, pois se eu conseguisse água, eu não morreria, pelo menos não agora. Paradoxo? Onde raios eu aprendo essas palavras esquisitas? Ai, o ceú da minha boca parece que sumiu e minha língua está parecendo uma lixa. Jerusalem, porque você foi pegar um "atalho"? Me diz, por favor!

Tudo começou quando eu recuperei o dinheiro que o bando dos Mullhoney roubou em Pecos City. Tá certo, recuperar envolveria devolver e eu não estava muito a fim de fazer isso. Estava com dívidas até o último fio de cabelo, algumas bem... mortais.

Ainda trago a sacola de dinheiro comigo. Daria tudo para que se transformasse em um copo d'água. Esse sol não é normal. Meu Deus, posso sentir meus rins fritando.

Quando eu fugia com os Mullhoney em meu encalço, resolvi atravessar o deserto, achando que conhecia um atalho por aqui. Acho que confundi os desertos. Este é mais longo, agora eu sei. E eu vou morrer. Morrer sem ter escrito um livro, plantado uma árvore, e nem tido um filho. Oh, Deus, eu estou delirando. Como eu poderia ter um filho? E eu nem gosto de árvores e quase não sei escrever. De onde vêm essas coisas na minha cabeça? Vou morrer de sede. Mas preciso continuar andando, quer dizer, me arrastando, quem sabe acho alguma maldita poça de águaaaaaaaaa.

Eu não queria morrer assim. Na verdade, não queria morrer de jeito algum. Mas menos ainda assim, sem dignidade, sem puxar o revólver, apenas sentindo o corpo secar até não ter mais uma gota de líquido. Já enfrentei tanta coisa pior e sobrevivi. Por que eu fui pegar um atalho? Oh, Jesus!

Jesus?!

- Não, não, amigo, eu só pareço com ele. Todo mundo confunde.

Mas que Diabo...?!

- Oh, ele, também não é o tal! Ele faz isso de brincadeira, detesto quando ele faz. Atrapalha o nosso trabalho.

- Eu gosto. Você que não tem senso de humor!

- Senso de humor? Chuva por quarenta dias e quarenta noite e obrigar um velho e limpar merda de milhares de bichos, é senso de humor?!

- Ah, vai! Foi engraçado, admita.

- Engraçado foi o teu castigo depois.

- Ah, isso não vem ao caso.

O que está acontecendo aqui? Quem são vocês. Eu já morri, ou só tô delirando?

- Bom, se não deu pra perceber ainda, eu represento o cara lá de cima, e ele aqui, pode ver pela fantasia ridícula que propaga o mito do mau gosto, representa, - aponta pra baixo - o fundo do poço.

- Porque você sempre tem que ser metido assim?

- Por que eu posso!

O que... o que vocês querem? Por que estão aqui? Porque estão falando e me deixando com dor de cabeça?

- Querido, é o seguinte: devido a suas, digamos, muitas peripécias, sua alma se tornou um tanto quanto valiosa. Essa coisa, essa cicatriz que você tem no pescoço - (Jerusalem foi mordido por uma zumbi, mas sobreviveu graças à magia indígena) - deixou você sem um lugar exato.

- Resumindo - coisa que você parece não conseguir - se você morrer aqui e agora, tua alma não vai pra lugar algum, e isso não é lá permitido. Porém, não é permitido, também, que o ajudemos de alguma forma.

Porque diabos estão aqui então se não podem fazer nada?

- Hmm, querido, apenas para impedir que uma terceira "pessoa", que nunca foi mencionada antes, leve-a.

- É, eu e o barbudo aí, estamos em uma espécie de trégua, porque esse negócio de Bem e Mal, bom, vocês humanos realmente estão por fora do que realmente acontece e se tua alma, meio zumbi, meio humana, for capturada, digamos que nossos dois lados vaõ estar com problemas sérios.

- Sim, querido, você resolveu morrer justamente quando ele aparece, uma vez a cada um bilhão de anos. Você é azarado assim mesmo, ou esse é o seu normal?

Enquanto os dois ainda tagarelavam, o ceú ficou da cor de algo que nunca vi antes. O dia, que estava ensolarado, não ficou nem escuro, nem claro, não era mais dia, ou noite, era outra coisa, que eu não conhecia. Um grito estridente quase me ensurdeceu e atirou o que parecia Jesus contra as rochas e enterrou o cara fantasiado de Diabo, bem fundo na terra. Mas não havia nada fazendo isso, aparentemente.

Os dois conseguiram voltar e começaram a se posicionar, como se fossem começar algum tipo de luta. E aquela coisa que eu não conseguia enxergar, parecia estar em posição de combate também. Os dois correram naquela direção e começaram a desferir golpes contra o "Nada", mas eu podia sentir que o "Nada" revidava e muito bem. Aquilo me fez sentir medo pela minha alma, pela primeira vez até aquele momento.

O "Jesus" levou um golpe que quase arrancou sua cabeça, e o "Diabo" o socorreu, mas logo foi atravessado pelo lado por uma espécie de lança invisível e levantado no ar. Logo entendi o que ia ser feito, ele ia ser destroçado contra as pedras. "Jesus" voltou a si e lançou uma espécie de raio que encheu o ar de... pães e peixes?!

- Ops, golpe errado. O chefe vai me pegar por isso!

Em seguida ele foi arremessado longe novamente. O "Diabo" agarrou o ar e parecia que ele tinha segurado o braço daquele "Nada". Gritando alguma coisa, que parecia ser "Agora!", eu vi ele conseguir girar o "Nada" na direção do "Jesus", isso com tanto esforço que ele caiu, desmaiado. Quando aquela massa imensa de "Nada" foi na direção do Cara-Jesus, ele gritou alguma coisa com tanta força e tão alto na direção daquilo que quase fiquei surdo. Não entendi o que foi dito. Mas logo o "Nada" desapareceu como se fosse sugado e senti tudo o mais em volta ser, inclusive eu. Mas ficamos no mesmo lugar. "O Jesus" estava... chorando.

- Eu... eu não podia fazer aquilo, mas era o único jeito.

O que foi que você fez?

- Eu... eu desmorri aquela coisa. Aquilo não tem vida, é algo não-vivo, mais antiga aque o Próprio Chefão. Eu apenas dei vida, o "ressuscitei", e o choque de estar vivo, como a Vida é conhecida, o enviou de volta, por pelo menos mais um bilhão de anos. Acho que até lá já resolvemos o seu problema.

E o seu... seu... é...?

- Meu "parceiro"? Bom, ele se sacrificou. Está morto. Morto mesmo. Ele não existe mais. Mesmo ele não sendo do mesmo lado que eu, isso ainda é algo triste de acontecer.

E eu vou morrer aqui no deserto?

- Isso não seria bom de acontecer agora, mesmo com a ameça debelada.

E o que você vai fazer?

- Já disse não podemos interferir. Só podíamos deter aquilo, era nossa missão. Mais nada.

Então, vou morrer sem um destino pra minha alma. Porque fui pegar aquele maldito atalho?

- Sabe, eu não posso fazer nada. Mas quem disse que não chove no deserto?

Eu não tinha percebido que, apesar de tudo ter voltado ao normal, o ceú estava cheio de nuvens pesadas, e senti quando começou a chover.

- Eu estou cansado, e só quero beber um pouco de vinho. Adeus, Jerusalem Jones. Não posso dizer que foi um prazer conhecê-lo.

A chuva caía torrencial e aquele cara que se parecia com Jesus, foi andando na chuva, enquanto tirava um copo sei lá de onde, enchia de água da chuva, a água se tornava da cor de vinho, ele bebia um gole e sumia na tempestade.

Bebi água das poças, me coloquei de pé e fui em frente. Só depois de alguns minutos percebi que o saco de dinheiro não estava mais comigo. Lembro do homem estar levando-o consigo. Puto da vida, só consigo dizer:

- Oh, Jesus!!!

segunda-feira, 3 de março de 2008

O Cardume de Essex


O CARDUME DE ESSEX

Algum lugar de Nova Londres, hoje:

Escapamos dos Laboratórios Essex Inovations. Restaram apenas 12 de nós dos 45 que conseguiram sair de lá. Não conseguimos nos separar, corremos como peixes em um cardume. Parece que nos tornamos dependentes uns dos outros, apesar de não nos conhecermos. Eu, além disso, arrasto comigo alguém que penso ser meu irmão. Salvei-o algumas vezes durante a fuga, mesmo colocando em risco minha própria vida. Não o conheço, mas sinto essa ligação fraternal que me impede de deixá-lo para trás.

Como cardume que somos, pulamos cercas, atravessamos casas, conseguimos alguma comida, e continuamos a fugir, sem ter a mínima idéia para onde ir, mesmo sentindo que há um lugar para se chegar. Assim como eu, todos os outros parecem não ter mais recordações. Somos todos amnésicos. O mais estranho é que sei disso mesmo sem conversarmos. Fugimos em silêncio. Não fizemos planos. Foi como se cada um de nós soubesse o que o outro pensava.

Não sobrou viva alma no laboratório. Matamos todos. Sem piedade. A mesma falta de piedade que tiveram conosco em suas experiências. Os 33 não foram mortos por ninguém de lá. Alguns foram atropelados, outros tiveram reações adversas assim que saíram, morrendo em seguida, e ainda outros simplesmente evaporaram. Gritos de terror foi a única recordação que deixaram. Eu garanto, nunca vou esquecê-los, os gritos.

A polícia nos perseguiu por um tempo, mas logo conseguimos despistá-los. Os que sobreviveram, claro. Estou imerso nessas recordações que ganho a cada minuto que passa, quando uma das garotas é alvejada por um morador. Ela morre agonizando e seu corpo se eletrifica e derrete. Não é nada bonito de se ver. Meu pequeno irmão olha para aquilo sem nenhuma emoção. O morador é estripado por um dos 11 que sobraram.

Continuamos correndo, o cardume de humanos, ou de algo que um dia foram humanos. Atravessamos uma casa, derrubando a porta. Pegamos alguma comida. Por sorte dos moradores, eles não estão em casa. O mesmo que matou o atirador, porém, se diverte matando o cão, no quintal. Ele nos atrasa.

Por alguma razão eu não entendo porque não há helicópteros nos perseguindo. Não sei como estou ciente disso, já que minhas memórias parecem ter sido apagadas. Talvez não sejamos tão importante para as pessoas comuns. Apenas para os nossos algozes do Essex Inovations.

Meu irmãozinho se machuca ao pular uma das cercas, mas não esboça nenhuma reação. Com a pressa que estamos, não posso parar para cuidar de seu ferimento, e como ele parece não se importar, deixo para cuidar disso quando chegarmos, seja lá onde for.

Um dos 11, do nada, começa a evaporar. Seu grito é inumano. Porém, isso é redundante. Ele é inumano. Corremos mais rápido ainda. Restam apenas 10 de nós 6 rapazes e 4 garotas. A maioria não se abala com os que ficam para trás. Meu irmãozinho menos ainda.

Estamos correndo por uma área sem casas, e atravessamos um pequeno bosque. Talvez seja um parque. Mas, logo encontramos um muro alto, que precisamos pular. Meio que instintivamente, uns ajudam os outros, e todos conseguimos. Do outro lado, porém, ao corrermos sobre a grama que fica em volta de um pequeno prédio de três andares, explosões terminam com a vida de mais 4 do grupo. É um gramado minado. Que louco deve morar em um prédio cercado por minas?

Um de nós ainda pisa em uma das minas, é jogado longe pela explosão, mas levanta e continua correndo. Eu e meu irmãozinho não pisamos em nenhuma. Chegamos ao muro do outro lado e os 6 de nós que sobraram, novamente se ajudam e novamente pulamos. O silêncio chega a ser irritante.

Quando chegamos ao outro lado, o espaço em volta é totalmente desprovido de casas, árvores ou prédios. Parece uma grande pista de corrida. Mesmo sabendo que aquilo é muito estranho, eu não consigo voltar. Afinal, voltar para onde? Preciso ir em frente como os outros 4 já o fizeram. Olho para meu irmãozinho e ele não esboça nenhuma sugestão. Seus olhos são desprovidos de qualquer emoção.

Então, começo a correr, e é nesse instante que me dou conta de algo: eu não estou cansado. Ninguém parece estar. Corremos há tantas horas que perdi as contas. Mesmo assim não sinto um pingo de cansaço. No meio daquela grande pista de corrida, um do rapazes é atingido por algo como um relâmpago. Em chamas ele ainda continua por um bom tempo, para ir parando, caindo de joelhos e, por fim, batendo no chão, com um baque surdo, e o corpo totalmente queimado.

Obviamente coisas estranhas esperam os 5 de nós que restam. E não demora a acontecer. Eu quase sou atingido por farpas que vêem de lugar algum. Os outros são atingidos, cambaleiam, mas continuam. As farpas parecem conter alguma coisa. Eles se ajudam, arrancando-as uns dos outros. Mais explosões, relâmpagos, gás pelo meio do caminho, metralhadoras que aparecem dos lados do caminho, luzes estroboscópicas cegantes e em seguida fogo vindo do céu. Escapamos a tudo, os 5.

Talvez isso aqui seja o inferno, e sejamos os maiores pecadores de todos os tempos. É a única coisa que consigo pensar.

Tudo aquilo consegue nos cansar, finalmente. Caímos exaustos e machucados. Meu irmãozinho tem tantos ferimentos que era pra estar morto. Mas não está. Eu estou quase do mesmo jeito e os outros estão em pior situação, mas vivos. Além do cansaço, sinto uma outra coisa. Uma sensação de término, do fim de alguma coisa. Como se tivéssemos chegado. Mas onde? A pista de corrida terminou e apenas uma parede branca se encontra a nossa frente. Não há como pular ela, e eu nem mesmo quero tentar.

É quando uma porta se abre na parede branca e um grupo de pessoas a atravessa. São... são os cientistas que matamos, dos Laboratórios Essex Inovations. Uma voz em um alto-falante anuncia:

- Testes de clone-andróides concluído: simulação de fuga 9,8; fuga em campo aberto 7,1 (intervenção inadequada da polícia local influiu na pontuação); campo minado 6,5; pista de combate 8,9. Simulaçao de preocupação e zelo, do clone andróide 16 para com o clone-andróide 16b 9,9.

Estes dois últimos serão estudados para aperfeiçoamento de Inteligência Artificial ao nível 8.

Clone-andróides restantes são os aprovados para produção em massa para usos variados.

Ouço aplausos. Mas não são para nós. Estão se cumprimentando entre si. Na minha mente, penso que esta situação seria uma em que eu deveria começar a chorar, mas não consigo, e sei o porquê agora.

Olho para o que deveria ser meu irmãozinho e seus olhos mortos não me fazem sentir remorso do que vou fazer. Quando os seguranças do laboratório vêm nos desligar é tarde demais. Eu torço os pescoço do garoto e o "mato" . Alguém grita:

- NÃO ATIREM, RETARDADOS! NÃO NESTE! AINDA PODEMOS USÁ-LO!

Um dos seguranças, talvez um viciado em ação, não escuta, ou não entende a ordem, ou talvez as duas coisas, e atira bem na minha cabeça, como eu esperava.

Caio estrebuchando, mas ainda funcionando por alguns segundos. Vejo alguém que está de terno, e não de jaleco, correr e empurrar o segurança que atirou. Vejo seu rosto, e é como olhar um espelho. Então entendo o que significa o termo "clone-andróide", e apago.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Náufrago


O NÁUFRAGO NA CANECA DE CHÁ GELADO
Título Surrealista Para Que Pareça Inteligente

Quando percebi já era tarde demais. Certo, só tenho essa frase para começar. Mas, quem disse que eu preciso de algo mais além disso? Tudo bem, eu preciso de algo mais além de "quando eu percebi já era tarde demais". Não posso criar um texto de memórias, um conto, nem mesmo uma receita de frango apenas com essa frase. Mas, tudo tem que ter um começo, mesmo que este começo não signifique absolutamente nada. Sério. Eu não tenho nada para escrever além da frase do início do texto. Mas, podemos tentar...

Quando eu percebi já era tarde demais. A lente dos meus óculos caiu bem no meio da travessia, no sinal vermelho. E ele abriu. Ela caiu e não quebrou mas, assim que tentei voltar pra pegar, o sinal abriu e, vocês sabem, ela virou pó de lente de óculos.

Bom, não é realmente um grande começo. Estou me baseando na lente esquerda do meu óculos que sempre cai, devido ao parafuso que vai afrouxando de vez em quando. Já mandei apertar várias vezes, mas acho que só um novo óculos vai resolver. Afinal, o preço das armações está pela hora da morte. Quase o preço do óculos inteiro.

Desolado, tirei os óculos do rosto e coloquei no bolso do short. Eu não fico cego sem ele, nem nada, mas é incômodo. Quando o sol está forte, tudo bem, eu enxergo melhor. Mas quando vai anoitecendo, o sol cai e tudo fica mais triste, aí a coisa pega. Eu não enxergo quase nada de longe. E, para piorar, eu estava bem longe de casa, tendo muitos sinais ainda para atravessar.

É tudo verdade o que está escrito no parágrafo acima. Digo, sobre a minha visão. Isso realmente acontece. E é incômodo. Nada que dê para escrever um tratado sobre a cegueira, mas rende pelo menos um parágrafo para encher linguiça. Se você chegou até aqui, não deve estar entendendo nada. Mas isso é pelo fato de que realmente não há nada para entender.

Quando olhei para os carros passando, um raio do sol refletiu no pára-brisa de um deles, me deixando tonto. Sim, agora eu estava quase cego mesmo. Uma dor de cabeça se alojou no meu córtex cerebral e eu nem mesmo sei o que é córtex cerebral. Tudo bem, essa piada já é velha. Mas eu estava mesmo com um problema. Me sentei em um banco de concreto para esperar tudo aquilo passar. Coloquei a cabeça entre as mãos, como se aquilo fosse adiantar alguma coisa. Senti alguém me cutucando e quando olhei era uma senhora que perguntou: "Porque está chorando, meu rapaz?". ia dizer que não estava chorando, mas nem pude começar, porque ela sumiu bem na minha frente.

Entenderam? O segredo é pegar a única frase que me vem à mente ("Quando percebi, já era tarde demais") e começar a escrever como se eu realmente soubesse o que estou fazendo, quando na verdade não sei. Junto um pouco da minha realidade, com um bocado de fantasia. Sendo que pode ser uma fantasia modificada em realidade, ou vice-versa. Não que isso sirva de alguma coisa, mas dá pra preencher bons espaços em um blog meio paradão. Se não aguentarem ler, sempre se pode ver outras coisas por aqui.

Não queria pensar muito no que aconteceu. Queria apenas chegar em casa, deitar, dormir e esperar o dia seguinte para comprar um novo óculos. Mais um. Afinal aquela não era a primeira vez que eu via meus óculos serem estraçalhados. Eu já os pisei, derrubei, levei bola na cara, pisei de novo, e assim sempre tenho que dar lucro às ótic... hã? Quando olho em volta, não estou no mesmo lugar mais. Minha cabeça agora lateja de tanta dor. Por um instante algo me vem à cabeça, ninguém usa isso de "meu rapaz", só em filmes e livros. Olho em volta e o lugar tem prédios, carros, ruas, pessoas e tudo mais. Mas não é, com certeza, o mesmo lugar. Limpo demais, brilhante demais.

Por um instante eu volto a não ter mais o que escrever. Perco o fio da meada e a história que não existe, passa a existir menos ainda. Quem se importa? Bom, eu. Agora que comecei tenho de dar um jeito de terminá-la. Isso não é fácil. Talvez eu apenas tenha que disparar, como um jogador de futebol, esperando não ser derrubado antes de marcar o gol. Ou, ao menos, chutar. Já seria alguma coisa.

Fico me lembrando dos sonhos que venho tendo. Aqueles em que eu, dentro deles, percebo que estou sonhando. Será que é algo assim? Acho que não. Neles eu sei com toda certeza que é sonho. Aqui eu sei que é realidade. Uma realidade diferente da que eu conheço, mas ainda assim realidade.

De repente me dou conta de uma coisa. Uma coisa engraçada. Estou no mesmo lugar, eu apenas estou enxergando bem sem os óculos. Pisco várias vezes, olho o letreiro dos ônibus ao longe e consigo lê-los. Meus óculos estavam defasados, eu sei. Talvez seja isso. Mas e a senhora-fantasma? O que foi aquilo?


Mais um pouco de realidade. Meus óculos estão defasados mesmo e eu realmente preciso trocá-los independente de as lentes estarem caindo ou não. Sim, eu estou enrolando vocês, ganhando tempo e tentando inventar um epílogo decente para uma história que começou com uma frase solta e sem sentido. Não se espantem, 90% dos meus textos são escritos assim.

Quando lembro da senhora, uma a uma as pessoas que estão nas ruas, vão sumindo. Quase posso ouvir um "POP, POP, POP" de cada uma delas ao desaparecerem. Nesse momento minha cabeça já parece uma uma bomba de sucção. Eu quase podia sentir a veia na testa latejar. Fui na direção de casa sem me importar com as pessoas (e agora as coisas) sumindo ao meu redor. Apenas segui a reta que daria em casa.Quando avistei meu prédio, ele fez "POP!" e... claro, sumiu.

Chego ao momento crucial: que tipo de bobagem devo escrever para terminar isso e ter valido a pena todo esse esforço em chegar até aqui? Tudo sonho? Não. Já mandei essa demais. Efeito de remédios tomado em demasia? Essa também está batida. Ter caído e batido a cabeça na quina da mesa? Acho que já usei essa também? Sabe o que é pior? Eu não faço a mínima idéia e isso é que torna a coisa toda emocionante. O problema é que o suspense me mata!

Fico parado, como uma esquálida figura num vitral fosco de uma igreja em ruínas - nossa, de onde eu tiro essas coisas? Enfim, eu estava sem entender. Eu não estava dormindo, não estava sob o efeito de remédios em demasia, nem havia batido a cabeça na quina de nada. Foi quando me dei conta de toda a cruel verdade: eu estava preso em um texto escrito à força por mim mesmo, em que cada coisa era dita apenas para chegar a um final chocante. Sabendo disso, caminhei em direção ao prédio, que eu não mais via, tirei a chave da bolsa e abri a porta que não mais existia.

Por um instante pensei no final de "O Incrível Homem Que Encolheu" e em seu discurso emblemático, quando por fim ele se dá conta que mesmo encolhendo até o infinitesimal, ele ainda existe. Me dou conta de que mesmo sendo apenas um proto-personagem de mim mesmo, num texto que antes não existia, bom, eu agora existo, e todas as coisas ao meu redor. É quando tudo volta ao seu lugar, e é quando posso pôr nessa história um...

FIM


terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

A Era do Rádio


A ERA DO RÁDIO EM MINHA VIDA
Uma Época Vivida Quase Toda em AM


Sentem-se crianças, para "escutar" a história de um tempo em que não havia televisores (para alguns) e nem Internet... para ninguém! Não, não precisa soltar um grito de horror, você já está crescidinho demais para isso. Mas, é a verdade, e isso nem mesmo faz tanto tempo assim. Não foi após a extinção dos dinossauros, nem depois da queda do Império Romano. Foi há pouco tempo, bem antes de você nascer, o que faz parecer que é muito tempo.

Minhas lembranças do rádio são muito confusas e se entremeiam muitas vezes com a falta de uma TV em casa. Porém, acho que isso nem sempre foi verdade. Creio que eu escutava rádio mesmo tendo uma TV na sala. A mania de escutar certos programas de rádio eu sei que aprendi com meu pai. Claro que transmissões de futebol não eram comigo. Afinal, o que diabos aqueles locutores estavam falando?! Os jogadores nem se moviam tão rápido quando a língua daquele pessoal.

Não, isso não era para mim. Nunca gostei de futebol (com excessão da Copa do Mundo, como a de 1978, por exemplo). O que herdei de meu pai foi o programa A Turma da Maré Mansa. Era uma espécie de A Praça É Nossa no rádio, só que engraçada. O nome vinha do patrocinador oficial do programa, a loja de roupas (onde, aliás, meu pai sempre comprava suas roupas em várias prestações) A Impecável Maré Mansa.

Mesmo assistindo aos Trapalhões - que na época eram engraçados, e não esse arremedo de humor chamado Turma do Didi - eu ainda me fascinava pelo humor ágil do programa de rádio. Devido ao tempo decorrido e à minha péssima memória, é difícil relembrar os quadros, mas sei que em sua maioria, eram todos bem engraçados. Um que me lembro bem, era chamado "De Barroso a Burroso", onde um ator representava um personagem muito burro. Muitos dos atores, eram os mesmo que atuavam - ou viriam a atuar - em programas de humor da TV.

Por incrível que seja, quando fiquei adulto, ainda andei comprando umas roupas na tal loja que dava nome ao programa. Era como se isso fizesse parte de algum ciclo estranho que começou com meu pai.

Outro ícone do rádio que fez parte da minha vida - e da de muita gente, com certeza - foi a Rádio Relógio. Queria acertar o relógio corretamente e escutar curiosidades? Era só levar o dial até a Rádio Relógio e escutar algo como "14 horas... 28 minutos... zero segundo... tu... tu... tu... você sabia que... o Orangotango da Malásia é originário da África?" Ou algo assim.

Os sessenta segundos até o próximo minuto a ser dito, eram preenchidos por essas curiosidades, como uma distração para que a pessoa não ficasse de saco cheio enquanto esperava saber a hora exata. Vou te dizer, aprendi muita coisa ali, que infelizmente, esqueci todas.

Mas, claro que no rádio, assim como em tudo na vida, as coisas não eram flores, e tínhamos - e temos até hoje - a famigerada Hora do Brasil todo dia às 19:00, quando toca aquele hino e o rádio fica(va) uma hora sem poder ser ouvido, pois só vinha besteirada política e notícias chatas. Mas, nada que não fosse curado às 21:00 hrs, quando começava A Turma da Maré Mansa.

Mesmo o rádio estando acessível via Internet, eu não escuto, como gostava de escutar quando criança. É interessante ver como a tecnologia não consegue exterminar com algumas coisas, como alguns pensam que vai acontecer sempre que esta surge. Minha mãe ainda ouve, religiosamente, ao meio-dia à Patrulha da Cidade, um programa onde as notícias (geralmente sobre crime e violência) são encenadas de forma hilária. E, em lugares remotos, onde a TV ainda é um luxo e a Internet é um mito, as pessoas ainda dependem do rádio para se distrair e saber das notícias.

Ainda falando sobre a Internet, é engraçado ver como os podcasts são como programas de rádios feitos por amadores e pessoas que entendem um pouco de edição de som. É a tecnologia reciclando velhas idéias em novos formatos. E assim tudo acaba se transformando e retornando. Só os dinossauros não retornam.

Bom, crianças, esta foi mais uma história do Vovô Eudes e a Fantástica Fábrica de Delíros da Memória. Até a próxima e se escanear não beba, e se beber tome um Engov.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

JJ: Luz, Câmera, Ação!


JERUSALEM JONES - LUZ, CÂMERA, AÇÃO! Uma Aventura na Velhice do Anti-Herói

- CORTAAA!!!... MAS QUE INFERNO! Sr. Jones, quando eu digo "Ação!" é para que todo mundo fique quieto e, especialmente, para que ninguém passe em frente às câmeras!
- Hã, me desculpe, mas esse era o único caminho para o banheiro e eu precisava dar uma mijada. Sabe como é, a idade...
- Eu... entendo... Sr... Jones. Agora, se me permite...
-Oh, claro, claro!
- Em suas marcas! AÇÃAAOOOOO!!!

O ator que me interpretava nessa coisa chamada filme, deu um soco que passou a três metros de distância do cara que seria o Devil John. Mas, ainda assim, o cara voou outros três metros caindo sobre uma mesa que devia ser feito de papel ou algo assim.

- É... Sr. Caufield... não aconteceu assim.
- Perdão, Sr. Jones. O Sr. está interrompendo novamente?
- Não aconteceu assim. Não foi isso que eu contei ao Sr. Dillon.
- Já ouviu falar em licença poética, Sr. Jones?
- Não, é algo que se tira na Prefeitura? - Caulfield estava ficando roxo.
- Sr. Jones, o Sr. vendeu os direitos sobre a história que contou ao Dillon e este, por sua vez, adaptou para que pudesse ficar bem na tela. Não importa se o que está lá é verdade ou não, nós é que fazemos com que seja.
- Sr. Caufield - um assistente entrou e interrompeu Caufield - o Sr. Dillon, ele... ele...
- Ele o quê, homem de Deus. Desembucha logo!
- Ele acabou de se enforcar em seu escritório.
- O qu... O QUÊ?!! Aquele desgraçado nem terminou o roteiro! Por que diabos ele resolveu se matar logo hoje?! O que está acontecendo aqui?
- Eu acho - comecei a falar - que o Devil John não está gostando do modo em que a história está sendo contada.
- Como assim, Sr. Jones. Esse idiota não morreu, segundo o Sr. mesmo disse?
- Era isso que eu estava tentando dizer. Não aconteceu assim como vocês estão contando. Acho melhor eu contar...

Devil John era o apelido de um quase-amigo meu, chamado John Dereck. Ele e eu vivemos algumas aventuras juntos mas isso nunca foi garantia de que ele fosse confiável. John se envolvia com as coisas mais estranhas que se pode ter notícia e, muitas vezes, sobrava para quem estivesse perto dele.

Certa vez ele desapareceu por um tempo e depois voltou dizendo que tinha ido até à África, onde passou um bom tempo entre algumas tribos e, claro, não foi fazendo amizade. John voltou com muita coisa estranha em sua sacola, coisas que acho que ele saqueou pelos lugares que passou. Tenho certeza na verdade. Trouxe coisas que pareciam amuletos, mas que eram pra lá de medonhos.

John também voltou mudado. Não sabia dizer se era pra pior, pois ele já não era flor que se cheirasse. Estava apenas... mudado. Parecia mais ambicioso, só que não me parecia ser por dinheiro, era outra coisa, algo que eu não sabia o que era, mas que iria descobrir logo, logo.

John ficou em meu quarto aquela noite e, quando acordei no meio da madrugada, me dei conta de que ele não estava no quarto. Sem me preocupar muito, voltei a dormir. Quando acordei no dia seguinte, John estava em sua cama, dormindo profundamente, segurando um dos amuletos que trouxe com ele.

Quando saí pela cidade, uma notícia me chamou a atenção: o pastor da igreja local havia se matado, com uma tesoura enfiada no pescoço. Porém, não sem antes matar três de suas fiéis. Aquilo me incomodou de verdade.

Nas noites seguintes, aconteceu a mesma coisa: John sumia de madrugada e no dia seguinte, notícias de mortes violentas e suicídios. Também havia começado uma onda de possessões demoníacas por toda a cidade, atingindo homens, mulheres e crianças. A cidade parecia estar sofrendo de alguma espécie de maldição. E, no meio de tudo isso, John estava cada vez mais feliz e saudável. Sem se preocupar com nada do que acontecia.

Eu já pensava em abandonar a cidade, pois não tinha muito o que fazer ali mesmo. Eles precisavam de um Vaticano inteiro para resolver seu problema, e eu nem pra coroinha servi. Ia partir no dia seguinte, e foi quando tudo desceu por água abaixo.

Mesmo com um certo pressentimento, eu procurava não pensar que John tivesse algo a ver com aquilo tudo, até que, quando eu estava acordando, eu o ouvi falar dormindo.

- O coletor... o coletor está cumprindo o seu trabalho. O coletor tem muito trabalho a fazer na cidade... e depois na próxima e na próxima e...

Talvez ele tivesse arranjado algum bico trabalhando com impostos, sei lá. Mas eu sabia, dentro de mim, que não era. Ele se agarrava a um dos amuletos que trouxe, um dos que ele parecia ter mais apego. Quando olhei mais de perto, suas mãos apertavam tanto o troço que estavam sangrando. Um grito me tirou dos meus pensamentos, e depois mais outro e mais outro. A cidade inteira estava possuída. E uma matança terrível estava acontecendo lá fora.

Eu sabia - mesmo não querendo admitir - que o John era o responsável por aquilo tudo e que só acabando com a vida dele é que aquilo teria um fim. Só que o cara nunca tinha feito nada contra mim e, mesmo agora, ele não tinha tentando nada contra a minha pessoa. Foi quando ele grunhiu mais algo no seu sono.

- O coletor vai levar o coração do Jones como uma dádiva especial, Mestre.

Bom, aí a coisa muda de figura. Eu saquei do revólver e mirei na cabeça dele, com a certeza de que estava fazendo a coisa certa. Quando eu atirei, John se moveu tão rápido que parecia um relâmpago. Me acertou um soco bem no meio da cara, me fazendo voar e cair na mesa que havia no quarto - por isso eu estava dizendo que não tinha sido daquele jeito. Só que pra fazer isso ele largou o amuleto na cama.

Quando ele veio na minha direção, tentei me desviar, mas não consegui e levei mais socos e pontapés. Ele estava mais forte que o normal. Só que dessa vez eu caí perto do revólver. Eu o apanhei e...

- Pode atirar, Jones. Nada mais pode me ferir, nada. Eu tenho de fazer o que eu tenho de fazer. Atire, Jones. O que tá fazendo?
- Não é em você que quero atirar.

Mirei na direção da cama e atirei. Acertei o amuleto de pedra em cheio. Aquilo o assustou bastante e ele ficou como que paralisado. Procurando pelo quarto achei os outros e atirei em cada um. A cada um que eu destruía, John soltava gritos horríveis. E minguava. Um homem grande e forte parecia estar murchando. Quando terminei, John estava como morto, exalando um cheiro horrível.

A cidade voltou ao normal. Ou pelo menos o que sobrou dela. Enterraram seus mortos e eu enterrei John, que ganhou ali e nas redondezas o carinhoso apelido de Devil John.

Tempos depois me contaram uma história idiota de que ele teria saído do túmulo e andava a minha procura. Só que, por todos esses anos, eu nunca o encontrei.

- Certo, certo, Sr. Jones. O Dillon escreveu algo um tanto quanto mais crível para o nosso filme. Espero que o Sr. já tenha tomado seus remédios, pois me parece que está precisando. O que aconteceu com o Dillon não foi surpresa, Sr. Jones. Ele andava bebendo muito, cheio de dívidas, e sua mulher o trocou por... bem, por uma outra mulher. O máximo que podemos fazer, é terminar nosso filme em homenagem ao coitado. Assim sendo, vamos continuar as filmagens. Pessoal, vamos terminar essa cena por hoje. Em suas marcas... AÇÃO!!!

- JE - RU - SA - LEM JOOOOONES!!!!!! - Devil John irrompeu no estúdio, gritando, babando, cheio de ódio. Ele parecia estar do mesmo jeito que o vi pela última vez. Quer dizer, que o enterrei pela última vez. O único detalhe era sua pele esverdeada e as veias saltando e o colar de amuletos em volta de seu pescoço.
- EU - VOU - TE - MATAAAAARRRR!!!!

Quando o brutamontes ia avançar pra cima de mim, eu só pude me abaixar quando escutei uma saraivada de tiros passar por cima de minha cabeça e acertar Devil John, estourar seus amuletos que restavam e acabar com aquele troglodita dos infernos.

- EU JÁ DISSEEEEE!!!! NÃO É... PARA... PASSAR... EM... FRENTE.. ÀS... CÂMERAAAASSSSSS!!!! SEU DESGRAÇADO.

Não era à toa que o chamavam de diretor, o homem sabia em que direção atirar. Depois disso, eu procurei não interromper mais o Sr. Caufield até que ele terminasse o seu filme e a versão dele da minha história.

FIM


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