segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

JJ: Luz, Câmera, Ação!


JERUSALEM JONES - LUZ, CÂMERA, AÇÃO! Uma Aventura na Velhice do Anti-Herói

- CORTAAA!!!... MAS QUE INFERNO! Sr. Jones, quando eu digo "Ação!" é para que todo mundo fique quieto e, especialmente, para que ninguém passe em frente às câmeras!
- Hã, me desculpe, mas esse era o único caminho para o banheiro e eu precisava dar uma mijada. Sabe como é, a idade...
- Eu... entendo... Sr... Jones. Agora, se me permite...
-Oh, claro, claro!
- Em suas marcas! AÇÃAAOOOOO!!!

O ator que me interpretava nessa coisa chamada filme, deu um soco que passou a três metros de distância do cara que seria o Devil John. Mas, ainda assim, o cara voou outros três metros caindo sobre uma mesa que devia ser feito de papel ou algo assim.

- É... Sr. Caufield... não aconteceu assim.
- Perdão, Sr. Jones. O Sr. está interrompendo novamente?
- Não aconteceu assim. Não foi isso que eu contei ao Sr. Dillon.
- Já ouviu falar em licença poética, Sr. Jones?
- Não, é algo que se tira na Prefeitura? - Caulfield estava ficando roxo.
- Sr. Jones, o Sr. vendeu os direitos sobre a história que contou ao Dillon e este, por sua vez, adaptou para que pudesse ficar bem na tela. Não importa se o que está lá é verdade ou não, nós é que fazemos com que seja.
- Sr. Caufield - um assistente entrou e interrompeu Caufield - o Sr. Dillon, ele... ele...
- Ele o quê, homem de Deus. Desembucha logo!
- Ele acabou de se enforcar em seu escritório.
- O qu... O QUÊ?!! Aquele desgraçado nem terminou o roteiro! Por que diabos ele resolveu se matar logo hoje?! O que está acontecendo aqui?
- Eu acho - comecei a falar - que o Devil John não está gostando do modo em que a história está sendo contada.
- Como assim, Sr. Jones. Esse idiota não morreu, segundo o Sr. mesmo disse?
- Era isso que eu estava tentando dizer. Não aconteceu assim como vocês estão contando. Acho melhor eu contar...

Devil John era o apelido de um quase-amigo meu, chamado John Dereck. Ele e eu vivemos algumas aventuras juntos mas isso nunca foi garantia de que ele fosse confiável. John se envolvia com as coisas mais estranhas que se pode ter notícia e, muitas vezes, sobrava para quem estivesse perto dele.

Certa vez ele desapareceu por um tempo e depois voltou dizendo que tinha ido até à África, onde passou um bom tempo entre algumas tribos e, claro, não foi fazendo amizade. John voltou com muita coisa estranha em sua sacola, coisas que acho que ele saqueou pelos lugares que passou. Tenho certeza na verdade. Trouxe coisas que pareciam amuletos, mas que eram pra lá de medonhos.

John também voltou mudado. Não sabia dizer se era pra pior, pois ele já não era flor que se cheirasse. Estava apenas... mudado. Parecia mais ambicioso, só que não me parecia ser por dinheiro, era outra coisa, algo que eu não sabia o que era, mas que iria descobrir logo, logo.

John ficou em meu quarto aquela noite e, quando acordei no meio da madrugada, me dei conta de que ele não estava no quarto. Sem me preocupar muito, voltei a dormir. Quando acordei no dia seguinte, John estava em sua cama, dormindo profundamente, segurando um dos amuletos que trouxe com ele.

Quando saí pela cidade, uma notícia me chamou a atenção: o pastor da igreja local havia se matado, com uma tesoura enfiada no pescoço. Porém, não sem antes matar três de suas fiéis. Aquilo me incomodou de verdade.

Nas noites seguintes, aconteceu a mesma coisa: John sumia de madrugada e no dia seguinte, notícias de mortes violentas e suicídios. Também havia começado uma onda de possessões demoníacas por toda a cidade, atingindo homens, mulheres e crianças. A cidade parecia estar sofrendo de alguma espécie de maldição. E, no meio de tudo isso, John estava cada vez mais feliz e saudável. Sem se preocupar com nada do que acontecia.

Eu já pensava em abandonar a cidade, pois não tinha muito o que fazer ali mesmo. Eles precisavam de um Vaticano inteiro para resolver seu problema, e eu nem pra coroinha servi. Ia partir no dia seguinte, e foi quando tudo desceu por água abaixo.

Mesmo com um certo pressentimento, eu procurava não pensar que John tivesse algo a ver com aquilo tudo, até que, quando eu estava acordando, eu o ouvi falar dormindo.

- O coletor... o coletor está cumprindo o seu trabalho. O coletor tem muito trabalho a fazer na cidade... e depois na próxima e na próxima e...

Talvez ele tivesse arranjado algum bico trabalhando com impostos, sei lá. Mas eu sabia, dentro de mim, que não era. Ele se agarrava a um dos amuletos que trouxe, um dos que ele parecia ter mais apego. Quando olhei mais de perto, suas mãos apertavam tanto o troço que estavam sangrando. Um grito me tirou dos meus pensamentos, e depois mais outro e mais outro. A cidade inteira estava possuída. E uma matança terrível estava acontecendo lá fora.

Eu sabia - mesmo não querendo admitir - que o John era o responsável por aquilo tudo e que só acabando com a vida dele é que aquilo teria um fim. Só que o cara nunca tinha feito nada contra mim e, mesmo agora, ele não tinha tentando nada contra a minha pessoa. Foi quando ele grunhiu mais algo no seu sono.

- O coletor vai levar o coração do Jones como uma dádiva especial, Mestre.

Bom, aí a coisa muda de figura. Eu saquei do revólver e mirei na cabeça dele, com a certeza de que estava fazendo a coisa certa. Quando eu atirei, John se moveu tão rápido que parecia um relâmpago. Me acertou um soco bem no meio da cara, me fazendo voar e cair na mesa que havia no quarto - por isso eu estava dizendo que não tinha sido daquele jeito. Só que pra fazer isso ele largou o amuleto na cama.

Quando ele veio na minha direção, tentei me desviar, mas não consegui e levei mais socos e pontapés. Ele estava mais forte que o normal. Só que dessa vez eu caí perto do revólver. Eu o apanhei e...

- Pode atirar, Jones. Nada mais pode me ferir, nada. Eu tenho de fazer o que eu tenho de fazer. Atire, Jones. O que tá fazendo?
- Não é em você que quero atirar.

Mirei na direção da cama e atirei. Acertei o amuleto de pedra em cheio. Aquilo o assustou bastante e ele ficou como que paralisado. Procurando pelo quarto achei os outros e atirei em cada um. A cada um que eu destruía, John soltava gritos horríveis. E minguava. Um homem grande e forte parecia estar murchando. Quando terminei, John estava como morto, exalando um cheiro horrível.

A cidade voltou ao normal. Ou pelo menos o que sobrou dela. Enterraram seus mortos e eu enterrei John, que ganhou ali e nas redondezas o carinhoso apelido de Devil John.

Tempos depois me contaram uma história idiota de que ele teria saído do túmulo e andava a minha procura. Só que, por todos esses anos, eu nunca o encontrei.

- Certo, certo, Sr. Jones. O Dillon escreveu algo um tanto quanto mais crível para o nosso filme. Espero que o Sr. já tenha tomado seus remédios, pois me parece que está precisando. O que aconteceu com o Dillon não foi surpresa, Sr. Jones. Ele andava bebendo muito, cheio de dívidas, e sua mulher o trocou por... bem, por uma outra mulher. O máximo que podemos fazer, é terminar nosso filme em homenagem ao coitado. Assim sendo, vamos continuar as filmagens. Pessoal, vamos terminar essa cena por hoje. Em suas marcas... AÇÃO!!!

- JE - RU - SA - LEM JOOOOONES!!!!!! - Devil John irrompeu no estúdio, gritando, babando, cheio de ódio. Ele parecia estar do mesmo jeito que o vi pela última vez. Quer dizer, que o enterrei pela última vez. O único detalhe era sua pele esverdeada e as veias saltando e o colar de amuletos em volta de seu pescoço.
- EU - VOU - TE - MATAAAAARRRR!!!!

Quando o brutamontes ia avançar pra cima de mim, eu só pude me abaixar quando escutei uma saraivada de tiros passar por cima de minha cabeça e acertar Devil John, estourar seus amuletos que restavam e acabar com aquele troglodita dos infernos.

- EU JÁ DISSEEEEE!!!! NÃO É... PARA... PASSAR... EM... FRENTE.. ÀS... CÂMERAAAASSSSSS!!!! SEU DESGRAÇADO.

Não era à toa que o chamavam de diretor, o homem sabia em que direção atirar. Depois disso, eu procurei não interromper mais o Sr. Caufield até que ele terminasse o seu filme e a versão dele da minha história.

FIM


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