segunda-feira, 3 de março de 2008

O Cardume de Essex


O CARDUME DE ESSEX

Algum lugar de Nova Londres, hoje:

Escapamos dos Laboratórios Essex Inovations. Restaram apenas 12 de nós dos 45 que conseguiram sair de lá. Não conseguimos nos separar, corremos como peixes em um cardume. Parece que nos tornamos dependentes uns dos outros, apesar de não nos conhecermos. Eu, além disso, arrasto comigo alguém que penso ser meu irmão. Salvei-o algumas vezes durante a fuga, mesmo colocando em risco minha própria vida. Não o conheço, mas sinto essa ligação fraternal que me impede de deixá-lo para trás.

Como cardume que somos, pulamos cercas, atravessamos casas, conseguimos alguma comida, e continuamos a fugir, sem ter a mínima idéia para onde ir, mesmo sentindo que há um lugar para se chegar. Assim como eu, todos os outros parecem não ter mais recordações. Somos todos amnésicos. O mais estranho é que sei disso mesmo sem conversarmos. Fugimos em silêncio. Não fizemos planos. Foi como se cada um de nós soubesse o que o outro pensava.

Não sobrou viva alma no laboratório. Matamos todos. Sem piedade. A mesma falta de piedade que tiveram conosco em suas experiências. Os 33 não foram mortos por ninguém de lá. Alguns foram atropelados, outros tiveram reações adversas assim que saíram, morrendo em seguida, e ainda outros simplesmente evaporaram. Gritos de terror foi a única recordação que deixaram. Eu garanto, nunca vou esquecê-los, os gritos.

A polícia nos perseguiu por um tempo, mas logo conseguimos despistá-los. Os que sobreviveram, claro. Estou imerso nessas recordações que ganho a cada minuto que passa, quando uma das garotas é alvejada por um morador. Ela morre agonizando e seu corpo se eletrifica e derrete. Não é nada bonito de se ver. Meu pequeno irmão olha para aquilo sem nenhuma emoção. O morador é estripado por um dos 11 que sobraram.

Continuamos correndo, o cardume de humanos, ou de algo que um dia foram humanos. Atravessamos uma casa, derrubando a porta. Pegamos alguma comida. Por sorte dos moradores, eles não estão em casa. O mesmo que matou o atirador, porém, se diverte matando o cão, no quintal. Ele nos atrasa.

Por alguma razão eu não entendo porque não há helicópteros nos perseguindo. Não sei como estou ciente disso, já que minhas memórias parecem ter sido apagadas. Talvez não sejamos tão importante para as pessoas comuns. Apenas para os nossos algozes do Essex Inovations.

Meu irmãozinho se machuca ao pular uma das cercas, mas não esboça nenhuma reação. Com a pressa que estamos, não posso parar para cuidar de seu ferimento, e como ele parece não se importar, deixo para cuidar disso quando chegarmos, seja lá onde for.

Um dos 11, do nada, começa a evaporar. Seu grito é inumano. Porém, isso é redundante. Ele é inumano. Corremos mais rápido ainda. Restam apenas 10 de nós 6 rapazes e 4 garotas. A maioria não se abala com os que ficam para trás. Meu irmãozinho menos ainda.

Estamos correndo por uma área sem casas, e atravessamos um pequeno bosque. Talvez seja um parque. Mas, logo encontramos um muro alto, que precisamos pular. Meio que instintivamente, uns ajudam os outros, e todos conseguimos. Do outro lado, porém, ao corrermos sobre a grama que fica em volta de um pequeno prédio de três andares, explosões terminam com a vida de mais 4 do grupo. É um gramado minado. Que louco deve morar em um prédio cercado por minas?

Um de nós ainda pisa em uma das minas, é jogado longe pela explosão, mas levanta e continua correndo. Eu e meu irmãozinho não pisamos em nenhuma. Chegamos ao muro do outro lado e os 6 de nós que sobraram, novamente se ajudam e novamente pulamos. O silêncio chega a ser irritante.

Quando chegamos ao outro lado, o espaço em volta é totalmente desprovido de casas, árvores ou prédios. Parece uma grande pista de corrida. Mesmo sabendo que aquilo é muito estranho, eu não consigo voltar. Afinal, voltar para onde? Preciso ir em frente como os outros 4 já o fizeram. Olho para meu irmãozinho e ele não esboça nenhuma sugestão. Seus olhos são desprovidos de qualquer emoção.

Então, começo a correr, e é nesse instante que me dou conta de algo: eu não estou cansado. Ninguém parece estar. Corremos há tantas horas que perdi as contas. Mesmo assim não sinto um pingo de cansaço. No meio daquela grande pista de corrida, um do rapazes é atingido por algo como um relâmpago. Em chamas ele ainda continua por um bom tempo, para ir parando, caindo de joelhos e, por fim, batendo no chão, com um baque surdo, e o corpo totalmente queimado.

Obviamente coisas estranhas esperam os 5 de nós que restam. E não demora a acontecer. Eu quase sou atingido por farpas que vêem de lugar algum. Os outros são atingidos, cambaleiam, mas continuam. As farpas parecem conter alguma coisa. Eles se ajudam, arrancando-as uns dos outros. Mais explosões, relâmpagos, gás pelo meio do caminho, metralhadoras que aparecem dos lados do caminho, luzes estroboscópicas cegantes e em seguida fogo vindo do céu. Escapamos a tudo, os 5.

Talvez isso aqui seja o inferno, e sejamos os maiores pecadores de todos os tempos. É a única coisa que consigo pensar.

Tudo aquilo consegue nos cansar, finalmente. Caímos exaustos e machucados. Meu irmãozinho tem tantos ferimentos que era pra estar morto. Mas não está. Eu estou quase do mesmo jeito e os outros estão em pior situação, mas vivos. Além do cansaço, sinto uma outra coisa. Uma sensação de término, do fim de alguma coisa. Como se tivéssemos chegado. Mas onde? A pista de corrida terminou e apenas uma parede branca se encontra a nossa frente. Não há como pular ela, e eu nem mesmo quero tentar.

É quando uma porta se abre na parede branca e um grupo de pessoas a atravessa. São... são os cientistas que matamos, dos Laboratórios Essex Inovations. Uma voz em um alto-falante anuncia:

- Testes de clone-andróides concluído: simulação de fuga 9,8; fuga em campo aberto 7,1 (intervenção inadequada da polícia local influiu na pontuação); campo minado 6,5; pista de combate 8,9. Simulaçao de preocupação e zelo, do clone andróide 16 para com o clone-andróide 16b 9,9.

Estes dois últimos serão estudados para aperfeiçoamento de Inteligência Artificial ao nível 8.

Clone-andróides restantes são os aprovados para produção em massa para usos variados.

Ouço aplausos. Mas não são para nós. Estão se cumprimentando entre si. Na minha mente, penso que esta situação seria uma em que eu deveria começar a chorar, mas não consigo, e sei o porquê agora.

Olho para o que deveria ser meu irmãozinho e seus olhos mortos não me fazem sentir remorso do que vou fazer. Quando os seguranças do laboratório vêm nos desligar é tarde demais. Eu torço os pescoço do garoto e o "mato" . Alguém grita:

- NÃO ATIREM, RETARDADOS! NÃO NESTE! AINDA PODEMOS USÁ-LO!

Um dos seguranças, talvez um viciado em ação, não escuta, ou não entende a ordem, ou talvez as duas coisas, e atira bem na minha cabeça, como eu esperava.

Caio estrebuchando, mas ainda funcionando por alguns segundos. Vejo alguém que está de terno, e não de jaleco, correr e empurrar o segurança que atirou. Vejo seu rosto, e é como olhar um espelho. Então entendo o que significa o termo "clone-andróide", e apago.

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