domingo, 13 de julho de 2008

Adeus Também Foi Feito


ADEUS TAMBÉM FOI FEITO PRA SE DIZER
Goodbye, So Long, Farewell, Tina Oiticica Harris Rouquette





Tina gostava bastante do Nirvana

"Você é mais alto do que eu pensava", foi a primeira coisa que Tina me disse, quando nos encontramos pela primeira vez que não fosse pela Internet ou pelo telefone.

Certo dia, entre os comentários que aparecem por aqui, havia um de alguém que se chamava Tina, juntamente com o endereço de seu blog, o Universo Anárquico. Ao responder seu comentário em seu próprio blog, deu-se início a uma amizade que, para os padrões da Internet pode parecer ter sido longa mas, que para a vida real, foi curta demais.

Nunca pensei que um simples agradecimento a um comentário poderia gerar uma amizade tão marcante. Além de tudo, acompanhada de alguma coincidências. Tina era da família Oiticica, família essa conhecida pelos familiares de minha esposa. Isso fez com que a amizade dela se estendesse a todos aqui de casa.

Tina se tornou uma presença constante em nossa vida. Telefonemas internacionais duravam de duas a três horas e ela teria fôlego para mais se eu deixasse. Gostava de falar da blogsfera como ninguém. Também se envolvia tanto que arrebanhava tantos desafetos quanto possível. Não tinha papas na língua. Eu vivia apenas pedindo que ela não desse tanta confiança a pessoas assim. Alguns conselhos ela seguia, outros não.

Talvez devido já a sua saúde ela gostasse tanto de se envolver no mundo blogueiro, vendo sua atividade no blog como um trabalho que ela tinha de levar a sério... e levava, mesmo escrevendo do seu jeito sempre despachado, ainda que bem culto.

Discordávamos de quase tudo: gostos, política, futebol, religião, música, de como não levar a internet e as pessoas nela não tão a sério e, ainda assim, éramos amigos. Amigos que como todo amigo de verdade, acabam brigando e se reconciliando, como aconteceu algumas vezes.

Como gostava bem mais da blogosfera que eu, ela comentava bem mais que eu aqui no RA, do que eu em seu blog. Com o tempo os telefonemas diminuíram de duração, mas não acabaram. Ela sempre tinha alguma novidade pra contar ou apenas relembrar coisas antigas. Sempre metida em uma nova confusão.

Através de nosso contato constante conheci seu marido, Nicholas, e seu filho, Gabriel. E não apenas por aqui, mas junto com ela, quando os três vieram ao Brasil e ela soltou a frase do início do texto. Por ocasião dessa visita almoçamos juntos, tanto eu e ela, como seu marido, filho, minha esposa e a tia dela. Nossas duas famílias. Pensando bem, nunca tinha acontecido nada parecido antes com uma amizade feita na Internet.

Tina não apenas morava nos Estados Unidos, ela era praticamente uma brasileira que não nasceu aqui, mas lá. Filha de uma brasileira com um estadunidense, viveu aqui no RJ tanto tempo, na capital, que falava com o mesmo gingado dos cariocas e, mesmo vivendo nos Estados Unidos tanto tempo, conseguia falar o português sem sotaque. Era botafoguense de coração, por coincidência, o bairro que moro.

Não nos falávamos tanto nos últimos tempos, talvez por seus problemas de saúde estarem aumentando cada dia mais, com internações e cirurgias constantes.

Nicholas, seu marido, deu a notícia de seu falecimento, escrevendo do mesmo modo que ele costuma falar, misturando português e inglês, mas deixando bem claro que o amor de sua vida partiu. E isso fica evidente em qualquer língua.

Ela sempre dizia que seu blog ficou mais em evidência depois que eu o destaquei aqui no RA. Gostava do banner simples, que fiz pra ela, que eu mesmo não me conformava de ter ficado tão simples. Mas, Tina se destacava por seus próprios méritos, tinha seu próprio público, que já a entendia. Era o tipo de pessoa que sabia ser marcante, que tinha uma personalidade forte e que dizia o que pensava.

Suas últimas palavras aqui no blog foram:

Gostei muito da sua entrevista. Vim aqui no puro palpite, Eudes. Como você mesmo disse, esta entrevista só poderia ser perfeita com suas perguntas escolhidas a dedo. Mande abraços e beijos para a Lia e a tia. Um beijão pra você, Honorato! Ah, o Sedentário e Hiperativo tem um link para o curtíssimo que precede o Wall-E.

Vou sentir falta dela.

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