quarta-feira, 27 de agosto de 2008

KA-CHUNK


VOCÊS ESTÃO ESCUTANDO ISSO?
Quem Tem Medo da Bomba D'Água do Mal?


Numa época em que não existia Internet nem TV a cabo (e mesmo se existisse, não poderíamos pagar) eu e meus irmãos - mais especificamente, um irmão e duas irmãs - tínhamos de ficar muitas vezes sozinhos em casa, esperando nossa mãe chegar do trabalho. Claro que isso não teria problema se, para crianças, a noite não fosse assustadora já lá pelas 19:00 hrs.

Também, nessa mesma época, tínhamos uma bomba de puxar água que não é como as de hoje, pequenas e que cabem em qualquer buraco estreito cavado no chão. Era algo que parecia saído dos porões de um Titanic do Inferno. Verde abacate, com uma roda maior e outra menor coligadas por uma tira de borracha, ou sei lá que material era aquele. Ela ficava no muro da varanda próxima ao poço e, para ligá-la, tínhamos (na verdade EU tinha, já que ninguém mais queria) de subir no muro e apertar uma chave no teto da varanda. Tudo bem, se fosse como qualquer interruptor de hoje, mas nãaaaooo. Era uma chave que tinha de ser empurrada para dentro de encaixes que causavam pequenas faíscas, ligando assim a máquina-monstro.

O medo de que minha mão escorregasse e acertasse os encaixes elétricos me faziam ter a maior atenção do mundo, já que eu poderia ser jogado para trás e para baixo levando uma descarga de sei-lá-quantos-milhões de volts. Aliás, lembro hoje que todo serviço sujo ou perigoso sobrava para mim e, nossa, como tinham serviços sujos.

Eu detestatava aquela máquina de bombear água e acho que ela não nutria muita simpatia por mim. Com sua cor verde abacate (eu já disse isso, né?), imponente em cima do muro, parecia dona de toda a casa. E quando era ligada, ninguém mais podia ser ouvido pois ela era a única que "falava" em seu "idioma" do mal:

KA-CHUNK... KA-CHUNK... KA-CHUNK!!!

Mas, nos dávamos bem. Eu a ligava, fazendo-a funcionar e "esticar" um pouco as pernas de vez em quando, para que não enferrujasse ali, esquecida e ela nos dava água e não me matava eletrificado. Era algo justo, apesar de, mesmo assim, eu ainda nutrir um certo receio quanto a ela. Mas, nada que não pudesse ser levado diplomaticamente. Pelo menos eu pensava que sim.

Voltando ao assunto de ficarmos sozinhos, era um mal necessário. Depois que meu pai nos deixou, minha mãe tinha de trabalhar e não tinha com quem nos deixar, na maioria das vezes. Assim, era eu mesmo que tinha de engolir meu próprio medo de que pudesse acontecer algo a ela e ela não aparecesse e então acalmar os outros caso ela demorasse. O que sempre parecia ser o caso, já que, na verdade, não tínhamos noção de tempo.

Mas não estávamos sós por completo. Podíamos sair para brincar com os filhos dos vizinhos e assim nos distrair. Paulinho e André sendo os que mais me recordo. Eram da nossa idade ou mais novos até. Tínhamos aquela relação de amor e ódio que parece, na maioria das vezes, permear a relação entre vizinhos. Isso se estendia à mãe deles, e acho que era um pouco devido à eterna amizade/inimizade existente entre nossas mães. Mas estou divagando.

O caso é que eu não queria, obviamente, ficar em casa - mesmo que com meus irmãos - sozinho, em companhia da bomba d'água do mal. Como ela já havia feito seu trabalho, não precisava mais de mim por aquela noite. Assim sendo, fomos até a casa dos vizinhos e, de lá, até a casa de outros vizinhos, Esther, Niel e... Risinho (não me perguntem o porquê do apelido, eu nunca soube, e também nunca soube o nome verdadeiro dele).

A casa desses últimos era do lado esquerdo, sendo que a nossa ficava de costas para a casa deles, tornando impossível ver qualquer coisa que pudesse acontecer lá em nossa casa. Sem contar que já estava escuro. Então estávamos distraídos brincando com o que mais gostávamos de brincar quando escurecia... fogo! É, catar madeira, papel e fazer fogueira. Até o momento em que se encontrava algo de plástico e aí começava realmente a ficar "bom", entre aspas. Minha irmã caçula tem uma cicatriz enorme na mão por conta dessas brincadeiras com fogo e plástico. Ou seja, crianças, não façam isso em casa... nem na rua.

Tudo estava bem, e não estávamos preocupados mais com nada, a não ser com o quente e brilhante fogo, quando alguém disse: "Vocês escutaram isso?". Um silêncio automático se fez, como nunca faríamos se fosse um adulto que dissesse isso. Então eu disse:

- Ei! Tô escutando sim.

Mas eu não sabia o que podia ser. Ou, pelo menos, não podia acreditar que pudesse ser a... Bom, minha mãe quando chegasse, viria diretamente para nós, onde estávamos e nos levaria para casa, ou diria para irmos logo. Não iria direto para casa, então... não podia ser.

- Não... pode...

Eu estava incrédulo. O barulho estava longe, mas parecia muito com... E, estava vindo da direção de nossa casa.

De repente a noite parecia mais escura e o silêncio mais assustador. E o barulho era constante e ritmado, e não parava. Éramos mais ou menos uns 8, se bem me lembro, e como se fôssemos uma espécie de aglomerado, começamos a ir em direção à minha casa. Passo a passo.

O barulho aumentava e eu cada vez mais tinha certeza do que era. Era ELA! Ela estava ligada!!! Mas como?! Quem?

Ninguém mais tinha chegado a essa conclusão ainda, até que chegamos em frente à nossa casa e pudemos ver a bomba d'água funcionando sozinha, lá, no escuro, a todo vapor:

KA-CHUNK... KA-CHUNK... KA-CHUNK!!!

Eu não sei quem foi o primeiro - e, sim, pode ter sido até mesmo eu - mas, de repente, alguém gritou, um grito de horror, e isso contagiou o grupo todo que começou a correr feito louco. Lembro perfeitamente que uma de minhas irmãs caiu e ficou para trás, quase sendo atropelada pelos outros, devido ao caminho estreito. Fomos na direção da casa de Paulinho e André, já que sua mãe estava em casa. Ninguém correu para trás. Instintivamente todos correram para frente, como se ao correr para trás, a máquina pudesse nos perseguir. Corremos como o vento ou mais rápido até.

Não lembro de mais nada depois disso. Minha mente parece ter apagado qualquer coisa após eu ter começado a correr. Mas lembro que nunca descobrimos como a bomba d'água foi ligada. Nunca soubemos quem a ligou ou se alguém a ligou. Também não lembro como eu a desliguei. Já que alguém tinha de desligar e só eu fazia isso.

Uma das vantagens do lugar onde morávamos era que não tínhamos problema com desordeiros Até esquecíamos as portas abertas ao ir dormir, sem problemas. Além de tudo, se fosse alguém com más intenções, porquê ir apenas ligar a bomba e não levar nada, já que tudo estava aberto? Certo, não havia grande coisa que se levar.

Minha mãe acha até hoje que foi a vizinha, para nos assustar. O problema é que assustaria - e assustou - também, os filhos dela. Então não é uma teoria muito boa. Fora o problema de subir no muro e se arriscar no escuro.

Talvez a bomba d'água do mal tenha se sentido abandonada e resolveu ela mesma chamar a atenção. Só sei que, depois disso, ela não durou muito tempo lá em casa. Logo nos livramos dela. Era um trambolho mesm... Droga. Vou ter de sair... estou escutando um barulho estranho vindo da sala. Até mais.

...

...

KA-CHUNK...

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