quarta-feira, 5 de novembro de 2008

As Locadoras


AS MUITAS LOCADORAS QUE FREQUENTEI Quem Nunca Estragou Um Fita Atire a Primeira Multa

A locadora a que me afiliei mais recentemente aqui em Botafogo, fechou as portas. Nenhuma novidade nisso, locadoras são inauguradas e vão à falência desde que o mundo é mundo. Mas, nesse caso em particular, eu fiquei chateado. Gostava da locadora - a Cinéfilo - que, apesar de ser meio "cult", era a única opção fora a Blockbuster. Claro, há a Videosession, mas essa é uma outra história.

Só sei que isso tudo me fez relembrar meu relacionamento com as locadoras. A primeira vez que vi uma, foi bem longe de casa, em Duque de Caxias, e era mais ou menos como estar vendo a garota mais popular da escola, à qual você pode até olhar, mas não tocar. Bom, certo, eu até toquei (na locadora, não na garota mais popular da escola). Fiquei ali, com as mãos pregadas na vitrine que exibiam as variadas fitas de filmes que eu nunca tinha visto. Lembro bem de ver um exemplar de Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu, e de ficar meio que hipnotizado.

Eu só teria meu próprio vídeo-cassete muitos anos depois, assim como locadora em meu próprio bairro.

Com o tempo, as locadoras locais foram pipocando aos poucos, surgindo aqui e ali, assim como também desapareciam de uma hora para outra, já que era e sempre será, um negócio arriscado.

Logo fui me tornando um assíduo frequentador das mesmas, pelos motivos cinematográficos óbvios e, em algumas, porque o lugar praticamente adquiria vida própria com a camaradagem de quem lá trabalhava. Um desses maiores exemplos era o de uma locadora onde conheci a atendende chamada Cristina. Sempre que eu ia lá, o lugar estava infestado de gente... que não alugava nada. Fui percebendo que era o carisma dela que os mantinha ali, dia e noite batendo papo.

Para minha surpresa logo descobri que o marido dela havia trabalhado no mesmo lugar que eu (a famigerada Fábrica de Biscoitos Piraquê), uns poucos anos antes. E, quando ela levou a filhinha dela ao trabalho, logo fiz amizade com ela também. Então, era quase como se eu fosse da família.

O dono da locadora era seu cunhado que, quase não ficava no local, e quando o fazia, a atmosfera ficava mais "pesada", já que ele não conseguia ter a mesma simpatia que ela, agindo sempre com o O Patrão. Mas, era divertido ver sua cruzada a favor dos filmes legendados, em um lugar onde as pessoas preferiam filmes dublados, muito disso devido a pouca instrução ou apenas o fato de que as pessoas queriam ver socos, pontapés e explosões, e não ficar lendo. Como diziam alguns, "se eu quisesse ler, não alugava um filme, pegava um livro".

Ele fazia isso devido ao fato de ter uma locadora na Zona Sul do RJ, onde o público era bem diferente daquele, e ele queria que as duas locadoras funcionassem do mesmo jeito. Óbvio que isso não daria certo. A única ação louvável dele era não aceitar as fitas piratas que certos "vendedores" ofereciam. Mas, isso também agia contra ele, já que as outras locadoras não tinham os mesmos escrúpulos.

Mais adiante, no bairro chamado Lote XV, uma outra locadora fazia concorrência, tendo duas atendentes, mais os dois donos - irmã e irmão - que tentavam se manter como a maior locadora daquela região. E até que conseguiam. Também evitavam fitas piratas e tinha uma organização impecável. Mas, com o tempo, houve uma ruptura entre os dois irmãos, que se diviram também em duas locadoras e, divididos, caíram os dois.

Enquanto isso, na Sala da Justiça... quer dizer, na locadora da Cris, as coisas também não iam muito bem e teve de fechar do mesmo jeito. Provando-se que nossa amizade se tornou algo bem além da locadora, ainda a visitava, passando algum tempo com ela e sua família. Infelizmente me mudei para longe e o contato ficou mais difícil.

Nesse meio tempo, uma locadora foi aberta no coração do meu bairro. Eu conhecia o dono - Nido - de longa data, mas nunca fomos de muito papo. Sem a locadora da Cris, meu novo recanto era por lá. Com ele, trabalhavam sua sobrinha, Giselle, e uma outra menina, a Gleyce.

A primeira eu já conhecia do bairro, desde que ela era criança. Mas, assim como acontecia com o Nido, eu não tinha grande contato. A Gleyce eu só conhecia de vista até então.

Nesta época eu alugava mais filmes do que podia assistir, então estava sempre por lá, e sempre ficávamos conversando por muito tempo. Giselle dizia que, devido a lidar com tantos filmes, e passar a assisti-los mais, um dia faria faculdade de cinema e, acabou fazendo mesmo. Não era apenas conversa.

Diferente da locadora da Cris, além das meninas, a alma do lugar também era o Nido. Brincalhão e piadista, quase nunca se aborrecia e, tratava as garotas não como empregadas, como como família, sendo que a Giselle era mesmo.

Outra diversão ali era ver algumas figuras "diferentes" que alugavam filmes como por exemplo, um cara com o apelido de Stallone. Por quê? Claro, porque alugava única e exclusivamente filmes do... Stallone. Mais nenhum outro.

Bom, a locadora não fechou (pelo menos não que eu saiba), mas eu me casei e me mudei do bairro. Assim, esta também ficou para trás. Vindo morar na Zona Sul do RJ, o estilo de locadora e de filmes para alugar mudou drasticamente.

Além dos lançamentos normais, e filmes de ação e comédia a que estava acostumado na Baixada Fluminense, agora haviam filmes mais "cults", filmes antigos que eu nunca tivera chance de assistir. Também o público era outro. Tanto que recebi dicas de filmes até mesmo de Othon Bastos, o ator. Ou seja, um público bem diferente mesmo.

Também foi aqui que vi o avanço do DVD de uma simples seção em um canto da locadora, para toda ela, em uns poucos anos. Assisti pela primeira vez filmes clássicos como Os Meninos do Brasil (a dica de Othon Bastos), Rastros de Ódio, Asas do Desejo, entre outros. Também perdi o preconceito com filmesde outros países que não fosse os EUA, principalmente filmes iranianos, que assisti e gostei. Ou talvez fosse apenas a falta de opção que me fizesse ter esse "preconceito".

Com a chegada da Blockbuster aqui ao lado, me associei, só que não é uma locadora para quem gosta de variedade. Dando primazia aos lançamentos, quando o filme se torna uns meses mais "velho" é jogado em um canto, sendo colocado em um estojo mais achincalhado, fazendo parecer que o filme é pior do que parece.

Quando a Cinéfilo apareceu, vi logo que era diferente. Os filmes novos e antigos tinham praticamente o mesmo destaque. Não havia uma categoria para "Nacionais", sendo que estes estavam de igual para igual com os outros filmes em Drama, Ação, Comédia e assim por diante. Mas, quando a locadora reduziu o horário, já era um sinal de que as coisas não iam bem. Talvez fosse o excesso de entregadores que tinham, não sei.

Só sei que no último dia 30, ao ir entregar o filme que estava comigo, a loja estava apenas semi-aberta, e escura. O atendente estava bem amuado e pegou a fita, já me explicando que estavam fechando as portas. Estranhamente senti como se fosse a perda de uma pessoa querida. Apesar de eu não ter grande amizade com os atendentes, a locadora em si, era aconchegante.

Por coincidência, o dia estava nublado e um vento frio tornava tudo mais triste. Eu estava à mercê apenas da falta de visão da Blockbuster.

Mais um pouco e eu poderia ver os créditos subindo e escutar a musiquinha que sempre fechava o seriado do Incrível Hulk.

THE END


Um comentário:

Anderson "ANDF" Ferreira disse...

Belo relato. Também tenho boas lembranças das locadoras que frequentei.

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