segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Faça uma Redação


FAÇA UMA REDAÇÃO SOBRE O SEU BAIRROMeu Mundo Dentro de Um Pequeno Mundo

Quando a professora anuncia mais uma redação, começo a tremer feito vara verde. Não sei escrever. Não, não é isso. Eu SEI escrever, mas não GOSTO de escrever. Detesto redação tanto quanto ir ao dentista ou comer os legumes. Fico imaginando se foi Deus quem inventou a redação quando mandou que escrevessem uma sobre como a Terra foi criada e, nem posso com isso, amaldiçoar tal tarefa.

Talvez se perguntem - e eu não sei porquê estou falando assim - como pode ser, já que gosto tanto de ler. Não sei, preguiça, talvez. Ou talvez eu deteste minha letra tanto que não gosto de vê-la tantas vezes em uma única página. Talvez se, como nos filmes sobre o futuro, eu tivesse uma máquina de escrever portátil, com uma tela, na qual eu escreveria a maldita redação, e ela saísse imprimida pela traseira da mesma, seria moleza.

BAM!!! - COMECEM!

Caraca! A professora quase me mata de susto. Acho que ela notou que a classe não está nem um pouco empolgada com o trabalho. Alguns escrevem como se um milhão de pregos estivessem cravados em suas costas. As meninas fazem florzinhas, enfeitando tudo, antes de começar. Nossa, como eu odeio redação! Mas, se eu tivesse aquela máquina de escrever mágica, e "soubesse" escrever, talvez eu começasse assim...


Meu Mundo Dentro de Um Pequeno Mundo:
Uma chuva torrencial e uma escada de barro composta apenas de lama. É a minha lembrança mais antiga do bairro onde eu fui criado, o Parque do Ferreiras. Sim, o nome é devido à família portuguesa que era dona de tudo aquilo ali, há muitos anos atrás. Tanto que a avenida principal de chama José Ferreira e todas as ruas têm nomes que remetem a Portugal. Eu por exemplo, moro na Rua Rio Tejo ou, pelo menos, vou morar até os meus 30 anos de idade.

Moro há tanto tempo ali que o próprio nome do bairro parece estar ligado ao meu nome. Como se fôssemos um só. Apesar de ser um lugar esquecido entre Belford Roxo e Duque de Caxias, é praticamente o lugar onde eu me dei conta da vida, de quem eu sou, e de quem eu me tornaria.

A chuva torrencial e a lama é a lembrança que tenho de nossa mudança para a nova casa, naquele bairro. Antes disso, vivíamos nos mudando, devido a morarmos de aluguel. Agora tínhamos uma casa nossa, de verdade. Minha mãe grávida de minha irmã caçula, já está lá em cima e os homens fazem a mudança. Sou pequeno demais para ajudar. Mas posso sentir que ali será um bom lugar para morar. A chuva parece dizer isso.

O tempo passa e me familiarizo com cada rua, com cada aspecto do lugar, conforme os anos vão passando. Por exemplo, a Barraca do Alcino (de onde vêm esses nomes?), vai estar ali até eu ir embora. Estava lá quando eu cheguei a ainda está bem depois que saí. E com o Alcino nela!

Na entrada do bairro temos a Padaria do Vasco. Que, mesmo estando no nosso bairro, e nomeada como se pertencesse ao bairro em frente - o Vasco. Ainda está lá também, mas não tem o mesmo charme. O Armazém do Seu Joaquim seria mais marcante para mim. Meu primeiro emprego aos... 11 anos! Isso porque insisti com minha mãe que queria trabalhar. Bom, ela deixou.

No meio do bairro, havia a "pracinha", que no inicio era apenas um terreno circular, que de pracinha não tinha nada. Prefeituras que vieram mais tarde, resolveram fazer com que o lugar merecesse o nome de Praça, construindo uma. Uma quadra e um playground fizeram com que o bairro ganhasse um pouco mais de brilho. Antes, porém, naquele lugar pude ter minha primeira e - acho que - única experiência circense. Um circo foi montado ali e, por vários dias, uma certa magia pueril deu o ar da sua graça.

O bairro tinha seus próprios personagens que fui conhecendo conforme fui crescendo: A Bruxa, O Mentiroso Crônico, o DJ, o Louco da "Aldeia", o Tim Maia, o Eterno Candidato a Vereador (que nunca venceu), A Professora, A Desfrutável, Os "Ricos", O Pastor Mal-Humorado, Os Eternos Moleques, e todo tipo de gente que se pode encontrar em muitos lugares.

Porém, uma das coisas que iriam me surpreender ao me lembrar do meu bairro depois de alguns anos após ter saído de lá, era que, apesar de ele estar no centro da famigerada Baixada Fluminense, o Parque dos Ferreiras parecia estar alheio a toda violência veiculada nos jornais. Tínhamos uma mania de dormir sem trancar a porta simplesmente porque não havia necessidade disso. Era comum, normal. Claro que isso foi mudando com o passar do tempo.

Outra coisa que me surpreendia era eu mesmo que, apesar de ser muito caseiro (leia-se "vivia enfurnado dentro de casa"), ainda assim até que andava muito pelas ruas e, na maioria das vezes, me tornava frequentador assíduo de algumas delas, às vezes por ter alguém com quem trocar gibis, às vezes por ter uma paixonite aguda e/ou mediana, no lugar. Em geral acabava fazendo amizade com outras pessoas e, numa dessas ruas, eu e mais uns amigos, "organizamos" uma festa junina amadora, que terminou com lançamento de carvão em brasa à distância.

Olhando bem para o passado (ou seria para o futuro?) eu andei em todas as ruas, fiz amizades, cresci com aquelas pessoas e isso tudo sendo um "menino caseiro". Minha mania de partilhar, já era forte nessa época, e eu levava discos, livros, gibis, para outras pessoas escutarem, lerem e tudo mais. Quando chegou a era do VHS era alugar filmes e ir ver na casa dos amigos.

Vi o asfalto chegar e cobrir as ruas que sofriam com a chuva. Engatinhei por dentro das manilhas colocadas enfileiradas, quando construiam os esgotos, pensando "e se eu ficar preso aqui dentro"? E continuava. Ainda hoje, quando sinto cheiro de asfalto, sou imediatamente transportado para aqueles dias, em que eu acompanhava cada rua, cada etapa de asfaltamento. Piche é difícil de sair.

Quando eu queria ver o meu "mundo" do alto, subia o morro mais alto que ficava logo atrás de onde eu morava. Às vezes sozinho ou com meus irmãos, subia e ficava olhando tudo lá de cima, tão pequeno e tão grande. Em dias de céu muito limpo eu podia ver o Cristo Redentor bem longe, no lugar onde um dia eu iria morar. No lugar que seria meu novo bairro. Era surreal.

Depois que me mudei, minha mãe ainda continuou morando por lá e eu sempre ia visitá-la, até que ela também se mudou. Mas, não sei se por impressão minha, ou se era algo real, o bairro parecia estar se deteriorando e, foi melhor mesmo não ter de ir mais por lá, e ver minhas lembranças serem deterioradas junto. Não parecia mais o lugar onde morei. Assim, como está, ainda posso ter comigo o que ficou de bom de um lugar que me viu crescer.

Ainda posso ouvir o som das muitas festas juninas das quais nunca tive coragem de fazer parte das quadrilhas, por timidez. As risadas nas festas de aniversário nas quais eu me embebedava com dois copos de cerveja. O cheiro da terra molhada sobre o asfalto velho. O barulho da chuva batendo sobre o telhando de alumínio na varanda. As fogueiras, as histórias, os sorrisos, os pique-esconde, salada mista, os tombos de bicicleta, os bolinhos de chuva. Tudo em um único lugar.

Um lugar que se tornou sinônimo de mim.

FIM.

A professora diz que o tempo acabou e sem piscar, levanto e entrego a ela a redação que escrevi. Ela pega, olha e diz:

- Mas aqui não tem nada, menino!!!

- Mas vai ter, 'fessora. Vai ter.


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