segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Nasce Jerusalem Jones


NASCE JERUSALEM JONES
Quando O Anti-Cowboy Volta de Seu Retorno


Porque você tinha que decidir nascer hoje, moleque?! Sim, eu sei que é um moleque. Sinto nos meus ossos. Mas, sexta-feira 13 não é um bom dia para se nascer, mesmo para um garoto. Para piorar, a chuva lá fora faz a noite parecer um quadro do inferno. Chove tão forte que não sei como o Doc conseguiu chegar até aqui. Trovões e raios fazem tudo parecer pior do que já é. Minha mulher urra e grita a todo momento. A noite vai ser longa. O moleque não quer sair. Parece até saber as coisas ruins que temos aqui fora.

- Jones, pára de ficar olhando lá para fora. Me ajude aqui! O que diabos você perdeu lá fora, homem?! Só preciso que você pegue mais panos quentes e mais um balde d'água morna. Depois pode voltar para seu posto.

- Ok, Doc. Eu só... só não gosto dessa chuva esquisita.

- É uma tempestad... KRAAAK-A-BUMMMMM... ...tra qualquer, homem! O parto está dificil, não sei se vou conseguir, Jones. Esteja preparado para qualquer coisa.

O Doc sempre foi assim, nada sutil. Lembro que uma vez estávamos jogado pôquer com uns forasteiros e resolvemos limpá-los jogando um pouco, digamos, em "parceria". Na primeira jogada ele entregou tudo e levamos a maior surra de nossas vidas.

KRAAK-A-BUMMM!!!

Credo, juro ter escutado um grito pouco antes do trovão. Cada pelo do meu corpo se arrepia. Esse menino vai nascer na pior noite que essa terra desgraçada já presenciou. Ou, segundo o Doc, talvez nem nasça.

Olho para a mãe do meu filho e ela está com o rosto desfigurado de dor. Faz força como nunca vi um homem fazer na vida. Mas não posso ir para lá segurar a mão dela. Preciso ficar aqui, na porta. Não sei porque, mas alguma coisa parece me dizer isso.

Pego meus revólveres na mesa e coloco-os na cintura, depois de conferir se estão carregados.

- Que é isso, Jones? Vai atirar na chuva. Você devia era dar um jeito para a água parar de entrar na casa. Está começando a me atrapalhar aqui. Eu te avisei há muito tempo que você devia ter comprado uma casa maior, de dois andares ao menos.

- Ok, Doc. Obrigado por fazer o papel da minha esposa enquanto ela não está em condições.

Eu falo, mas sem olhar para ele, sem prestar nem atenção no que estou dizendo. Juro ter visto um vulto na chuva. Quem seria louco de sair nesse aguaceiro? Nem mesmo o Dead John seria doido pra isso, e olha que ele É doido, clinicamente falando.

Diacho! Acho que vi novamente e... olhando pra cá. Não tenho vergonha de admitir que minhas pernas começam a tremer. Os gritos altos de minha mulher não ajudam em nada os meus nervos. Nasce logo garoto, acaba com esse sofrimento. Eu prometo que nunca mais mexo com sua mãe pra fazer nada. Talvez umas esfregação, mas nada mais que deixe ela grávida de novo.

Ai, Nosso Senhor! É uma pessoa na chuva mesmo. Olhando para cá. Encurvado como um corcunda, ou sei lá o quê. O que diabos esse cretino tá fazendo? Tirou a noite pra me assustar mais do que já estou?

- JONES, SUA MULHER PERDEU OS SENTIDOS! Eu não sei se ela vai sobreviver, Jones! Preciso saber se salvo ela ou a criança. Preciso saber agora.

- Doc, você vai salvar os dois, porque você me deve isso.

Há uns 15 anos atrás eu e Doc atravessávamos o deserto quando ele foi picado por uma cobra, em uma região do corpo delicada demais. O que ele me obrigou a fazer, depois de apontar sua arma pra mim, eu não posso dizer aqui. O pior é que nem sei se essa história de sugar veneno é verdade, já que ele disse que era apenas pra dar tempo de chegar na cidade e ser atendido. Mas, seja como for, ele ficou me devendo. E se ele contasse pra alguém, eu jurei que o matava como se mata um cachorro.

O sujeito lá fora está vindo pra cá.

- JONEEESSSSS... ELA ESTÁ EM CONVULSÃO!

- Ajuda ela, porra!!! Tem um cara estranho lá fora, vindo pra cá. Eu não não acho que seja nada de bom, não posso sair daqui.

Doc a segura como pode. Ele parece não entender o porque dela estar em convulsão. E isso, sendo ele médico, não é um bom sinal.

Meu coração parece que vai sair pela boca quando vejo os olhos do troço lá fora brilharem em vermelho. Não sei se tô alucinando por causa da preocupação com ela, ou se é tudo real. Mas, logo sei que tudo está contecendo de verdade, quando o cara saca o que parece ser uma arma, e vem correndo na minha direção. Quando pego minhas armas, a atiro... não acontece nada. Olho os tambores e estão vazios. Eu tenho certeza que estavam cheios, eu conferi.

A coisa está mais perto e minha mulher grita mais alto:

- SAIA DAQUI, AGORAAAAAA!

Do que ela está falando? Ela pode ver esse troço? De onde ela está não tem como ver. Doc a segura mais forte. O homem corcunda corre rápido. O jeito é fechar a porta. Mas, quando tento isso, ele dispara e a porta se despedaça como se todos os cupins do mundo estivessem nela. Meu Deus. Aquilo não era uma bala, era algo... demoníaco. Fogo no meio da chuva. Vamos todos morrer e eu nem mesmo tenho idéia do porque.

Me afasto da porta, rezando como se fosse o homem mais crente de todo o mundo, e quando a criatura chega na soleira da porta, com seus passos pesados fazendo um som horrível nas poças d'água e sua respiração ofegante nojenta, vejo que ela não tem forma definida, e é como se fosse feito daquela chuva maldita. Vamos todos morrer.

Olho para trás e vejo Doc com meu filho no colo, e minha mulher sentada, como se estivesse em transe, rezando numa língua que eu nunca ouvi antes. Chego a pensar que ela está dopada com algum remédio que Doc ministrou.

- JONES, QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!

Tudo isso acontece segundos antes de a criatura pular na minha direção e eu ouvir um disparo e mais um, e mais um, acertando aquela coisa vinda do inferno. Quem atira não pára um segundo sequer, descarregando toda munição em cima dela. Ela levanta e me esquece indo na direção de quem atira. Mesmo com medo vou até a porta e assisto aquilo tudo.

Um homem de capote atira como um louco e parece que sua munição nunca acaba. Ele a desarma. A criatura tenta ir em sua direção, mas os disparos não permitem. Porém, tampouco ela dá indícios de que vá morrer. Minha mulher grita algo alto naquela língua absurda que ela resolveu falar, e sinto a criatura cambalear. É o suficiente para o pistoleiro pegar uma terceira arma de dentro do capote, mirar no coração e atirar.

A criatura solta uma risada resignada, como se dissesse que pelo menos ela tentou, e corta o próprio pescoço com unhas que mais parecem navalhas. Ainda ouço ela dizer algo, entre os gorgolejos da morte:

- Nem eu, nem você, Jones.

Não entendo como ela sabe meu nome, apesar de não parecer estar falando comigo. Depois disso, ela apenas... morre e some com a chuva que pára, como se a criatura estiasse. A noite fica com aquele cheiro de terra molhada, mas não de um jeito bom. O homem do capote se aproxima e fala comigo:

- A... a criança... ela nasceu?

Eu tento responder, mesmo sem saber o porque da pergunta, mas só consigo fitar a cicatriz em sua garganta. Enorme, pulsante. A cicatriz pulsa! Como se estivesse viva. Oh, Deus. Eu preciso de uma bebida.

Ele olha para dentro de casa, e vê o menino no colo de um Doc pálido, tremendo como vara verde. Minha mulher parece estar morta, depois de toda aquela reza.

- S-sim, ele nasceu? Quem é você? O que era aquilo?

- Não importa. Eu estava atrás daquilo há um bom tempo, e sabia que ele estaria aqui, por isso dei um jeito de estar no mesmo lugar e hora que ele. Uns amigos índios me ajudaram com isso. O senhor nem acredita em que todas aquelas ervas deles são capazes. E eu achava que eram só pra ver elefantinhos cor-de-rosa. Agora vai ficar tudo bem, Sr. Jones. Dê isso aqui à sua esposa. Também é dos meus amigos índios, mas é curativo. Nada de alucinógenos pra ela, pelo menos por enquanto.

E ele foi embora, rindo como um moleque travesso. Podia jurar que ele sumiu diante de meus olhos, mas era apenas a escuridão, eu acho. Dei a planta para minha esposa, sem pestanejar. Eu não estava em condições de duvidar de nada. Doc ficou falando sobre intoxicação e coisas do tipo, mas eu não o escutava. Ela logo acordou e sorriu pra mim, cansada, mas feliz.

Peguei nosso filho no colo e mostrei-o a ela. Ele parecia tão calmo diante de tudo aquilo. Não chorou nem por um instante. A única coisa que parecia incomodá-lo, era algo no pescoço que ele não parava de coçar.

Eu ainda não sabia que nome daria a ele, mas se soubesse qual era o nome do homem de capote, com certeza seria esse.

- Estamos quites, Doc. Mas, agora, aqui entre nós, eu não precisava ter sugado aquele veneno, não é?

- Jones, isso de novo? Eu tô aqui todo cagado de medo, e você vem com coisas do passado. Vou pra casa me limpar e dormir. E, pelo amor de Deus, não faça mais filhos, Jones.

-Se eu descobrir que aquilo não era necessário, Doc...

FIM.


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