segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O Breve Ato de Recordar


O BREVE ATO DE RECORDAR Eu Queria Ter a Foto Para Ilustrar Isso

Seguro uma foto antiga nas pontas dos dedos. É uma foto do aniversário de um ano de minha irmã caçula. Parece que toda minha família está naquela foto. Na verdade, a família do meu pai em peso. Minha mãe está abaixada cortando um pedaço do bolo quadrado, com glacê branco recobrindo todo ele. Bolinhas de cor prata pontilham o bolo inteiro. Uma vela com o número 1 completa o quadro .

Algumas pessoas na foto não estão mais aqui, seja por falecimento, seja porque se mudaram e eu não saiba mais onde moram. Eu estou na foto. No colo de meu pai. Uma digital manchou a foto exatamente sobre minha cabeça, mas ainda consigo me ver. Como sempre - não sei exatamente o porque - estou sério na foto. Meu pai me deu uma garrafa de algum tipo de bebiba - conhaque, eu acho - para que eu segurasse, sem nem mesmo se preocupar que para mim aquilo pesa uma tonelada. Mas eu não reclamo.

A mancha da digital parece deixar claro que eu não lembro daquele momento, e que só tenho aquela foto para saber que ele aconteceu. Olho mais de perto e vejo como estou pensativo. Sério e pensativo, como se soubesse que logo alguém pegaria a foto e deixaria uma marca bem sobre a minha cara, estragando uma pose tão legal segurando uma garrafa de conhaque.

O aniversário é especial principalmente pelo fato de que não teríamos muitos outros até o aniversário de 15 anos de minha irmã. E eu nem estaria nele. Não era comum festas de aniversários pelo simples fato de que as coisas eram difíceis. Mas, nunca nos ressentimos disso. Acho que uma espécie de consciente coletivo apenas da nossa família, fazia com que soubéssemos do que era possível e do que não era.

Continuo olhando a foto, sem saber exatamente porque gosto tanto dela. É velha, em preto e branco, e nem mesmo é de uma aniversário meu. Olho meu pai me segurando sem saber ainda que ele iria embora dali a dois anos. Eu ainda o veria por algum tempo, antes de ele voltar para o Ceará, com uma nova família, mas eu nunca mais teria uma foto com ele me segurando no colo.

Uma lágrima cai sobre a foto e me apresso em secá-la. Secá-la da foto, para que não estrague mais do que já está. Um sentimento de que a vida é apenas uma foto se apodera de mim. Algo que você só pode olhar e tentar lembrar. Saindo da foto, tudo volta a ser real demais.

Tento entender porque ser pai na foto é tão fácil. Não é sempre que penso nisso, mas quando penso, sempre me pergunto o que saiu errado. E não sei a resposta. Era como se a culpa fosse nossa também, e não tivemos aqueles diálogos novelescos tipo "a culpa não é sua".

Mas a foto não é sobre isso. Ela é sobre memórias, sobre lembranças que não temos mais, guardadas em um pequeno pedaço de papel - ou digitalmente hoje em dia. Sempre que reviro as coisas antigas de minha mãe, a foto, invariavelente está lá. Junto a outras é claro, mas sempre é ela quem me chama a atenção.

Minha irmãzinha está sobre a própria mesa do bolo, olhando para alguma coisa atrás dela. O cabelo tão loiro que, mesmo a foto sendo preto e branco, dá pra perceber. Suas grandes bochechas me fazem lembra que, paradoxalmente, ela tem uma foto mais antiga, só que colorida. Recém-nascida, sentada em uma cadeira colorida, sem cabelo ainda, ela parecia estar pensando em tudo que viria pela frente. Mas, na festa de aniversário, ela apenas está distraída.

Olho a fila de pessoas e mais a frente delas, na foto, estão meu dois tios mais novos, dois moleques ainda, loucos para que se acabe logo com essa história de foto e comece logo a história de comer bolo. Meu avô - pai do meu pai - está ali, como eu sempre lembro dele. Incrível como ele nunca mudou de aparência. Minha avó não está nesta.

Ainda seguro a foto por um bom tempo, agora olhando sem estar prestando realmente atenção. A mancha da impressão digital parecendo mais acentuada, como se estivesse apagando mais e mais o meu rosto. Antes que eu suma por completo, guardo a foto de volta dentro da maleta de recordações de minha mãe. É quando sinto que alguém me pega e me coloca no colo.

Meu pai me leva para a sala, onde um monte de gente está presente para o aniversário de um ano de minha irmã caçula. Ele me dá uma garrafa de conhanque - ou algo do tipo - que pesa horrores, mas eu não reclamo. Olho para o fotógrafo e o flash explode nos meus olhos.

E o tempo pára naquela foto.


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