sexta-feira, 27 de março de 2009

Amigos, Amigos


AMIGOS, AMIGOS, MALUQUICE FAZ PARTE
Afinal de Contas o Mundo é um Hospício


Era um dia de sol ameno, talvez um domingo, quando resolvi ir até a casa do Adriano. Subi até o pequeno apartamento, bati à porta e quem a abriu foi o Wilson, irmão mais novo, de quem eu também era amigo. Wilson era praticamente um garoto ainda e, era engraçado ver como ele era sucestível a tudo a sua volta. Estava sempre agitado. Ele havia viajado até São Paulo, se não me engano, e voltara a alguns dias. Eu entrei e ele me cumprimentou. Quando ele fez isso - falou - eu pensei estar escutando coisas. Eu não queria acreditar no que estava ouvindo. Talvez fosse minha imaginação. Mas não era. Wilson esteve algumas semanas em São Paulo - não sei fazendo o quê - e voltou... com sotaque!

Não, não, não! Não um sotaque paulista, que talvez fosse mais compreensível. Ele estava com um sotaque estadunidense. Parecia, não que ele tivesse ido a São paulo por algumas semanas, mas que passara alguns anos nos Estados Unidos e retornara com aquele sotaque.

Eu custava a entender a situação e não tinha coragem de perguntar o que era aquilo. Ele falava da viagem, família, e etc. Eu tentava apenas não rir. Mas era extremamente difícil. Talvez ele tivesse algum parente ou parentes estrangeiros e ficou com eles lá em São Paulo. Eu poderia perguntar isso. Mas, eu antecipava tudo. E se não fosse isso, e ele perguntasse porque eu estava fazendo aquele pergunta. Na verdade, eu estava suando frio tentando segurar o riso. Eu estava a ponto de explodir em uma risada... quando a porta se abriu e o Adriano entrou. Eu suspirei aliviado. Mas não durou muito.

Adriano estava um tanto quanto transtornado e antes que eu perguntasse o que havia acontecido, ele olhou para mim, como se o mundo fosse entrar em colapso a qualquer momento, e soltou:

- O Grande Pássaro das Galáxias morreu!
O Wilson, do outro lado da sala, soltou um sonoro: "WHAT?!", e eu quase mandei ele ir para o inferno, e que parasse com aquele sotaque idiota, mas eu estava ainda estupefato pela declaração estrambótica do Adriano. Se ele tivesse falado aquilo rindo, eu ao menos saberia que era uma piada, mas ele estava sério. Pior, ele estava quase chorando.

- Hã... quê? Pássaro... grande... galáxias? Você não tinha parado com as drogas, Adriano? É óregano, ou algo do tipo?

- Não, cara! Você não entende? O Grande Pássaro das Galáxias se foi. Acabou. Como diria o Wilson: "It's Over".

- Era seu passarinho de estimação? Morreu? Pelo nome devia ser bem grande. Era uma arara?

-Não, não, não! Nada disso, Honorato! Gene Roddenberry, o criador de Jornada nas Estrelas morreu hoje, cara!

- Ah.

Ele se sentou desolado e eu fiquei sem entender nada. Afinal, nunca soubera que ele era tão fã assim de Jornada nas Estrelas. Na verdade, ele NUNCA falou sobre Jornada nas Estrelas. Eu mesmo gostava do seriado, mas muito moderadamente. Não a ponto de saber apelidos "carinhosos" de criador da série.

Wilson perdera o interesse no assunto. O susto foi mais pelo modo como Adriano deu a notícia, do que pela notícia em si. Ou ele apenas quis falar "WHAT?!", vai saber.

Eu não sabia o que dizer ao Adriano, afinal eu não conseguia sentir a totalidade de tão esmagadora notícia, já que Roddenbery para mim era tão importante quanto martelos de borracha. Mas eu não podia dizer isso, tinha de afugentar esses pensamentos. Eu procurava em minha mente algo que pudesse dizer, para tentar melhorar a situação. Coloquei a mão no ombro dele, e disse:

- Ah, cara, pelo menos ainda temos o George Lucas. - Ele me olhou de cara feia.

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Saltei do ônibus e fui em direção a minha casa. Entrei na rua e senti que alguém tentava me alcançar. Olhei para trás e vi o ... o... ih, caramba, esqueci o nome do cara. Tomara que ele não perceba. Também, faz tempo que a gente não se fala. Muito mesmo. Ele mora na rua depois da minha e eu sempre aparecia por lá. A gente se tornou amigo, mas o tempo foi se encarregando de nos afastar. Ele também estava um pouco diferente. Não na aparência em si. Era algo... bom. Eu ia saber que ele estava mudado de verdade logo em seguida.

Eu lembrava dele como um garoto normal, sem nenhum problema, digamos, a mais. Só sei que agora ele era praticamente um adulto, como eu. E parecia estar vindo de algum lugar, talvez trabalho, ou curso.

Ele emparelhou comigo e puxou assunto. Não lembro bem como, ele começçou a falar do filme O Exterminador do Futuro. Fazia pouco tempo que o segundo havia passado no cinema. Então, conversa vai, conversa vem sobre o assunto, ele começou a abrir uma pastinha que trazia consigo. Foi tirando várias folhas de papel ofício cheias de desenhos a lápis.

Ainda falando sobre o filme, meio que sem parar, ele segurou as folhas com cuidado, me parou e disse claramente, sem nenhuma chance de interpretação errada, enquanto me mostrava os desenhos:

- Eu estou construindo um exterminador.

Eu dei graças a Deus de não estar bebendo nada. Eu teria engasgado, talvez até morrido no processo. A única coisa que fiz foi soltar um "é?', já que, como estava chegando do trabalho, eu estava cansado demais para rir. Mesmo se eu quisesse.

Um misto de pena e vontade de andar mais depressa se apossou de mim. Ele me mostrava os desenhos, que nada mais eram que rabiscos de partes de um "exterminador" feitos por alguém que nem mesmo sabia desenhar corretamente.

As folhas começevam a cair e eu as pegava, pensando comigo "por que eu, Senhor?", enquanto olhava pra ver se minha casa já estava mais perto. Não estava. Ele continuava falando de seu projeto de construir o exterminador, já que eu mesmo não perguntava nada. Nem mesmo qual o objetivo de construir um exterminador eu quis saber. Tinha medo da resposta. Medo de que ela me fizesse estrangulá-lo ali mesmo. A maldita casa não chegava nunca.

Eu só não enlouquecia com o blá-blá-blá, porque eu já havia me refugiado em meu lugar feliz, onde o mundo era composto por cascatas de café e as montanhas eram de pão doce e sonho com recheio de doce de leite. E eu tinha um plano de saúde que cobria diabetes. E não havia exterminadores nele.

Quando enfim, vi as escadas para casa, quase pude ouvir o coro de anjos. Ele guardou as folhas rabiscadas e eu acenei, desejando boa sorte no "projeto". Que o Grande Pássaro das Galáxias o acompanhe.

Se eu chegasse em casa e alguém tivesse alugado Exterminador do Futuro, era bem capaz que eu quebrasse a fita até virar pó.


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