domingo, 12 de abril de 2009

O Pequeno Lagarto


O PEQUENO LAGARTO DESLIZA NA AREIAPor Onde Você Andou Todo Este Tempo?

Quando saio da casa do Marcelo vejo que está chovendo. Já escureceu. A chuva é fina e constante. Terei de ir debaixo dela mesmo. Saio da pequena varanda, sozinho. Desço os dois pequenos degraus e ando no chão liso. Uma espécie de limo parece cobri-lo. Isso molhado pode ser muito perigoso, penso eu. Mas não penso por muito tempo. Quando dou o segundo passo, escorrego. Tão repentinamente que não consigo, de forma alguma me equilibrar. Eu caio para trás e bato com a cabeça no concreto. Fico deitado, sentindo a dor. Uma dor uniforme que recobre toda a parte de trás da cabeça. A chuva caindo. Ninguém lá dentro ouviu.

Me levanto, e apalpo minha cabeça, imaginando se eu não teria na verdade rachado o meu crânio. Estou um pouco tonto e não sei por quanto tempo fiquei deitado no chão. Olho para trás e a porta ainda está fechada. Ninguém notou nada. Olho para baixo e vejo que passei a poucos centímetros dos dois degraus de concreto. Eu poderia ter morrido.

Você morreu. O pequeno lagarto desliza na areia.

Isso aconteceu há muitos anos. Há mais ou menos uns 10 anos. Mas me lembro ainda hoje, como se estivesse lá. A chuva, o chão com o limo, o escorregão e a batida violenta contra o concreto. A falta de algum lugar pra me apoiar fez a queda ser rápida e dura. Eu poderia ter morrido.

Você morreu. Você morreu lá. Sente o lagarto deslizando na areia? Então. É a verdade tentando adentrar seu pequeno cérebro que não consegue enxergar as verdades latentes. Como um lagarto lutando para andar na areia quente.

Sinto a parte de trás de minha cabeça doer, como se ao escrever sobre isso fizesse reabrir uma ferida. Ferida essa que não houve. Não precisei ir a hospital. Não sofri nenhum dano. Não contei a ninguém quando cheguei em casa. Nem mesmo uma dor de cabeça eu senti.

Era porquê você já não estava mais no mundo dos vivos. Entenda, a partir dali, seu mundo era - como se diz hoje na era da informática - virtual. Ou, se preferir uma linguagem mais literária, um realidade paralela. Mas talvez se pergunte, por que esta realidade não é melhor já que está morto. Bom, por que na verdade ela se baseia em conhecimento prévio de como seu mundo era. Memórias acumuladas e rearranjadas. A morte é diferente para cada pessoa. A sua gerou isso, e devido a isso estou aqui tentando te fazer entender. Se não fosse assim, eu nem existiria. Ops, na verdade eu não existo.

A pancada apesar de ter sido forte e não ter me causado nenhum problema, não me deu nenhum superpoder, como seria de se esperar de algo tão traumaticamente violento que não causou nenhuma sequela. Ainda penso nos dias de hoje se estou vivo de verdade, ou se vivo apenas uma realidade virtual ou coisa assim. Ou talvez apenas tenho sorte de ter uma cabeça muito dura.

Até poderia ser, camarada, se você não tivesse acertado o degrau de concreto na queda. Não foi nada bonito de se ver. Mas você não está me ouvindo. Você VIVE sim uma realidade virtual. Tudo que vivenciou até agora são apenas construções de uma imaginação bem fértil. Se bem que elas não emanam de seu cérebro já que você não tem mais um. Alguém mais religioso diria que elas são produzidas por seu espírito, alma, ou seja lá o que for, mas não é bem assim. Mas, mesmo sabendo que não é isso, eu não sei a resposta. O que seria a vida sem mistérios? Mesmo uma vida artificial.

Depois de todos esses anos fico pensando se a pancada nao me afetou de algum modo. Depois dela, não demorou muito e eu saí das Testemunhas de Jeová, coisa que pensei nunca seria possível de acontecer. Eu já estava há tanto tempo lá que não parecia poder viver sem o que eu tinha ali. Mas, ao sair, pude ver as coisas por outro ângulo. Pude enxergar as coisas estando do lado de fora, e assim, ter certeza de que não queria mais ninguém tomando decisões por mim.

Entendo, isso faz parte de certas decisões que sua nova realidade se permitiu tomar. Talvez você pense porque então você não é um milionário cercado de supermodelos, já que este deveria ser o seu "céu" particular. Mas, não é bem assim, não é você quem toma todas as decisões. E não, também não é algum Deus. As coisas apenas... acontecem. Não sei se posso dizer aleatoriamente. Acho uma palavra forte demais aqui. Pena que estou falando sozinho, não é?

Meu desligamento fez com que minha vida tomasse outro rumo. Totalmente diferente do que ele teve nos sete anos que lá passei. O desligamento também me fez perder meus amigos, já que as "leis" da religião não permitem contato com pessoas que se retiram, sendo o Marcelo uma dessas pessoas. Isso fez com que eu não fosse mais à sua casa, e não visse mais o lugar onde tive a Grande Pancada. Apenas a guardo na memória. Na... cabeça. Isso é quase irônico.

Cara, posso dizer que sua força de vontade é até grande, para um cara morto. Por exemplo, isso de ter se tornado uma espécie de semi-quase-celebridade, por causa de um blog criado por você, tendo até mesmo pessoas te reconhecendo na rua, bom, dou minha cara (se eu tivesse uma) a tapa, isso é sua necessidade de atenção interferindo no grande plano do sei-lá-o-quê. Mas, tudo bem, não fique irritado, todo mundo gosta de atenção. Até eu, pena que você não dá, né?

Pensei que minha vida não fosse mais ter o tanto de movimento que eu tinha quando participava do culto. Afinal fiz amigos em uns 3 ou 4 Estados. Mas, acabei me casando e, como uma espécie de terapia de ocupação para tentar me esquecer do meu Transtorno do Pânico, criei um blog que acabou se tornando maior do que eu. Apesar de não planejado, a coisa toda serviu para que o passado ficasse apenas no passado. Quem sabe apenas precisemos levar umas pancadas de vez em quando para acordar.

Acordar! Pfff. Piadista você. Não entendeu nada ainda. Pra você ter uma idéia, até você levantar e vir aqui escrever esse monte de bobagens (com exceção das minhas falas), até mesmo isso, foi planejado. Ou não. Na verdade, acho que não era para você saber dessas coisas. pelo menos não ainda. Estou confuso agora. Bom, o importante é, essa sua vida, é só um sonho, cara. Não é real.

Eu não me importo. Esse papo todo não faz sentido pra mim. Estou vivo, isso que importa.

Hã, você estava me ouvindo?

Mais ou menos. Mas, me diz, se tudo que você disse é verdade, então quando eu estava vivo, aquilo era a a verdadeira realidade?

Hmmmm. Na verdade, não. Você era uma parte do sonho de outra pessoa.
De quem?

Do Elvis.

Mas ele não...

Pegadinha! Sou só sua Insônia falando, cara. Eu estava sem nada pra fazer, então...

Eu sei, Insônia é foda. Vamos, vamos tentar dormir.

Certo, vamos. Mas eu fico com o travesseiro mais fofo.

Elvis, hein?

Você quase acreditou, fala a verdade.
Ah, vai dormir.

.........

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