sexta-feira, 24 de abril de 2009

Dias Melhores Chegaram


DIAS MELHORES CHEGARAM Talvez Nem Tudo Esteja Realmente Perdido

- Alô, mãe? Só liguei pra dizer que estou jantando! É, isso mesmo. Tô comendo normalmente.

Bom, a primeira vista essa pode ser uma ligação bem estranha. O cara é tão filhinho da mamãe que tem que ligar pra dizer o que está fazendo? Só falta ligar do banheiro pra dizer que está... bom, deixa pra lá. Não é nada disso. Era uma ligação realmente especial, afinal de contas, se passaram 12 anos até chegar esse dia. Até então eu não me alimentava normalmente devido a uma Síndrome do Pânico conjugada a uma eplepsia. Diferente da maioria das pessoas com problemas com pânico, que adquirem agorafobia (medo de sair de casa, lugares públicos e etc), eu adquiri uma fobia desconhecida (pelo menos por mim) referente a me alimentar. Não conseguia mais terminar uma refeição formal sem ter uma crise. O que me levou a evitar almoço e jantar como usualmente os conhecemos.

Claro que não liguei assim que consegui comer a primeira vez. Me certifiquei de que não estava mesmo tendo nenhuma crise, aí então, liguei. Ela mais que ninguém merecia saber, pois a maior parte dos 12 anos, ela quem teve que segurar a barra de me... segurar, para que eu não me machucasse.

A demora toda para se encontrar um tratamento que parasse as crises se deu ao fato de que nenhum médico decente conseguia ver que eram dois problemas diferentes, mas associados, digamos assim, uma Parceria do Mal: Síndrome do Pânico e Epilepsia.

Parecia difícil para eles conceber as duas coisas juntas, assim sendo, eu era jogado de um lado para outro como um boneco de pano. Ia para médicos psiquiatras que me jogavam para médicos neurologistas e vice-versa. Seria até engraçado, se não fosse trágico e longe!!!

Uma psiquiatra até mesmo chegou a dizer que a Síndrome do Pânico não existia, e que era uma coisa que estava apenas na minha cabeça. Esperei ela dar uma risada e dizer: "PEGADINHA DO MALANDRO", mas isso não veio. Ela estava falando sério. Não preciso dizer que não voltei mais. Mas digo assim mesmo, não voltei mais.

O problema todo era que eu simplesmente dizia TODOS os sintomas e eles, em conjunto, faziam parecer mais que eu tinha apenas uma epilepsia um tanto quanto diferente das outras. Assim, geralmente, me tratavam apenas como epleptico, o que não resolvia em nada o problema, já que o carro-chefe da coisa era o Pânico. Numa explicação bem simples, o Pânico ativava a Epilepsia. Não vice-versa. Mas, depois de 12 anos, cheguei a uma conclusão, eu precisava mentir ou omitir que tinha epilepsia para ser tratado com tendo apenas Pânico. Não preciso dizer que eu não sabia se isso daria certo. Mas, digo assim mesmo, eu não sa... ah, vocês entenderam.

Antes de chegar lá, no entanto, vale deixar uma coisa bem clara: todos esses anos que tive crises, muitas delas fora de casa - eu saía, e até mesmo viajava, mesmo elas acontecendo lá fora - as pessoas nunca me trataram diferente. A epilepsia era bem evidente durante as crises, e nunca me senti menosprezado ou vítima de preconceito por causa disso. Quando vejo em matérias sobre o assunto, pessoas que são vítimas de algum tipo de preconceito por causa disso, penso que, ou tive sorte, ou lidava com pessoas ótimas.

A reação da maioria das pessoas que presenciavam alguma crise minha era ajudar, em primeiro lugar. Outras ficavam confusas e se sentindo incapazes por não saber o que fazer corretamente. Muitas vezes pude perceber isso nos olhos das pessoas, pouco antes de apagar completamente. Certa vez o pai de um amigo meu, tentava me levar a um posto de saúde e pude ver que ele chorava, talvez por achar que eu estivesse sofrendo, como parecia estar. Não podia explicar pra ele que aquilo terminaria em poucos segundos e tudo ficaria bem dali a alguns minutos. Minha voz não saía.

Uma outra vez, assistindo, sozinho, o filme Godzilla, no Cinema Santa Rosa, em Duque de Caxias, uma crise se iniciou - sim, também havia raras crises não relacionadas à ação das refeições. Eu levantei e tentei chegar até a saída, mas apaguei antes. Quando voltei a mim, tinha um corte na cabeça e várias - muitas mesmo - pessoas olhando para mim. Todas elas tentando ajudar de alguma forma. Tive de mentir dizendo que estava bem, para poder ir para casa, pois elas não queriam deixar. O gerente do cinema me garantiu que eu poderia voltar para assistir o filme inteiro novamente. Mas, era Godzilla de Rolland Emerich e, vocês sabem, né, não voltei!

Vale dizer também que menti porque eu acreditava mesmo que estava bem, mesmo não estando. Voltar de uma crise era ainda pior do que ela em si. Eu me sentia num sonho, um sonho bem ruim, onde eu não distinguia bem pessoas e coisas. Às vezes estava em casa e via minha mãe, ou irmãos, e um misto de coerência e incoerência se fazia presente. Eu parecia estar transitando entre dois mundos e não estava em nenhum deles. Essa sensação durava algumas horas. E foi assim que fui do cinema para casa, entrando sem nem saber como, no ônibus certo.

Ainda sobre as pessoas e como elas no fundo são boas, em primeira instância, lembro de ter uma crise quando ia pra minha casa (quando morava ainda com minha mãe) bem no meio de uma ladeira completamente deserta, à noite. Eu apaguei e com certeza caí. Quando voltei a mim, estava em casa. Uma moça e seu pai me levaram. Como eu consegui dizer a eles onde eu morava não faço a mínima idéia.

As reações das pessoas sempre me deixavam feliz de ver que nem tudo estava perdido. Nunca tive crises (no meio da rua) onde moro agora e talvez as reações fossem diferentes, não sei. Mas onde eu morava e onde eu estivesse com pessoas que eu conhecia, a primeira reação era sempre querer ajudar. Umas começavam a orar ajoelhadas ao meu lado, depois de me colocarem em uma cama, outras tentavam me acalmar de qualquer forma.

Talvez o que ajudasse é que nunca me acanhei em dizer o que eu tinha e como ficava durante as crises, e explicar o que eu achava que podia ser. Elas entendiam. Mas com os médicos a história era diferente. A maioria prescrevia logo algum remédio tarja preta e lá ia eu embarcar em novas e nada maravilhosas viagens alucinantes. Mas, estou exagerando. Fora as crises de sono, nunca tive reações tão adversas assim aos remédios, a menos que não tomasse uma dose dupla, por engano.

Isso aconteceu umas duas ou três vezes. Era como estar bêbado, mas sem ter ingerido nenhum álcool. Uma sensação de calma se apoderava de mim, mas eu sabia que não podia ficar daquele jeito. A tonteira era um sinal claro que de eu esquecera e tomara uma dose a mais. Por duas vezes procurei ajuda para aquilo em postos de saúde e acho que me deram comprimidos de farinha - os famosos placebos - que, pelo menos funcionavam. Eu sempre fui bastante sugestionável.

Tomei tantos remédios diferentes em 12 anos que não sei como ainda estou com as faculdades mentais intac... AAAAHHH... SAI DAQUI MACACO VOADOR!!! Ahn... como eu ia dizendo...

Por fim, cheguei ao capítulo em que eu decidi mentir para os médicos numa sessão de triagem de um hospital para tratamento de Síndrome do Pânico da UFRJ. Já havia estado lá uns anos antes e havia sido despachado para o hospital neurológico. Acabei desistindo. Mas, depois de um tempo, resolvi voltar e, como já disse, mentir, omitir, fazer o que todo bom político sabe fazer para conseguir o que quer.

Eu omiti todos sintomas da epilepsia para que apenas o pânico fosse tratado. O plano funcionou. Em tudo. Enfim me deram remédio para o carro-chefe, para aquele que só existia em minha cabeça. Chama-se Impramina. Depois que eu já estava estabelecido no tratamento, contei o meu "plano maquiavélico" para a médica, que se espantou de saber que eu tinha as duas coisas, mas continuou o tratamento, agora com Tegretol como sobremesa. E, depois de algumas semanas, eu pude ligar para minha mãe e dizer a frase que abre o texto.

E, nossa, só levou 12 anos para eu entender que era preciso mentir, omitir e ser desacarado. Eu sou ou não sou um gênio?

Mas, ainda fico na dúvida se foi apenas o tratamento que fez tudo melhorar. Ainda tenho uns surtos de ansiedade, mas sei lá, eu sou ansioso desde que nasci. Falo movendo as mãos, andando, e estalando os ossos do pé. Não sei falar devagar. Se estou sentado escrevendo, como agora, as pernas estão balançando, se mexendo, ou fazendo qualquer coisa. Se estou vendo TV, fico enrolando a ponta do cabelo quase até arrancar. Nervoso por natureza. Mas, agora, almoçando, jantando e fazendo lanches a meia-noite.

Mas me desviei. Penso se foi apenas o tratamento ou se O Rapadura Açucarada foi uma grande terapia para mim, já que aconteceu de tudo melhorar, as crises cessarem e tudo voltar ao normal, depois que eu comecei a fazer o blog, os scans e tudo o mais. Terapia por meio da pirataria. Isso daria um bom livro.

No mais, digo a quem ainda sofre com isso que não ligue para preconceitos, se importe apenas com quem se importa com você, as outras pessoas não entendem o que não conhecem, e a primeira atitude é a discriminação. Bom, aja como se não fosse com você.

Se tudo mais não funcionar, abra um blog com nome esquisito. Agora deixa eu telefonar pra minha mãe avisando que já fiz meu dever de casa!

Um comentário:

Anônimo disse...

fique sabendo que sou epitletica aos 42 anos, eu não desmaiva mas
apagava do nada sem lembranças.
numa noite estava dormindo e acho que tive um forte espasmo muscular que resultou em fratura da coluna,não cai da cama, so não conseguia levantar tamanha era a dor, mas como muito esforço conseguir levantar, fui a uma ortorpestista e fiz um tc que confirmou a fratura.pergunto-me se a epilepsia e capaz disso?

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