terça-feira, 17 de agosto de 2010

A Gárgula


A GÁRGULA - ANDREW DAVIDSON


Marianne Engel. Leio a pelo menos 30 anos, e nunca me apaixonei por personagem nenhum de livros ou quadrinhos. No máximo uma admiração por algo tão cativante e carismático, se tanto. Nunca me apaixonei por algo que não existe, até ler A Gárgula e conhecer Marianne Engel. É uma personagem tão poderosa, tão "real", tão bem construída, que você deseja que ela exista. E talvez exista, de alguma forma.

Eu estava no quiosque de livros usados quando me deparei com a capa de belas costas com asas tatuadas. Estava em ótimas condições e o preço era 12 reais. Mas só me decidi a levar mesmo quando li a curta sinopse na contra-capa:

"Um homem coberto de chagas e cicatrizes adquiridas num trágico acidente de carro. Uma mulher misteriosa garante estar viva desde a Idade Média. Um romance arrebatador sobre a queda ao inferno e a busca de redenção".
A parte que me chamou a atenção foi a que fala sobre a mulher que garante estar viva desde a Idade Média. Um livro com essa prenissa não poderia ser ruim.

Confesso que comecei a leitura e não estava muito entusiasmado. O livro passa vários capítulos tratando sobre o passado do homem queimado. O motivo disso é por ser ele o narrador e protagonista da história. No entanto, seu nome nunca é citado, o livro inteiro.

A narrativa começa com seu acidente, onde ele cai de uma ribanceira com o carro, e este se incendeia, queimando-o terrivelmente. No hospital ele relembra sua vida desde que nasceu. Órfão, criado por tios drogados, vivia enfurnado nas bibliotecas. Com o tempo torna-se ator pornô, viciado em drogas. Quando está no auge da carreira, tendo inclusive sua própria produtora de filmes pornôs, sofre este acidente e é abandonado por todos seus antigos amigos. Sua vida agora é um dia de cada vez, tentando minimizar as cicatrizes das terríveis queimaduras, que tiraram tanto sua beleza, como seu ânimo de viver. Ele pensa em sair dali apenas para, assim que possível, dar cabo da própria vida.

É quando entra em cena, vinda da ala psiquiátrica, Marianne Engel. Ela é uma paciente. Ela se aproxima e age como se os dois já se conhecessem há muito tempo. Na verdade, há 700 anos. Marianne diz que foi difícil encontrá-lo e que, quando consegue, ele está queimado novamente, pela terceira vez.

Sem ter para onde ir, nem nada melhor para fazer, o protagonista aceita as visitas daquela estranha mulher que fala com tanta convicção - talvez a convicção que só os loucos tenham - sobre o fato dos dois se conhecerem e de que são amantes. Sem nunca ter se apaixonado por ninguém, fazendo sexo apenas por profissão ou por diversão, ele sabe que não pode ser verdade que ele a tenha amado.

Quando os médicos tentam afastá-la, ele diz que ela pode continuar vindo, e a cada vez que vem, Marianne conta sobre quem ela é, e como os dois se conheceram na Idade Média. Fala de sua vida, de quando foi abandonada à porta de um convento, onde foi criada e se tornou freira lá. Tendo facilidade para aprender qualquer língua, com o tempo se tornou tradutora. Ela diz ter feito a primeira tradução de O Inferno de Dante.

Marianne intercala a história dela, com outras histórias tocantes sobre amantes que têm trágicos destinos, mas que mostram o quanto o amor supera tudo. O protagonista não sabe o quanto disso é da sua imaginação e o quanto disso é real. Ela trata os personagens como seus amigos e conhecidos. Pessoas com as quais ela travou conhecimento.

Algumas coincidências perturbadoras começam a deixar nosso cético protagonista cada vez mais atraído por Marianne, suas histórias e sua vida. Além de tudo isso, Marianne é a única pessoa que garante que o ama, independente da aparência grotesca que ele tem agora, pois como ela mesma diz, não foi sua aparência que a atraiu e, mesmo assim, você também estava queimado quando se conheceram a primeira vez.

Além de Marianne e os personagens das histórias que ela conta, o autor ainda recheou a trama com personagens cativantes ao redor do protagonista, como por exemplo, o psiquiatra que tenta ajudá-lo a lidar com sua nova condição, a fisioterapeuta japonesa, a médica da Ala de Queimados. Tantas histórias que simplesmente parece impossível que o livro tenha apenas quase 500 páginas.

Mas, depois que Marianne Engel entra na história é como se tudo passasse a girar em torno dela. E creio que gira, afinal ela conta suas histórias - da sua vida e de seus "amigos"- com tanto fervor e detalhes que o leitor se vê envolvido na mesma dúvida do protagonista: será ela uma louca muito criativa ou alguém que viveu tais fantásticas histórias. E o leitor se pega também, assim como o protagonista, não fazendo muita questão de saber, pois já ama Marianne Engel.

Apesar de falar sobre amor eterno, almas gêmeas e etc, o livro é tudo menos piegas. O ceticismo e o anti-romantismo do protagonista parece representar o homem, com suas idéias de praticidade e do que pode ou não ser real. Marianne parece representar a mulher, este ser romântico por natureza e dada a devaneios. É quase um embate entre duas forças. A descrença e a fé. O desespero e o amor.

É uma história de redenção, como diz a sinopse, mas, com o avanço da leitura, você começa a se perguntar quem estará redimindo quem.

Os detalhes sobre vítimas de queimadura, sobre a vida na Idade Média, sobre vikings e sobre o Inferno de Dante, torna quase impossível acreditar que seja o primeiro livro do autor. Sem contar o enredo tão coeso e cativante. Minha única crítica vai para o passado do protagonista que parece ser um pouco forçado e até mesmo coisa de amador. Não é muito crível. Mas isso se perde em meio ao todo e à personalidade de Marianne Engel.

No fim das contas, quando você terminar a leitura, talvez sinta que, assim como todas as histórias de Marianne Engel, a sua história, lendo o livro, também faça parte delas agora.

4 comentários:

Renan Cunha disse...

Você me convenceu. Agora vou ter que comprar e ler esse livro.

Rodrigo Harlan disse...

Parece ser bom. Obrigado pela dica.

Paula disse...

vai pra minha lista de livros que quero ler.

Obrigada pela dica

Anônimo disse...

Parece ser interessante...

(coincidência: tenho uma imagem de uma "anja" no meu computador...)
:-)

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