sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Mapa do Tempo


O TEMPO, UMA ILUSÃO PERSISTENTE

Conheci H. G. Wells quando assisti ao filme A Máquina do Tempo, do diretor George Pal. Isso foi na minha infância. Há muito tempo atrás. Mas, ao perceber naquela história o mesmo tom sonhador que impregnava minhas fantasias, me tornei fã incondicional do Sr. Wells (e por conseguinte do diretor George Pal, mas essa é outra história).

Com o tempo veria que Wells era realmente a síntese de tudo com que eu sonhava. Ou de tudo que todos os sonhadores sonhavam. Ele não só nos levava através do tempo, como também para lugares exóticos com criaturas metade homem, metade animal; tornava a invisibilidade possível, e até mesmo a invasão da Terra por alienígenas vindos diretamente de Marte. Isso muito antes do cinema dar forma e cor - à exaustão - a esses delírios.

Mesmo que suas histórias tivessem um tom melancólico e até mesmo trágico, na maioria das vezes, ainda assim, só o fato dele trazer à luz tais irrealidades, por si só, já trazia um júbilo aos seus leitores, quem sabe até contra a sua vontade, já que seus livros talvez quisessem ser parábolas para problemas mais sérios que afetavam a Inglaterra e o mundo.

Voltando ao filme - que foi adaptado do livro de H. G. Wells, A Máquina do Tempo - posso dizer, com certeza que ele moldou meu modo de ver a ficção-científica e me fez, até mesmo, querer emular isso em pequenos textos que escrevo aqui, de vez em quando. Vê-se que a influência foi grande, mesmo que ela tenha sido ampliada depois, por ler tantas revistas em quadrinhos e assistido tantos filmes com o mesmo tema, com destaque para a trilogia De Volta Para o Futuro. Mas, tudo começou ali, com H. G. Wells.

Wells até mesmo foi protagonista de um filme em que Malcolm McDowall o interpretava e o escritor viajava no tempo para enfrentar nada menos que Jack, O Estripador, que fugira de seu século para o ano de 1979. O filme se chama Um Século em 43 Minutos.

O legado de Wells era tão provocativo que nem o próprio autor escapava a ele.

E, por incrível que pareça, tudo isso é para falar sobre o livro O Mapa do Tempo, onde temos novamente H. G. Wells e Jack, O Estripador. Isso, por si só, poderia ser desanimador, e poderíamos pensar: ora, mais do mesmo. Mas, não é bem assim. O escritor Félix J. Palma consegue criar um livro tão original que já é um dos meus escritores preferidos desde já. Afinal, não é todo escritor que consegue me fazer chorar escrevendo ficção-científica.

Sim, eu me emocionei com suas páginas finais, onde o escritor faz um exercício de imaginação tão contundente e sincero, tão pueril e ao mesmo tempo crível, dentro dos limites da fantasia, que eu fui às lágrimas. E sou sincero ao dizer isso. Naquele momento quis poder estar diante do escritor e dizer, obrigado por realmente nos dar esse presente em forma de livro.

Mas, só vai entender isso, ao ler o livro, quem realmente gosta deste tipo de leitura. Fantasiosa, sem limites, imaginativa e não muito apegada ao racionalismo. Eu falo dos sonhadores, que não se importam que seus sonhos pareçam ignóbeis, na maioria das vezes. E, claro, quem gostar de ficção científica nos moldes de Wells e Júlio Verne.

Devo confessar, sobre o livro, que ele foi me conquistando aos poucos. Depois que o adquiri, quase que por acaso, comecei a ler por ter gostado bastante da sinopse, que por si só, não diz tudo sobre o mesmo. Não diz por exemplo, que o livro é dividido em três partes, cada uma delas sendo uma história. Cada história, apesar de ter um fim em si mesma, está interligada à próxima.

Dois elementos interligam as histórias: H. G. Wells e uma empresa chamada Viagens Temporais Murray. O primeiro é uma pessoa real, claro, o conhecido escritor. O segundo é, obviamente, uma ficção. Mas, "existe" no mesmo ano em que H. G. Wells publicou seu livro A Máquina do Tempo. Aliás, a empresa se populariza devido ao sucesso do livro de Wells, que fica bastante contrariado com isso, mas os motivos, só lendo o livro para saber.

Podemos assim notar que se trata de um livro de ficção (-científica) que tem como um dos personagens H. G. Wells. Este porém, não é exatamente o protagonista do livro, mesmo que na terceira e última história, ele seja o personagem-chave.

Cabe aqui dizer que não posso me detalhar muito sobre o livro e suas histórias, pois ele tem muitas surpresas e reviravoltas. Algumas de cair o queixo e outras de você se pegar sorrindo sozinho, enquanto lê. Outra coisa que cabe dizer é que o livro, por estranho que pareça, vai agradar a homens e mulheres, pois o autor sabe misturar como ninguém, romance, aventura e até mesmo ação. Seu estilo de escrita é quase poético, e as mulheres vão gostar da heroína da segunda história e, quem sabe, se identificar.

Mas, deixemos de lero-lero. A primeira história é sobre um rapaz, Andrew Harrington, um filhinho de papai, que sempre viveu na aristocracia, que se apaixona por uma das prostitutas que serão assassinadas por Jack, O Estripador. O autor usa como personagem, uma das prostitutas reais que foram assassinadas pelo famoso serial killer. Transtornado com o acontecimento, Andrew passa por 8 anos de pura depressão, até que decide se matar. É aí que se inicia o livro, com ele fazendo os preparativos para tirar a própria vida. Porém, é impedido pelo amigo e primo, Charles Winslow. Seu primo diz que tem a solução para seu problema, e mostra-lhe o folheto que anuncia a Viagens Temporais Murray. Ele promete levá-lo até lá e assim, Andrew poderá voltar oito anos no passado e salvar sua amada. H. G. Wells será persuadido a ajudar os dois com tais planos que podem alterar seriamente o fluxo temporal.

Como eu disse, o livro foi me conquistando aos poucos e essa primeira história me pareceu um tanto quanto enfadonha, pra dizer a verdade. O autor gosta de se alongar em descrições e no passado dos personagens, o que acaba sendo essencial para entendermos as motivações de cada um. Mesmo não estando muito animado, eu sabia que havia algo ali, e não abandonei a leitura um momento sequer. A segunda história me mostrou que eu estava certo.

Na primeira história ficamos sabendo de toda o passado do fundador da empresa, Gilliam F. Murray e de como ele conseguiu a proesa de viajar no tempo e de ter uma empresa que promove excursões temporais. A segunda história é sobre uma dessas excursões e de como a heroína, Claire Haggerty conhecerá o amor de sua vida... no ano 2000.

Vivendo em 1895, Claire sente-se uma pessoa deslocada, como se não fizesse parte daquela época. Suas idéias são avançadas e sua personalidade empolgante. Ela não se conforma com as convenções inglesas de seu tempo e não consegue se imaginar casada com um dos muitos almofadinhas a quem é apresentada. Junto com sua amiga, Lucy, ela embarca em uma das excursões da Viagens Temporais Murray, onde os passageiros poderão ver, em primeira mão, a guerra dos humanos contra os autômatos (não se usa a palavra robôs, que só seria usada pela primeira vez em 1921).

Claire, no entanto, não tem intenção de voltar para sua época. Ela quer, tanto ajudar na vitória contra os autômatos, quanto conhecer o bravo líder dos humanos conhecido como Capitão Derek Shackleton, cujo espírito corajoso a conquista e ela acaba se apaixonando. Porém, ela acaba tendo que voltar, a contragosto, para sua vida pacata na velha Inglaterra. Até que reencontra o homem do futuro por quem se apaixonou, que viajou ao passado para encontrá-la. E, para ajudá-lo naquela época, Shackleton contará com a ajuda inusitada de H. G. Wells, que vê a Viagens Temporais Murray atravessar seu caminho novamente.

Na terceira história, Wells deixa de ser um coadjuvante, ajudando outros personagens, para se tornar o protagonista, o herói, no sentido mais estrito da palavra. Numa bela homenagem, Palma transforma o escritor num vibrante personagem de ficção-científica que teria empolgado, quem sabe, até o próprio escritor.

Quando alguém vem do futuro e começa a assassinar pessoas na época de Wells, o dono das Viagens Temporais Murray vê seu negócio sendo ameaçado pela polícia. Então, Gilliam F. Murray pede ajuda a Wells para encontrar o assassino viajante do tempo. Porém, sem saber, Wells é um dos alvos do assassino. Assim como ele, também os escritores Bram Stoker e Henry James, autor de A Volta do Parafuso. O motivo? O viajante do tempo quer roubar seus livros antes que sejam publicados e tomar para si a autoria.

Wells se vê no centro de uma conspiração temporal e é jogado no futuro vislumbrando um tempo muito além de quando estaria vivo. Em suas mãos estará o destino não apenas seu e dos dois escritores, mas até mesmo do próprio tempo! Quer mais responsabilidade heróica do que isso?

Vale aqui um pequeno spoiler, que não creio afetar a leitura, pois é apenas um peça solta, que só fará sentido ao ler todo o livro. Palma faz uma bela homenagem - e devo dizer que foi aqui que chorei de emoção, eu confesso - ao colocar H. G. Wells dentro de um cinema assistindo ao filme baseado em seu livro, A Máquina do Tempo. Isso feito de uma forma tão fenomenal, tão criativa, que foi isso o que mais me emocionou.

O autor homenageou o escritor H. G. Wells, o livro A Máquina do Tempo, o diretor George Pal e homenageou todo aquele que um dia leu o livro e viu o filme, e sentiu aquela enlevação que transporta cada um de nós, não através do tempo e do espaço, mas através da realidade.

O Mapa do Tempo é, com certeza, um dos meus 10 livros favoritos de todos os tempos... com trocadilho e tudo.



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13 comentários:

Shisuii disse...

Maravilhoso!

^^

Shisuii

Yorga Babuscan disse...

Oi, Eudes!

A propósito do seu post, teve um episódio da primeira temporada do The Big Bang Theory onde os personagens conseguem uma réplica funcional da máquina do tempo do filme original. Um "must"! :-)

Falando em velharia, já leu uma HQ sobre um feiticeiro que enfrenta um bárbaro que tinha uma espada que, na verdade, era um demônio aprisionado na forma de espada por magia? O feiticeiro o vence detonando o mana da região que eles estavam com um feitiço cinético. Isso fez com que o demônio deixasse de ser espada e atacasse o bárbaro.

Não me lembro qual foi a revista onde li isso. Arrisco a dizer que foi nalguma com formato americano. Alguma idéia?

Se quiser me contatar, mande correio para yorgabr gmail ponto com ponto br.

Abração!

Eudes Honorato disse...

Nossa, Yorga. Não faço a mínima idéia, mas com certeza fiquei curioso!

Iburner disse...

Boas!
Antes demais parabéns pelo fantástico blog! Adorei ler e ver que as pessoas aderem provando assim a sua qualidade!
Aproveito ainda para informar que estou a iniciar um novo blog http://ofertasebrindes.blogspot.com/
Espero que o visites e aprecies tanto como apreciei o teu
Cumprimentos

Moziel T.Monk disse...

Senhor Eudes, você consegue convencer qualquer um a ler um livro. Suas resenhas são uma tentação à aumentar a sempre crescente pilha de leituras pendentes. Mais um pra fila.

Carimbos em Criciuma disse...

Fantastico. Demais.

Rodrigo Harlan disse...

Obrigado pela dica de leitura.

Anônimo disse...

Uma dúvida : Quais os outros nove melhores livros que você já leu ?

Eudes Honorato disse...

É modo de falar.

Anônimo disse...

E pensar que esse foi meu primeiro blog de sobre "coisas interessantes" na internet....... nem se incomode em responder... ta removido dos "favoritos"...

Anônimo disse...

Te acompanho desde o seculo passado, quando fazia scans de quadrinhos e eu era um guri fanatico por hqs, adorei seu texto, alias seus textos, a grande maioria deles me toca profundamente, parabéns pelo blog.

delto disse...

camarada, gostei muito desta matéria, eu sou um fã de scfi desde menino, e, entre outros escritores, ja li tudo do isaac asimov e do Hebert George Wells - mas, não achei o link pra download ....

Eudes Honorato disse...

Não tem link pra download :)

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