domingo, 5 de dezembro de 2010

Jerusalem Jones e O Velho


O VELHO
Um Conto de Jerusalem Jones


O velho acabou com todos. Ele se entrincheirou em uma vala seca, e matou cada um dos que vieram atrás dele. O xerife e seus dois ajudantes e 4 voluntários. Eu vim atrás da recompensa, que só entendi porque era tão alta depois que já estávamos a caminho e me disseram o que ele fez. Comecei a rir, quando me contaram que ele havia chacinado uma família inteira, sem poupar nem mesmo duas crianças pequenas. Eu achei que fosse uma piada. Pensei que o auxiliar Bradley estava tentando gozar com a minha cara. Afinal a família era chefiada por ninguém menos que Sanford Couper, caçador de recompensas aposentado, que resolveu casar e construir família. Mas, não deixou de ser o mesmo Sanford por causa disso. Mas, o velho acabou com ele, e com todos o que ele amava. E olha que Sanford nunca amou ninguém. Quando o auxiliar Bradley não riu junto comigo, percebi que a coisa era séria, e fiquei sem jeito.

Quando estávamos quase o alcançando, o velho se entrincheirou e como se estivesse possuído, matou logo dois dos voluntários, Jonesy e Foley. Pulamos para rochas próximas e nos escondemos meio sem entender o que estava acontecendo. Mas, o que esperar de um sujeito que matou Sanford Couper.

Depois de alguns minutos de tiroteio incessante (que aliás, ninguém entendia como a munição do desgraçado não acabava) o xerife Joachim Rose - que detestava ser chamado pelo sobrenome e por isso nós chamávamos - resolveu tentar uma emboscada, indo por trás, com um dos auxiliares enquanto nós dávamos cobertura. Claro, não funcionou. Rose e o auxiliar Potts foram para o inferno. E, sem o xerife no comando, os quatro voluntários não quiseram obedecer as ordens do último auxiliar e tentaram fazer as coisas de seu jeito. Morreram antes de entender o que deu errado. Sobramos apenas eu e o auxiliar Johnson. O velho estava conseguindo me preocupar.

Não pude culpar Johnson quando resolveu que era hora de bater em retirada e foi, de fininho, até o seu cavalo. Tentando se manter fora da visão do velho. Foi quando aconteceu algo estranho. Quando Johnson já havia cavalgado alguns metros, caiu, como que fulminado por algum tipo de ataque do coração ou algo parecido. Tenho certeza que não ouvi nenhum tiro. E, mesmo assim, Johnson estava fora da mira do velho. Se não fosse dia claro, eu teria ficado arrepiado. Agora, eram apenas eu e o velho. E foi quando, depois de matar a todos em silêncio, ele começou a falar comigo, mesmo sem eu entender como diabos ele sabia quem eu era:

- Não vai correr para a mamãe também, Jones? Seria algo assim que o seu pai faria, numa situação dessas. Você é como ele? Faz muitos anos que não o vejo e a você, bom, devo confessar que é a primeira vez que ficamos tão... próximos assim. Ele nunca falou de mim pra você, de seu amado avô, Jericho Jones?

- Seja lá como sabe meu nome, só posso dizer que meu avô morreu bem antes de eu nascer. Se quer se divertir antes de morrer, não tem problema, eu tenho todo tempo do mundo - disse eu, num dos piores blefes da minha vida. O calor estava acabando comigo e eu estava quase desmaiando. Provavelmente não teria chance contra aquele velho dos infernos.

- Jericho Jones, não é irônico? Bom, quem sabe seu pai não me odiasse tanto assim. Mas, dizer que eu morri, certamente foi algo que me magoou. Tudo bem, eu não guardo rancores, Jerry. Seu pai não era dos nossos. Algumas maldições, assim como certas doenças, pulam uma geração. E eu sei que você é amaldiçoado. Já escutei muito sobre suas histórias, de como se mete com as coisas mais estranhas, inclusive irritanto até os demônios. Isso me faz sentir orgulho de que você seja um Jones. Por outro lado, me cria certos problemas.

A única coisa que eu podia pensar era que o velho, de alguma forma, sabia quem eu era, e estava se divertindo, antes de acabar com a minha raça. Ele falava tanta asneira, que eu simplesmente desliguei meu cérebro, enquanto tentava imaginar como matá-lo e receber a maldita recompensa, que agora parecia ser muito pouca. Eu só podia fingir que estava caindo na conversa dele e fazê-lo falar mais. Quanto mais ele falasse, mais tempo de vida eu tinha.

- Meu pai era um homem corajoso a seu modo, Jericho, ou seja lá quem diabos você for. No seu modo de ver, um homem só tem valor se viver como um assassino, matando pessoas sem nenhum propósito.

- Oh, Jerry! Nada é sem propósito nesta vida. Os Couper não morreram em vão. Tudo faz parte de um plano maior. Eu sabia que você estava na cidade, sabia que viria com os outros, atrás de mim. Eu sei como você pensa e age. Somos sangue do mesmo sangue, e é do seu que eu preciso, e devo dizer, não fui eu quem escolheu assim, foi o destino.

"Jerry, Jerry. Eu tenho 637 anos. Sim, pode rir. Seu pai foi meu último filho. E o único propósito dele nesta vida, foi trazer você ao mundo e escolher seu nome. Pra viver tanto tempo é preciso se fazer acordos perigosos. Não posso nem imaginar a quantidade de descendentes que eu tenho por aí, mas nenhum deles era mais esperado por mim, que você. E, de certo modo, foi difícil encontrá-lo em meio a tantos. Pra viver eternamente eu não queria vender minha alma. Afinal, o que eu sou depende de quem eu sou por dentro, depende de minha alma. Era um jogo muito astuto que o demônio estava propondo. Se eu vendesse minha alma, seria um casca vazia que viveria eternamente. Babando, numa cadeira, como um débil mental, para todo o sempre. Mas, uma alma que fosse mais ou menos minha, eu podia vender.

"O demônio gostou da proposta. E concordou. Mas, novamente, tive de me cercar por todos os lados. Eu sabia que podia viver eternamente... se alguém não me matasse. Coisas como, cortar minha cabeça fora e tudo mais. Eu soube de casos assim, me informei. Então, deixei o demônio com água na boca quando prometi ao demônio que seria um descendente meu, vindo da Cidade Santa. Sabe qual é a Cidade Santa, Jerry? Bom, tenho certeza que alguém já lhe disse isso. Jerusalem.

"O problema é que eu nunca estive lá. Mas, podia ser alguém com o nome da mesma. Outro problema era que eu não podia simplesmente dar esse nome a um filho. O demônio não é tão idiota assim. O destino seria meu fiador. E o destino nunca me deixou de calças na mão.

"Meu tempo estava se esgotando. Eu já estava quase me conformando com o fato de que não podemos ter tudo que queremos. Eu estava bem longe daqui, e tinha até mesmo me esquecido de seu pai, entre tantos filhos espalhados. Mas, o destino trabalha de forma organizada. Tinha de ser a semente da minha última semente a trazer minha salvação. E minha vida eterna. Graças a Deus, o demônio também tinha seus interesses pessoais nesta história, já que me parece que você andou mexendo com amigos dele. Se não fosse isso, creio que eu já estaria morto. Agora só precisamos esperar anoitecer, para que as condições certas tragam meu amigo até aqui para podermos acertar nossas contas. Na verdade este é o lugar exato onde fizemos o nosso acordo. Destino, Jerry. Dest..."

- Velho, nossa, você fala demais. Seja ou não meu avô, você ao menos sabe contar histórias pra criança dormir.

Surgi atrás do desgraçado, que simplesmente acreditou que um chapéu e um revólver atrás de algumas pedras não se mexem por tanto tempo. Cravei a faca, que trazia no cinto, em seu pescoço e, com ele se debatendo e atirando pra todos os lados, forcei o máximo que pude, até ele parar de se mexer. Resolvi não me arriscar, e com uma pedra grande, que usei como marreta, bati com firmeza na faca, fincada em seu pescoço, até arrancar a cabeça do desgraçado, seguindo as regras que ele mesmo me ditou. Precisaria dela para receber a recompensa, então estava sendo prático também.

De tão cansado e com medo de ser morto por um velho decadente eu estava, que não registrei quase nada do que ele falou. Eu estava coberto de sangue e depois de enterrar seu corpo, me preparei para ir embora, avisar a quem quer fosse ser eleito o novo xerife, para vir buscar os homens mortos ali naquele deserto maldito.

Demorei mais do que deveria e acabou anoitecendo. O frio que fazia foi substituido por um vento morno e senti que era observado, mesmo que não pudesse ver por quem ou pelo que. Talvez fosse minha imaginação, talvez o cansaço junto com todo aquele sangue em cima de mim. O fato é que levantei o saco com a cabeça do velho e disse em voz alta, para o vento:

- O destino é uma via de mão dupla. - E fui embora daquele lugar maldito, assoviando uma canção que meu pai me ensinou.

Um comentário:

Anônimo disse...

Até que enfim meu velho.
Não se pode viver com medo.
A frase fica melhor em inglês que em português. Mas é isto ai.

Não há como deter este paradigma da internet. Que é o compartilhamento de arquivos.

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