sábado, 4 de dezembro de 2010

Dr. Antônio Carlos Mayall


MÉDICOS E MÉDICOS
Dr. Antônio Carlos Mayall



Em todos os segmentos de profissionais sempre existem os ruins, os bons, os excelentes e os péssimos. Os péssimos se caracterizam apenas por um detalhe: parecem odiar profundamente o que fazem, como se alguém os tivesse arrastado para aquela profissão, apontado-lhes uma arma. Não duvido que alguns pais oprimam os filhos para que sigam certa carreira pela qual não sintam a mínima atração. No entanto, acho que, depois que se tornam adultos, a maioria está apta a escolher seu próprio caminho, ajudando a si mesmo e às pessoas que seriam mal atendidas por alguém que não gostasse da profissão que exerce. Porém, no mundo da medicina, parece que a maioria detesta o que faz. Doze anos de "pesquisas" forçadas, me fizeram chegar a essa conclusão. Mas, toda regra tem sua exceção. Mas, vamos por partes.

Por 12 anos eu estive numa condição complicada de ser diagnosticada. Uma Síndrome do Pânico se associou a uma eplepsia, parecendo, no entanto ser uma doença só. Isso, para um leigo, com certeza é difícil de diagnosticar, para um profissional da área de saúde não deveria ser, na teoria. Demorou 12 anos para que um médico entendesse o que eu tinha, sendo que tive de mentir de início (depois de entender que só assim eu teria uma chance de diagnóstico correto) suprimindo os sintomas de uma das duas condições, no caso, a eplepsia. Depois desse tempo todo é que tive a "brilhante" idéia. Antes, porém, vivi um inferno na mão de médicos incompetentes, indolentes, péssimos e outros adjetivos nada agradáveis.

Ser atendido como se nem estivesse ali presente, com o médico preocupado apenas em rabiscar a receita e me entregar, às vezes nem levantando a cabeça para ver quem estava na sua frente, me deixava cada vez mais cético quanto a qualquer tipo de médico. Quando tentei passar por um atendimento psicológico, a falta de interesse da médica, que não mantinha nem mesmo um prontuário, ou sei lá, um bloco de anotações para se lembrar na semana seguinte do que eu dissera antes, me fez simplesmente abandonar essa idéia para sempre.

Na verdade, esse foi apenas a gota d'água. Eu já havia tentado uma vez anterior, em que fui a uma psiquiatra recomendada por uma chefe minha, que o fez até de muita boa vontade, quando viu uma de minhas crises. Fui lá todo pimpão, me sentei e relatei tudo que acontecia comigo. Depois de me ouvir, ela parou, me olhou bem sério e disse (para minha total incredulidade): "Isso que você tem é apenas algo da sua cabeça, não existe". A tentativa posterior citada acima, só me fez enxergar que ninguém conseguiria me ajudar psicologicamente.

Mas, 12 anos depois de tentar ser honesto demais, fiz o que já disse, menti sobre minha condição, omitindo alguns sintomas e deixando apenas os que indicavam uma Síndrome de Pânico. Assim, consegui fazer com que parassem de me jogar para lá e para cá, para atendimentos cada vez piores. Fui aceito no Instituto de Psiquiatria da UFRJ, o
IPUB. Apesar do nome, o atendimento é mais medicamentoso. Minha segunda tentativa com a psicologia foi lá e, como falei, não deu certo. Porém, ao omitir a eplepsia, consegui que me administrassem um remédio que eu nunca havia tomado nos 12 anos anteriores, a imipramina. Ele foi conjugado ao remédio que eu já tomava pra epilepsia, a carbamazepina.

Depois de anos tendo crises sucessivas, principalmente durante as refeições, elas foram diminuindo até parar por completo. Eu conseguia comer sem ter uma convulsão. Peguei o telefone, uma tarde em que eu almoçava, e contei a minha nãe que eu estava ali, naquele momento, almoçando tranquilamente. Senti quando ela prendeu a respiração e começou a chorar. Tendo acompanhado e sofrido com a maior parte de minha condição, ela merecia saber o quanto antes de minha melhora.

Porém, penso se eu não tivesse entendido que teria de omitir uma parte do que eu sofria, se teria dado certo. Depois de alguns meses eu contei todo o restante do problema, detalhando os sintomas de eplepsia também. Relatando como a Síndrome do Pânico ativava a epilepsia, mesmo que ela pudesse ocorrer sozinha, em raras ocasiões. Maa, geralmente, a segunda era uma consequência da primeira. Obviamente, não havia mais como me transferir mais para outro lugar e estou em tratamento lá até hoje, já há 8 anos.

Não posso reclamar do tratamento, mesmo que no fundo ele pareça um tantor formal, sendo que a cada dois anos mudam os médicos, que estão, na verdade, fazendo uma espécie de estágio ali. Uns são melhores, outros piores. Mas, ao menos, dá resultado.

Tive experiências decepcionantes com médicos de outras áreas também, mas cabe aqui apenas mais uma, antes que eu relate a experiência que realmente vale a pena. Quando fraturei alguns dedos do pé esquerdo fui, logicamente, atrás de tratamento. Passei por nada menos que três profissionais nesta área, todos fazendo a coisa errada, até que um quarto, que consegui indo a uma clínica particular, a Ossotrauma,conseguiu dar jeito. Para se ter uma idéia, em um dos hospitais, engessaram minha perna até perto do joelho, me impossibilitando de andar corretamente... E DEIXARAM OS DEDOS FRATURADOS DE FORA!

Bom, esses dias (mais de um mês já) foi minha esposa, a Lia, quem se acidentou, só que muito pior do que apenas alguns dedos quebrados. Na escola onde ela dá aula, alguém derramou detergente em uma escada, sem iluminação (mesmo sendo de dia fica mal iluminado), sem corrimão e ela prestava atenção nas crianças, alunos seus, que ela levava para baixo. Escorregou violentamente e seu pé esquerdo virou num ângulo de uns 45 graus para o lado esquerdo.

Nada podia ser feito com gesso, precisaria sofrer uma cirurgia. Conseguimos que um ortopedista viesse aqui avaliar a situação e ele disse que sim, seria necessário uma cirurgia logo que fosse possível. Para isso, no entanto, exames preliminares precisariam ser feitos. Muitos exames. Entre eles o chamado "risco cirúrgico" que um médico precisaria dar, sendo que não seria ele. Ela teria de fazer exames de sangue, eletrocardiograma e mais algumas radiografias. E tudo teria de ser feito em casa, ela não tinha condiçoes de se locomover, pois mesmo se eu a colocasse numa cadeira de rodas, colocá-la e tirá-la em um táxi poderia acarretar pequenas batidas com o pé que estavam fora de questão, devido a dor.

Então, entrou em cena o Dr. Antônio Carlos Mayall, clínico geral e angiologista. Médico, por assim dizer da família. Mais conhecido por ela como "Dr. Carlinhos". O Dr. Mayall cuidou da avó da Lia - na verdade, sua mãe de criação - que morreu aos 105 anos de idade, algum tempo antes de eu me casar com ela. Lia sempre me contava sobre como ele a atendia bem, e sempre aqui, no apartamento. Até mesmo o atestado de óbito ele emitiu, sem cobrar nada por isso.

Lia sempre o elogiava e, estando casado há 10 anos com ela, eu já a havia acompanhado em algumas consultas a ele. Ela até mesmo pediu que eu me consultasse com ele, sobre minha condição e ele nos indicou um especialista que ele conhecia. Não continuamos o tratamento com ele, devido ao preço exorbitante, fora de nossas codições. Mas, ao menos o Dr. Mayall tentou.

Todo esse tempo, ele até mesmo veio aqui uma ou duas vezes, atender a ela ou à Tia Adhamyr (tia de criação de Lia, filha da avó dela que morreu aos 105 anos), que mora conosco. Mas, nada que fizesse meu ceticismo com médicos ser debelado. Pra mim, não era nada demais o que ele fazia. Até que aconteceu esse acidente com a Lia, e precisamos dele para os exames preliminares. Ele não faria todos, mas daria o laudo final e o risco cirúrgico. Foi então que o Dr. Mayall me surpreendeu.

Novas radiografia tiveram de ser feitas em casa. O sangue para exames vieram coletar. Mas, eu ainda não sabia como se faria o eletrocardiograma aqui. Até que chegou o Dr. Mayall e o vi examinando a Lia, e segurando um aparelho retangular que, quando percebi, estava fazendo o ECG. Além disso, fez os exames de praxe, os quais ele os faz metodicamente. É um exame completo. Quando os resultados das radiografias chegassem e os exames de sangue também, ele viria dar os laudos e o risco cirúrgico. O preço da consulta foi quase simbólico, principalmente se comparado ao preço que o ortopedista cobrou por atender em casa.

Então, assim que todos os exames e radiografias estavam aqui, o Dr. Mayall veio novamente, sempre no horário certo que ele combinava. Novamente examinou Lia totalmente, leus os exames de sangue e as radiografias e deu o risco cirúrgico. Apesar de não ser muito falante, o Dr. Mayall mostra em suas atitudes, como se preocupa com seu paciente. E isso ficaria provado mais tarde, de forma contundente.

Depois de escrever por mais ou menos uma meia hora, os laudos, e de ter aceitado o pequeno lanche que a Tia Adhamyr ofereceu, ele estava já indo embora. Porém, ao se falar em pagar sua nova consulta, nada conseguimos fazer para que ele aceitasse, querendo dizer que essa ainda era uma extensão da primeira visita. E ele não recebeu. Outro médico não teria feito isso. O Dr. Mayll fez uma nova consulta, quisesse ele admitir isso ou não.

Em todo o caos que se formou com o acidente de Lia. Todo o medo do que estava acontecendo do que estava por vir com a cirurgia e com os gastos que só aumentavam, em tudo isso, o único que nos deixava mais calmos, era o Dr. Mayall. Principalmente à Lia, que sempre o admirou, e se fazia bem a ela a mim o fazia.

Por fim, chegou o dia da cirurgia e, apesar do hospital não ser dos melhores, mesmo o atendimento tendo sido particular (Casa de Portugal), tudo correu bem. Para ser ter uma idéia da qualidade do hospital, uma das enfermeiras se escondeu no banheiro no quarto de Lia para nada mais nada menos que fumar. E ainda pediu pra ela não dizer nada. Estupefata como estava e mais preocupada com sua cirurgia do que com qualquer coisa, ela nem registrou a coisa direito.

Bom, quando eu estava em casa, e Lia no hospital, com sua tia, o telefone tocou aqui. Era o Dr. Mayall. Vale dizer aqui que meu ceticismo com médicos, me fazia pensar que o Dr. Mayall achasse que já tinha cumprido seu dever neste caso e que tudo agora estava a cargo do ortopedista. Mas não.

Numa ligação dificil - além do fato de o Dr. Mayall não escutar muito bem - eu escutava ele perguntando, gritando, como se estivesse em meio a muitas pessoas, como estava a Lia, se tudo tinha ido bem na cirurgia. Aquilo em si, me pegou de surpresa, e eu, meio estupefato, disse que sim, que tudo tinha ido bem, foi quando ele disse algo que, confesso, me fez chorar.

- É que estou saindo de um congresso agora, depois eu ligo pra saber mais.

Eu estava sozinho em casa (com Lucy), e era noite já. Guardei o telefone e fiquei meio pensativo. Pensava, que médico lembraria, assim que saísse de um congresso, de um de seus muitos pacientes. Que méidoco lembraria que ela estaria fazendo cirurgia naquele dia e, que tiraria de seu tempo para telefonar e perguntar como tudo correra. Fiquei emocionado por um bom tempo.

Lia veio para casa e hoje faz um mês de sua cirurgia. Nesse meio tempo, o Dr. Mayall não cansa de nos surpreender. Pedimos a ele que indicasse um novo ortopedista de sua confiança, para continuar o tratamento e deixamos com ele as últimas radiografias (bem parecidas com as da figura no topo do post). Na verdade, ele veio aqui buscá-las, sendo que eu poderia ter levado ao consultório dele.

O mais interessante foi que ele apareceu às 7:00 da manhã, pois disse que passaria aqui, já que tinha alguns problemas para resolver em Botafogo. Disse que veria com algum dos ortopedista que conhecia se eles poderiam atendê-la em casa. Ele levaria e mostraria as radiografias e viria aqui dar a respostas ou segunda ou sexta. Ele apareceu 8 da noite no mesmo dia. Sua resposta foi que o médico que ele conseguiu, não atendia em casa, então ele mesmo se comprometeu a fazer a ponte entre Lia e o ortopedista. Creio que isso é quase um abuso da nossa parte, mas ele parece não ver assim.

Analisando estes últimos acontecimentos, comentei com a Lia que um profissional de verdade é aquele faz além do que se é exigido dele. Claro que não precisa ser como o Dr. Mayall, mas ao menos fazer o que se é exigido dele. Ter uma preocupação genuína com cada paciente e não pensar apenas em ser pago. Algumas profissões são verdadeiros sacerdócios, mas alguns parecem que são ateus por excelência.


3 comentários:

Franci23 disse...

Legal essa historia, bom ver que ainda existem bons profissionais da medicina, coisa que esta em falta hoje em dia.

ashy_crow disse...

Kara, emocionante tudo oq vc escreveu; confeço q pensei q seria uma critica ferrenha ao comportamento do medico mas fiquei muito feliz ao perceber que estava enganado. É muito bom saber que ainda há profissionais assim, ainda mais na area medica.
Torço pela completa recuperação de sua esposa e sua tmb, claro, afinal já tem anos que acompanho o RAPADURA e tudo oq está ligado a ele q seria até indelicado não espreçar meu desejo de pronto reestabelecimento de seus entes queridos, não pelo blog ou por qualquer outra coisa mas pq nesse mundo louco em q vivemos e onde a internet realemente aproxima as pessoas, esse tempo todo q frequento suas muito bem feitas criações o tenho como um amigo, especialmente depois dos papos que rolavam no F.A.R.R.A., então ... é isso, melhoras e te vejo no proximo update do RAPADURA, um abraço a todos !!

Vinícius Fonseca disse...

é meu caro... me formo em medicina dentro de 1 ano e acompanho por dentro o problema que você relatou...
muita gente despreparada no ramo, seja no que tange o conhecimento teórico, seja na tão necessária lida com os pacientes... É triste, porém taídico, reconhecer essas falhas dos companheiros de profissão... acho que mais por esperança de que um dia todos se importem com o outro como me importo.
Desde já desejo melhoras rápidas à sua esposa! Felicidades à família!
De um leitor há anos já...
forte abraço, e um ótimo Natal a todos!

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