quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Jerusalem Jones: Epifania


JERUSALEM JONES: EPIFANIA
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Eu nunca tive problemas com os índios. Estava sempre entre eles, e eles me ajudavam e eu a eles. Eu não me metia em suas guerras e nem eles nas minhas. Claro que, algumas vezes, eu quebrava essa regra, e isso quase sempre me deixava em maus lençóis com os meus irmãos brancos. Mas, como geralmente eram meus "irmãos" do lado ruim da família, isso pouco me importava. E, índios salvaram minha vida mais de uma vez, mesmo quando não sabiam nem quem eu era. Coisa que eu nunca entendi o porquê. Quando eu perguntava a algum que falava minha língua, diziam apenas que eu era como um bom cavalo que não podia ser desperdiçado. Vou te dizer uma coisa, eu nunca sabia se isso era um elogio ou algum tipo de piada. Uma coisa ruim nos índios é que eles conseguem ser sarcásticos sem que você saiba.

Se estou vivo hoje em dia, mesmo depois de ter sido mordido por uma maldita morta-viva, agradeço aos meus amigos índios. O fato, é que eu estava passando algum tempo entre os Cherokees. Visitando o chefe Cavalo Cansado, ao mesmo tempo que evitava sua filha, Égua Lépida Que Cavalga os Montes em Busca de Companhia Para os Dias Tempestuosos. Eu a chamava apenas de Alice, que era mais fácil de lembrar. Ela estava tentando me arrastar para um casamento indígena. Principalmente depois que tivemos uma noite de amor, e ela cismou de me chamar na aldeia de Touro Abastado. Eu até gostava do apelido, mas não sou de me gabar. E não quero me casar.

Já era noite, com a aldeia em algum tipo de festa, que eu não sabia exatamente sobre o que era. Cavalo Cansado e outros maiorais da tribo fumavam suas ervas esquisitas e eu apenas perambulava, esperando não esbarrar com Alice. Fui para um canto mais deserto, apenas para dscansar um pouco, para enfrentar a longa viagem que tinha pela frente. Mas eu não estava só. Um indiozinho de uns 4 anos de idade estava me olhando, com cara de pena, como se eu estivesse morrendo de fome, ou algo parecido. Eu estava sentado, tentando cochilar, e ele ficava ali me espiando. De repente, abriu uma das mão e me ofereceu alguma coisa. Parecia uma avelã, só que menor. Para que ele fose embora e eu pudesse dormir, aceitei. Ele saiu correndo, aparentemente contente pela boa ação de alimentar um faminto. Preciso ganhar alguns quilos, essa minha aparência sempre confunde mesmo as pessoas.

Eu ia jogar a coisa que parecia uma avelã fora, mas senti a textura na mão e aquilo me instigou. O cheiro era bom. Não tinha casca. Meti na boca e mastiguei, sentindo estalar de modo bom, dentro da minha boca. Meus dentes trituravam e eu sentia uma espécie de seiva deixando o miolo. Aquilo era realmente bom. Quando terminei de engolir, senti quase que de imediato, minha língua e minha boca começarem a ficar dormentes, anestesiadas. Isso se estendeu para o rosto, pescoço, por todo o corpo. Eu estava me sentindo muito, muito estranho.

Caí de costas e fiquei ali, na areia, olhando para o céu estrelado. Podia sentir um filete de baba escorrendo da minha boca. Eu queria falar, gritar, chamar alguém, mas não conseguia. Estava paralisado, olhando fixamente para cima. As estrelas pareciam brilhar com mais intensidade, como grandes bolas de prata que explodiam. E seguida, uma a uma, elas começaram a riscar o céu, como estrelas cadentes, fazendo um barulho alto, mais ou menos como "vussshhh". Elas iam e vinham, riscando o céu, como se dançassem. Em seguida, uma música parecia estar tocando, dentro da minha cabeça, acompanhando o bailar das estrelas. Eu assistia a tudo imóvel. Mas não por muito tempo.

Senti que o solo abaixo de mim começou a se transformar em areia movediça, que foi me engolindo, mais e mais, até me cobrir por completo. Na escuridão, eu ainda respirava, sentia e ouvia. Vozes sussurravam palavras que eu não entendia, e outras se sobrepunham a elas, antes mesmo de terminarem de dizer fosse lá o que estivessem dizendo. A escuridão foi ganhando forma e vi algo se mover, no meio daquele breu. Parecia um vagalume, um pequeno vagalume, no centro daquele nada. Então, escutei uma voz que disse, como se respondesse a uma outra e entendi o que foi dito: "Sim, haja luz".

Senti uma dor terrível nos olhos quando o pequeno vagalume explodiu num bilhão de fachos de luz. mas não fiquei cego. Vi aquela luz toda revolvendo e revolvendo e se transformando em imagens. Mas eram imagens que passavam rápido demais, eu não conseguia distinguir quase nada. Tudo ia nessa velocidade crescente, fulminante, quando de repente parou e vi apenas a mim mesmo, como num espelho, olhando de um outro lugar, de um outro tempo. Meu reflexo abriu a boca para dizer alguma coisa e eu apenas via as palavras, mas não as ouvia. Não eram como palavras escritas, não sei como explicar, mas eu as via, eram sólidas, eu podia senti-las me tocar, passarem por mim. Agarrei uma das palavras e ela se contorceu em minhas mãos, e a palavra era "solte-me".

Ao soltá-la, ela se dispersou pelo ar e meu reflexo também. Quando pisquei, tudo mudou novamente. Eu via o passado a minha frente, e ele lutava com o presente para tentar chegar ao futuro. Era uma batalha épica em que muitos anos e séculos sucumbiram, e o sangue dos milênios manchava o solo. Um pássaro anunciou o fim da guerra às 13:00 de dia nenhum. Ao vencedor os despojos. Um desfilar de eventos históricos se tornou o prêmio e a coroa do campeão, era uma ampulheta. Eu não tinha mais tempo. Tempo tempo tempo tempo.

Sentia um ecoar em mim e me deixei levar. Um sino parecia tocar ao longe e o seu ribombar alterava a realidade. Comecei a me expandir, como um lago onde alguém joga uma pedra. Em ondas. Cada círculo uma nova revelação, tão pungente que eu não saberia expor em palavras. Outra pedra, e outra. Minha consciência se expandia, se alterava, se revelava para si mesma. Todos os significados da vida, e nenhum deles era segredo. Estavam todos ali, o tempo todo. Meus olhos não eram meus.

Afundei como um navio naufragado e fui na direção da racionalidade. Como um tesouro escondido nas entranhas da embarcação, meu eu se tornou algo a ser procurado, esperando que o X que marcasse o lugar não estivesse em um mapa, mas na palma de minha mão, e então, eu a leria como um cigano moribundo, e descobriria o segredo do fogo. Pois naquele momento eu ardia, como fogo, como uma febre e sentia cada segundo passar por sob meus pés. Cada pergunta me era respondida, mesmo antes que eu as fizesse. E o mar me levou novamente. Agora para o alto. Como uma tábua se salvação, emergia sobre a areia que me tragara. O dia estava claro. O sol queimava os meus olhos. E era apenas o sol, como um dia qualquer.

A aldeia vivia uma manhã como qualquer outra. Olhei em volta e, por mais que procurasse, não via o menino da noite anterior. Perguntei a alguns dos índios que passavam por mim, sobre o garoto, descrevia-o e ninguém parecia conhecê-lo.

Fui até Cavalo Cansado e contei-lhe o que aconteceu comigo. Ele me olhou de uma forma estranha. e disse apenas.

- Você bebeu bastante água de fogo antes de ir se deitar, Touro Abastado! He he he he - Fez uma cara enigmátia e foi embora.

Quando ia na direção do meu cavalo, vi Alice correndo na minha direção, gritando em sua própria língua, palavras melosas. Eu dei um salto e montei no Catapulta. Não sei se entendi tudo que me aconteceu, mas sei que as mulheres é que não nunca vou entender. Não quero me casar, raios!

E esporei o cavalo com toda força.


2 comentários:

Monio disse...

Valeu, Eudes. Estava com saudade do JJ.

Anônimo disse...

Fale ai Eudes.

Olha. Com a perda do Farra realmente perdi contatos precisos. Tinha uma postadora chamada amiga lusitana que tinha postado:
Solo mundo Canibal do Oscar Martin.

Estou procurando prá baixar este
e Solo los supervivientes del caos.

Quem souber trace umas linhas ai.

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