terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Cine São Francisco


O CINE SÃO FRANCISCO NO LOTE XV Minha infância passada numa sala de cinema


Lá estava eu, naquela sala escura, iluminada apenas pela tela, assistindo a um filme chamado Barracuda. Na época eu não sabia que era apenas mais um filme que aproveitava o sucesso de Tubarão, de Steven Spielberg. Na verdade, eu ainda não havia assistido Tubarão, então tentava me divertir com aquilo mesmo. Mas, era quese impossível. Mesmo criança ainda, eu sabia que o filme era ruim de doer. Que porcaria de peixes assassinos eram aqueles? Mas isso não importava. Nada importava. Bastava eu estar ali, curtindo o que eu mais gostava: cinema. O local? O Cine São Francisco, no bairro Lote XV.

Muito antes de eu ir a cinemas de "verdade", ver filmes lançados recentemente, eu ia ao Cine São Francisco, onde via filmes que eram qualquer coisa, menos lançamento. Os motivos para eu ir eram vários:

1) Era uma diversão barata. Não lembro agora quanto era cobrado, mas não duvido que fosse algo equivalente a, quem sabe, R$ 3,00 hoje em dia, para se assistir a DOIS filmes. A minha constância se dava por esse motivo, entre outros.

2) Não havia restrição de idade. Quer dizer, pelo menos não para minha idade. Eu devia ter de 11 para 12 anos quando comecei a ir e não parei mais. O dono do cinema (coincidentemente - ou não - de nome Francisco) era quem ficava na bilheteria, e deixava todos nós, moleques, passar, fosse que filme fosse.

3) O terceiro motivo era que eu não fazia idéia de que aqueles filmes não eram lançamentos. Para mim, caía na rede era peixe. Creio que ele tinha apenas o cuidado de não colocar filmes que já estivessem passando na TV. Fora isso, qualquer filme da década de 70 (e quem sabe até mais antigo) era lançamento ali, no início da década de 80.

4) E, por último, sempre tinha um filme ou outro de mulher pelada. E, novamente, a restrição era nenhuma.

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Não faço idéia de quantos filmes eu assisti lá. Dezenas, talvez mais de uma centena. Mas, infelizmente, nao lembro o título da maioria, como gostaria. Lembro de cenas - algumas bizarras - soltas de filmes que não sei quais são. Também, o fato de ter assistido muitos filmes na TV, na mesma época, faz com que me confunda e não saiba se vi o filme no cinema, ou em casa mesmo. Mas três desses filmes me marcaram e lembro bem o título deles até hoje.

Um deles é o já citado Barracuda. Esse título ficou na minha mente por toda minha vida. Não sei bem o porque. Talvez seja a sonoridade do nome ou o absurdo de um filme com um título desses. Ou talvez seja o simples fato de eu ter detestado o filme com todas as minhas forças e isso tenha feito com que eu nunca mais o esquecesse. Ainda assim, eu o assisti até o final . Se hoje em dia eu acredito que ele existiu é graças a sites como o IMDB, que me proporcionou encontrá-lo em seu banco de dados e ver que eu não sonhei - tive pesadelo - com aquilo.

Outro filme foi Zumbi: O Despertar dos Mortos. Na época eu não fazia idéia de quem era George Romero, e nem de que o filme era parte de uma trilogia. E mais, até aquele momento, eu nunca assistira a um filme de zumbi. Meus filmes de terror eram aqueles da TV, água com açucar se comparado. No máximo um Abominável Dr. Phibes, que já era suficientemente assustador para uma criança. Gente comendo gente só tinha visto em revista de sacanagem.

O fato é que quando eu vi um zumbi tirando um naco de carne do braço de uma pessoa, eu fiquei de olhos estatelados. Acho que acreditei que a cena era real, de tão bem feita, para a época (ou seria, para meus olhos?) Por um bom tempo aquela cena e aquele filme, com as pessoas presas dentro daquele shopping, ficou na minha mente. Na verdade, ficou por tanto tempo, que não esqueci até hoje, e estou aqui escrevendo sobre ela.

Mas, o terror só perdia para o quesito, filmes de sacanagem.

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Assisti muito filme de mulher pelada no Cine São Francisco. Creio que alguns até com sexo explícito. Lembro bem de uma cena que hoje em dia não parece verdade, de tão surreal. Mas não aconteceu em um filme, mas fora do cinema. Lembro que um dos filmes (eram sempre dois filmes exibidos) tinha um cartaz todo preto com letras brancas, pois era considerado pesado demais até para ter alguma imagem no pôster. Infelizmente não lembro o título.

O fato é que, quando chegou a vez de uma menina - eu nunca tinha visto uma menina tentando ver aquele tipo de filme, até aquele momento - ela foi barrada. O dono do cinema, obviamente, não a deixou entrar. Os meninos podiam, mesmo com pouca idade, mas menina, não! Foi o suficiente pra garota armar um escândalo na porta do cinema. Esperneava e gritava que queria porque queria ver o filme, pois todos nós estávamos entrando, então ela também podia. Mas não adiantou, o Seu Francisco não deixou. E ela se sentou na calçada em frente e ficou ali, emburrada, não sei por quanto tempo.

Apesar de não lembrar o título da maioria, sei que assisti coisas como Histórias Que Nossas Babás Não Contavam, Mulher Objeto entre outros. Porém, um título que me marcaria a ferro e fogo a memória seria Promiscuidade: Os Pivetes de Kátia. As pessoas se espantam com Amor Estranho Amor, e a cena de Xuxa Meneghel com o garoto é conhecida até no Usbesquistão, devido à fama da mesma. Porém, das cenas deste filme, nada se fala hoje em dia.

Feito dois anos depois de Amor Estranho Amor, ele levou o que hoje é totalmente politicamente incorreto, a um patamar acima. Um dramalhão com um fiapo de história para embrulhar as cenas de Kátia (uma loiraça gostosa) com um bando de garotos. Alguém como eu, na mesma idade que os moleques, hormônios a flor da pele, vendo uma cena daquela, entrava em parafuso. Era como uma fantasia daquelas que povoavam meu tempo no banheiro, se realizando. Só que não comigo!

O filme, diferente de muitos outros filmes eróticos nacionais, sumiu do mapa e duvido muito que ele seja exibido no Canal Brasil. Os tempos são outros e dona Kátia não pode ficar por aí mexendo com pivetes.

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O fato é que o Cine São Francisco moldou meu gosto para filmes bizarros e de sacanagem. Me dava chance de ver filmes que talvez eu só visse muitos anos depois, quem sabe quando adulto. Tudo bem que muita coisa "proibida" eu já via na Sala Especial, mas no Cine São Francisco eu já ia na certeza do que queria assistir.

O tempo foi passando, a chegada do VHS foi diminuindo minhas idas ao cinema. Fora o fato de que eu começava a ir aos cinemas de "verdade", mais distantes. Até que, um belo dia, passando pela rua do cinema me deparo com a triste visão do prédio ter sido comprado pela Igreja Universal. Era o fim de uma era. Me senti estranho, vazio, chateado. Mas, o dono tinha de seguir em frente. Obviamente ele não tinha mais o mesmo apelo que no início. Os tempos estavam mudando. Ele também era dono de uma casa de material no mesmo bairro.

Relembrando do cinema e de seu dono, lembro até mesmo da casa onde ele morava, uma quadra em frente a do cinema. E puxando a memória mais um pouco, lembro que sua esposa foi minha professora de matemática. Ela parecia um pouco com a Odette Roitman e sua índole era quase parecida com a da personagem de Vale Tudo.

O tempo passou e, assim como seu cinema, Seu Francisco também se foi. Ele provavelmente não soube o quanto me influenciou. Seu cinema foi tão parte de minha vida que às vezes me pego sonhando que estou novamente lá, de volta. Mas não entro, apenas olhos os pôsteres. Fico olhando os filmes diferentes, estranhos, insólitos, que eu só podia assistir ali. Eu não entro, porque sei que se eu entrar, o cinema desaparece, então fico ali mesmo, esperando que aquele momento nunca acabe. Esperando que o rolo de filme jamais termine.

12 comentários:

raimumdo disse...

bela crônica!
como renato russo contou a vida de muitos casais em eduardo e monica,voçe acaba de contar a história da infancia-adolescencia da gurizada aqui da cidade.filmes sem censura,bancos de madeira,fitas que paravam pela metade,kung fu,seriados,etc.a única diferença é que nosso sonho foi entre 1972 e 197...?
obrigado por trazer boas lembranças!

Rodrigo Harlan disse...

Ia muito aos cinemas aqui de João Pessoa. Havia o Plaza e o Municipal. Bons tempos.

vander disse...

ahahaha aqui em piracicaba também tinha um cinema antigo que deu um lugar a uma Universal, ou sera que você não é daqui?

Anônimo disse...

Não consigo achar Promiscuidade: Os Pivetes de Kátia, por favor m de um link
e aki em mogi mirim tinha o cine são jose q assisti amor estranho amor rs

Eudes Honorato disse...

Pivetes de Kátia não existe pra download, em canto nenhum da internet.

Anônimo disse...

Esse poster do filme Promiscuidade é bem inadequado pros tempos atuais. Creio que hoje os envolvidos na produção do filme seriam acusados de corrupção de menores.

renato disse...

Oi Eudes td bem?Sua historia é parecida com a minha no Cine Boa Vista (Coelho da Rocha)nos anos 70 com filmes chineses e de terror "B" mas lembro bem do Cine Sao Francisco na rua da feira,a proposito em que ano ele fechou?

Gilmar disse...

E o filme estreia no Canal Brasil, dia 25.11.2011 - 00h 15m. Abs.

Anônimo disse...

Promiscuidade, pivetes de katia esta sendo exibido agora no Canal Brasil.

Anônimo disse...

O filme foi exibido no Canal Brasil, mas cheio de cortes!
Não vi o filme, mas sim o seu chocante trailer ao assistir "Excalibur" no Odeon com a minha mãe!

CUrioso - BH disse...

Legal. O mais interessante é que o tal fime (Pivetes de Kátia) passou no Canal Brasil esta semana !!!

ADEMAR AMANCIO disse...

Na internet já se encontra a Katia,porém,sem os seus pivetes.Vi na tela grande também.

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