sábado, 7 de maio de 2011

Ritual


RITUAL - MO HAYDER
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É sempre um prazer descobrir novos(as) escritores(as). Na pequena banca de livros usados e semi-novos sempre encontro livros que são vendidos ao dono pela mesma pessoa. Aparentemente eu e essa pessoa temos um gosto parecido. Nas primeiras páginas dos livros ela deixa a impressão que teve sobre a edição, em poucas palavras, escritas a lápis. Os livros estão sempre como novos, denotando que ela os leu com muito cuidado. Na primeira página de Ritual, estava escrito "Ótimo!" de uma forma bem entusiasmada. A sinopse em si não parecia denotar algo de tão extraordinário: mão decepada encontrada por mergulhadora da polícia e policial enncarregado com trauma de infância devido ao desaparecimento de seu irmão. Mas, aquele "Ótimo!" parecia não estar mentindo e, em outras ocasiões, aquelas anotações não me decepcionaram. Então, paguei os 15 reais pelo livro, praticamente novo. E descobri uma excelente nova escritora que acrescebto à minha lista de prediletos(as) desde já: Mo Hayder.

Para mim, um livro tem que se definir em suas primeiras páginas. É por elas que eu sei se vou lê-lo rápido, devagar, ou se não vou nem passar do primeiro capítulo. Quando li a primeira página de Ritual, onde, nesta única página, há a descrição de um lugar de mergulho radical, que fica em uma província da África do Sul, chamado Boesmansgat (Bushman's Hole), eu sabia que não ia conseguir parar de lê-lo até terminar. A dona original do livro o leu em dois dias, segundo suas anotações. No entanto, o livro não é sobre mergulho, apesar de uma das personagens centrais ser uma mergulhadora da polícia. E, apesar de o livro ser um suspense policial com toques de terror, ele também não é apenas sobre essas coisas. É um livro sobre pessoas. Pessoas, em sua maioria, complexas.

A história inicia com Pulga Marley (sim, Pulga é um apelido), mergulhadora da polícia, encontrando uma mão decepada num dos portos de Bristol, onde nossa história se passa. Designado para cuida do caso, Jack Caffery é um policial que veio de Londres, fugindo de seu passado traumático. Tanto ele quanto Pulga têm um passado que os faz carregar o fardo de uma culpa que, na verdade, não é deles. Pulga perdeu os pais em um acidente que o livro demora para revelar, por isso não o farei aqui. Já Jack teve seu irmão sequestrado, estuprado e assassinado, quando os dois eram crianças. O livro deixa isso claro logo de início, nos dizendo que foi por um pedófilo, morador doas arredores. Como nunca conseguiram provas, o homem nunca foi preso. Com o passar dos anos o homem acabou se suicidando e Jack amarga o fato de a justiça verdadeira não ter sido feita.

.Se o livro virasse filme, logo de cara, devido a esse ponto em comum, provavelmente Jack e Pulga viveriam um tórrido romance ou se tornariam parceiros contra o crime, perseguindo os bandidos e "aprontando altas confusões". Mas não é o que acontece no livro. Pulga é mergulhadora, não investigadora. Os dois são quase como dois personagens em duas histórias distintas, mas ligados pelo fio condutor da mão decepada o do mistério que a envolve. E esse mistério parece ser sombrio, assustador, inenarrável.

Entremeando as histórias de Pulga e Jack, há o relato paralelo de Mossy, um viciado tentando se livrar das drogas, mas que, no fundo, não tem a força de vontade necessária, e está apenas atrás de mais droga, com as pessoas que frequentam os centros de recuperação. É quando ele é abrodado por um africano jovem como ele, e pequeno, tão pequeno que poderia se passar por uma criança. Ele tem uma proposta sinistra para Mossy: levá-lo até um lugar distante, vendado, para que lá possa tirar um bocado de seu sangue, em troca de uma boa quantidade de heroína. Mossy percebe o quanto é perigosa, estranha e sinistra a proposta, mas está em crise de abstinência e resolve confiar em Magrelo (o apelido do pequeno africano). Daí pra diante, acompanharemos a trajetória de Mossy através do livro, por capítulos entremeados.

Enquanto isso, a investigação continua e revela uma segunda mão decepada, mas nenhum corpo. Apesar de terem sido achadas na água, descobre-se que elas foram originalmente enterradas em frente a um bar, e essa localização e o fato de o dono do bar ser africano, dão as pistas de que tudo isso pode fazer parte de rituais supersticiosos envolvendo contrabando de partes humanas para suprir todo tipo de crença vinda dos confins da África para a Inglaterra.

E, cada vez mais somos apresentados a personagens que recheiam o livro e tornam a história cada vez mais complexa. Pulga tenta descobrir mais sobre o acidente de seus pais usando uma droga alucinógena para tentar entrar em contato com sua mãe morta. Droga essa legal, segundo amigo de Pulga desde que ela era menina e que conheceu seus pais. Pulga acha que conseguirá as respostas que precisa e que a farão ter paz.

Jack Caffery pediu transferência de Londres para Bristol não apenas para fugir do passado. Além de estar no caso das mão decepadas, ele persegue um sem-teto, um assassino condenado que cumpriu sua pena e agora anda por vários lugares, aparentemente a esmo, tendo ganhado assim o apelido de Andarilho. Jack sabe que o Andarilho não deve mais nada a justiça e não é procurado, mas quer encontrá-lo para saber algo. Porém, o que o Andarilho tem para contar não sairá assim de graça.

Apesar de estarem todos no mesmo livro é como se esses personagens orbitassem sobre si próprios. Estão distantes uns dos outros, mas ligados ao mesmo tempo. O livro parece conter várias histórias separadas, mesmo que elas aconteçam ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Podemos acompanhar os dramas de Pulga, Jack e Mossy. Podemos ter medo do Andarilho e do Tio (chefe de Magrelo) mesmo sem esse nunca aparecer. Podemos sentir a entidade que parece permear toda a história: a superstição!

Não se sabe se é isso que mais assusta ou se os dramas das pessoas, suas culpas e seus traumas. Coisas que podem acontecer no mundo real e que não dependem de nenhum escritor.

Mo Hayder surpreende criando uma história sombria, tenebrosa, onde o maior terror parece estar em descobrir a nós mesmos e ter a coragem de olhar em nossos próprios olhos escuros.



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3 comentários:

VaneZombie disse...

Bom ter alguém pra compartilhar descobertas literárias. Achei a capa do livro tenebrosa e logo pensei em um livro de terror (sorriso se abre). Mas, parece bem mais profundo e o seu último parágrafo indica isso muito bem.
Vou ter que pegar emprestado futuramente...

Alvaro Trigo Fernandes disse...

Eudes, desculpa te encher de novo (é o Alvaro, doador frustrado de revistas :P). eu mandei mail pra vc e não recebi respostas... da uma olhada na caixa de spamm ou lixeira.

grato ^^

rob disse...

também fiquei muito curiosa com o livro!

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