quinta-feira, 4 de agosto de 2011

James Cartago Estréia


JAMES CARTAGO: CRÔNICAS DE UM ESPAÇO VAZIO


James Cartago era um nômade. Alguns gostavam de designá-lo como um errático. Mas Cartago detestava este tipo de brincadeira. Vivendo no mundo e no tempo em que ele vivia, Cartago não gostava de ser como todas as outras pessoas. Afinal de contas, era o século XXVI. Ano 2577. Não havia porque se apegar a pessoas, coisas, ou lugares. O certo era estar sempre em movimento. E era isso que Cartago fazia.

Graças aos avanços tecnológicos, ele já contava 202 anos de idade, se é que sua memória não estava falhando. E, com essa idade, ele já vira quase tudo que havia pra se ver. Mas, Cartago sabia, o Universo estava sempre pronto a nos surpreender com alguma coisa nova, fosse ela boa ou má. Singela ou caótica. Bastava virar em um quasar diferente e tudo podia mudar, ser novo, assustador, estupefaciante, se é que existia tal palavra.

Era com estes pensamentos em sua mente arredia que James Cartago viajava pelos escombros tecnológicos de uma Cidade-Arquivo. As cidades-arquivo foram um idéia imbecil que, quando não deu certo, foram destruídas sem dó nem piedade. Pelo menos não morreu ninguém. Pelo menos ninguém que fizesse alguma diferença para a Humanidade em geral. Ninguém lamentou o fim das cidades-arquivo. Mas, cartago gostava delas. Conseguia boas coisas por lá, mesmo que, às vezes, tivesse que travar o bom combate com outros pilhadores, mesmo que ele não se denominasse como um. Cartago era um colecionador. Ou gostava de pensar em si mesmo desse modo.

Chovia fino, mas constante, dando um ar mais sombrio a todo aqueles prédios entulhados. Cartago deslizava serenamente com sua hoverbike, pouco se importando se estava molhado até os ossos. Gripes e resfriados já não existiam a pelo menos 86 anos. Coisinhas persistentes que eram. Nem o cãncer foi tão difícil de se erradicar. Na garupa da hover, Cartago levava seu fiel amigo Spike. Cabe aqui um adendo, cartago sabia que Spike era um nome óbvio demais para um cão, mas o diacho do cachorro tinha cara de Spike!

Ele parecia um pastor alemão, mas Cartago achava que ele era apenas um vira-lata metido a besta. E, talvez por isso, gostasse tanto daquele cão. Não importava o que você era na vida, ma o que você queria ser. Spike era assim. Um pastor alemão, o mundo querendo ou não. Suas pernas traseiras eram biônicas há um bom tempo, e Cartago detestava lembrar o acidente que o obrigou a colocá-las no cão. Na verdade, um dos olhos do cachorro também era biônico. Mas isso era comum. Os humanos e animais de estimação tinha mais partes mecânicas que um liquidificador. Aquelas coisas que trituravam comida. Lembra?

Cartago mesmo tinha o braço direito biônico e 3 dedos da mão esquerda. Esses membros não davam superforça, como nos hiperfilmes que se fazia aos montes. Não que não existissem, mas apenas a polícia e outros agentes da lei podiam usufruir de tais tecnologias. Ah, e claro, alguns criminosos. Mas a falta de conhecimento sobre como utilizar tais coisas, levava geralmente um criminoso a acabar arrancando algum outro membro do corpo, geralmente algum não-recuperável. Cartago não dava a mínima para superforça, ele sabia se virar bem. Armas não rastreáveis, era tudo de que precisava.

Estacionou próximo ao prédio onde lembrava de ter visto o que estava precisando. Deixou Spike vigiando a hoverbike, que ganiu, meio insatisfeito. Spike ganiu, não a hoverbike. Cartago subiu os degraus - era bem estranho existir lugares que ainda tinham degraus - pois não queria gastar energia do e-Teleporte. Nem energia, nem pulsos. Era caro se teleportar pela interweb.

Claro que ao chegar ao andar certo, 16 andares acima, Cartago parecia ter 300 quilos em cada perna. O ruim de tanta tecnologia é que você esquece que seu corpo ainda precisa se movimentar constantemente. Mesmo Cartago, que fazia isso, sentia o peso do Admirável Mundo Novo, em cada uma das pernas. Sem pensar muito ele entrou pela porta arrombada e começou a olhar pela grande sala, onde havia todo tipo de bugiganga. As cidades-arquivo bem poderiam se chamar cidades-museu. Ali estava guardado quase tudo de quase todos os tempos passados. Mas, as pessoas não estavam nem aí para o passado. Na verdade, faziam de tudo para esquecê-lo.

Cartago conhecia pelo menos uns 15 idiomas. Uns 3 desses estava esquecidos há alguns séculos. Era o caso do português. Cartago estudou o idioma para um trabalho que precisou fazer e conseguiu reter a maior parte do que aprendeu. Quando estava fazendo a entrega de uma peça a um comprador, um dos amigos do fulano perguntou casualmente se Cartago conseguia músicas. Ele disse que isso era bem difícil. Quase impossível. Nem as cidades-arquivo continham mais esse tipo de material. Ainda mais se fosse tão antiga quanto ele imaginava que alguém daquele circulo de amizades de fulano, poderia estar querendo. Então, só para desencargo de consciência, Cartago perguntou qual era a música que ele estava querendo.

Quando o homem disse, Cartago sentiu um estranho dèja vu. O título era de uma música em português. Provavelmente do Brasil, hoje conhecido como Ágravar e que, há muito tempo, não falava português. Ele lembrou de alguma coisa. Algo que viu numa das cidades-arquivo. Não pode ter sido a música. Ninguém vê música. Mas foi algo que Cartago viu! Algo a ver com o título da música que o estranho homem velho queria.

Cartago não prometeu nada, mas disse que entraria em contato. Deixou o assunto de lado por vários meses, até que se viu indo na direção da mesma cidade-arquivo relacionada ao dèja vu. Chegando lá foi como se soubesse todo o caminho de cor. Através de toda aquela bagunça, de toda aquela quinquilharia, depois de tudo aquilo, do outro lado da enorme sala, havia uma outra porta. Na porta estava gravado o título, em português, da música que o homem velho queria.

Cartago não entendeu bem, mas foi até lá, e examinou a porta. Não havia tranca. Não havia modo de abrir. Era hermeticamente fechada. Ele a olhou por um bom tempo. Nesse momento desejou que seu braço biônico tivesse superforça. A porta não era nada frágil. Também pensava que entre ele e os 300 mil créditos prometidos pelo homem velho, estava aquela maldita porta.

Depois de refletir um pouco e de ver que apenas o título da música era o que estava na porta e mais nada, Cartago imaginou algo e resolveu pôr em prática: falou em voz alta o título: Naquela Mesa! A porta se abriu. Cartago piscou várias vezes. Várias pessoas reunidas ao redor de uma mesa, com instrumentos antiquíssimos, cantavam a tal música:

Naquela mesa ele sentava sempre
e me dizia sempre o que é viver melhor

Naquela mesa ele contava histórias
que hoje na memória eu guardo e sei de cor

Naquela mesa ele juntava gente
e contava contente o que fez de manhã
e nos seus olhos era tanto brilho
que mais que seu filho
eu fiquei seu fã

Eu não sabia que doía tanto
uma mesa num canto, uma casa e um jardim

Se eu soubesse o quanto dói a vida
essa dor tão doída, não doía assim

Agora resta uma mesa na sala
e hoje ninguém mais fala do seu bandolim
naquela mesa ta faltando ele
e a saudade dele ta doendo em mim .



Cartago só voltou a piscar quando acabou. E, quando acabou, a cena ficou estática. As pessoas imóveis. Demorou alguns segundos para ele entender que era um holograma. Uma representação de uma cena antiga. Como ela foi capturada e colocada ali, ele só podia conjecturar. A tecnologia era inexistente naquela época, claro. O problema é que tudo estava tão real, quase palpável, que... oh, meu deus. Isso são memórias! Memórias de uma pessoa.

Ele andava por entre as pessoas da cena. No estabelecimento em que estavam se lia "Bar Carioca". Ele olhava os rostos, as roupas. As pessoas jovens ou de meia idade. As mulheres mais sensuais que propriamente lindas. Uma sensualidade recatada, estranha a Cartago. A música, os intrumentos, tudo parecia trazer uma energia que pairava sobre todos, mesmo com a cena estática. Era como se a música estivesse impregnada neles, e agora em Cartago.

Cartago teve um sobressalto ao ver que um dos homens, o que estava com o instrumento de cordas, lhe era familiar. Familiar demais. Mas, se fosse verdade, o cara teria pelo menos uns 600 anos, ou mais. Mas, Cartago não queria saber. Ainda ouvia a música tocar dentro de sua cabeça. A letra fazendo sentido a cada vez que relembrava. Lembrou de seu pai. Era estranho aquilo tudo. Precisava sair dali, mas tinha de levar a música, só não sabia como.

Aquilo tudo estava armazenado em algum lugar. A música e as imagens. O velho sabia que Cartago conseguiria não apenas a música, mas as memórias dele. Memórias perdidas a 600 anos. Cartago sentia uma vontade estranha de chorar. Detestava aquilo tudo. Queria sair dali. Mas tinha de completar seu trabalho. Precisava de dinheiro. Vasculhou todo o ambiente. A tecnologia ali era avançada, nem entendia porque estava ali, jogada às traças. Algumas coisas tinha até mesmo massa. Ele podia tocar o balcão, por exemplo. Droga, onde estaria o recipiente?

Cartago estava nervoso. O homem que cantou a música parecia acompanhá-lo com os olhos. Não fazia idéia de seu nome, nem queria saber. Ele parecia repreender Cartago, como se ele estivesse roubando. Certo, ele ele estava, mas ao menos era por uma boa causa. Memórias devolvidas. Por um preço, eu sei, mas devolvidas. Cartago esbarrou com a mão em um pino, embaixo do balcão, e empurrou. Um disco do tamanho de um anel caiu em sua mão. Então toda a cena se apagou. Era o recipiente. Respirou fundo e saiu dali.

Sua mente ainda lhe pregava peças. Antes da porta voltar a se fechar pensou ter visto a cena reiniciar, e pensou ter ouvido a música, que se repetia em sua cabeça, mesmo ele tendo a ouvido apenas uma vez. Cartago achava que nunca iria esquecê-la, pelo resto de sua vida. Desceu as escadas correndo e pulou na hoverbike. Spike acordou do cochilo, ganiu e depois voltou a se acomodar. Cartago partiu.

Ele entregou a mercadoria. Resolveu não fazer perguntas e o homem velho também não perguntou se era autêntico. Ele parecia já saber. Cartago também não perguntou como ele acessaria aqueles dados. Imaginou que o equipamento para isso custaria milhões de créditos. Mas, imaginou também que o homem tivesse esses milhões. Ele pagou sem pechinchar. Estava como que hipnotizado pelo pequeno disco.

Cartago se despediu, mas antes que saisse, o homem o chamou de volta. Deu-lhe algo embalado num recipiente que parecia couro, ou algo imitando. Era grande. Cheio de curvas. Lembrava algo. O homem não deixou Cartago abrir ali. Só disse, "é seu, vale mais pra mim do que o dinheiro que paguei. Se chama violão. Você vai gostar". Havia uma alça, e Cartago o pendurou nas costas e agradeceu, desconcertado.

Quando voltou ao hover, abriu. Era o instrumento que o homem tocava, na cena do bar. Estava novo. Se era o mesmo, Cartago não saberia dizer, mas parecia. Lembrou de como o homem usava, na cena e dedilhou. A música veio logo à mente, sem precisar se esforçar. Cartago não sabia tocar, mas o fez mesmo assim, e começou a cantar:

- Naquela mesa está faltando...

Spike começou a uivar muito, muito alto. Cartago parou, olhou para Spike e disse:

- Criticar todo mundo sabe.

Nota do autor: James Cartago é um personagem que nasceu inspirado em um calçado que comprei a umas semanas, da marca Cartago. Quando cheguei em casa só acrescentei o James.

10 comentários:

Franci23 disse...

Muito legal mesmo, fiquei imaginando uma HQ desse conto e devo dizer que seria alucinante.

Canal Hinha disse...

Spyke uivando um cartago que você compra e usa: estes apupos provêm em "virtude" dos calos ou da conta a pagar?

Hugo disse...

Caro Amigo.
Quero saber se esse é de um livro ou so deste conto? E também qual o nome do autor, caso não seja você que o tenha criado.
Bom acho que com essa pergunta um tanto entusiasmada so reforça o otimo conto descrito, meus parabens por essa postagem.

Eudes Honorato disse...

Hugo, toso os contos aqui são escritos por mim. Este não faz parte de um livro, foi feito apenas este conto até o momento, deste personagem.

Moziel T.Monk disse...

Caro Eudes, lembro bem quando você mencionou a ideia no Twitter de criar um personagem com esse nome. Acredito que você tenha acrescentado algum elemento biográfico nesse conto, pois coincidentemente esta música também me trás algumas lembranças de cunho paterno. E falando em pai, só uma curiosidade: essa música foi composta por Sérgio Bitencourt em homenagem ao seu pai, Jacob do Bandolim.
E falando em Twitter, você deletou sua conta?

Eudes Honorato disse...

Moziel, deletei sim. tava um pouco de saco cheio, mas estou lá no facebook.

nada a declarar disse...

ola eudes acho que ira gostar se pesquisar sobre o steam punk moda retro furista coisas bem legais

Anônimo disse...

Salve, Eudes.

Parabéns pelo personagens (para mim, Spike não é só um figurante...)!!!

Espero que vc continue produzindo mais contos sobre eles.

De todos os que já li no seu blog, este foi o melhor: futurista, mas com um pé no passado e brasileiríssimo!!!

Torço que venham mais estórias e, quem sabe, daí um livro.

Se conseguires traduzi-lo para o inglês, você faria um "big" sucesso como ebook para o Kindle o E-reader da Amazon.

Não sei se sabe, mas vc pode publicar livros lá em Português e Inglês, além de outras línguas.

Ficam o meu muito obrigado pelo ótimo texto e a dica para uma publicação internacional.

Ass: yylp

Andresqz disse...

Meu avô adorava esta música!
Parabéns pelo conto. Por favor escreva mais sobre o Cartago.

André.

Anônimo disse...

Grande eu Eudes parabens por seu conto. Nas minhas andanças de blog em blog procurando parcerias para meu site não encontrei conto tão intusiasmante e imaginativo como o seu. Novamente meus parabéns.
Se me permites gostaria de publicar este conto em meu site, fazendo referencia aseu blog é claro.

me de a resposta em meu e-mail

suporte@tanodiario.com.br

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