sábado, 1 de outubro de 2011

A Escada Me Leva ao Topo


A ESCADA ME LEVA AO TOPO

Eu parei um instante e olhei para o horizonte. A fina chuva que caía fazia parecer que tudo dançava diante dos meus olhos. Eu sabia que não podia ficar ali parado muito tempo. Precisava continuar subindo as escadas, mesmo sem saber o que existia no fim e além dela. Quando a encontrei ali, parada no meio do nada, espiralada, subindo até onde a vista alcançava, eu tive que subir. A curiosidade humana. Agora não posso parar, nem voltar. Na verdade, não quero voltar.

Quando acordei aquela manhã, Adriana não estava mais ao meu lado. Fora embora. Esfreguei os olhos, me espreguicei. Escovei os dentes e, depois de molhar o rosto, me dei conta de que Adriana fora embora já havia mais de três anos. Mas, sempre parecia ser hoje. O passado e o presente se confundiam em minha mente. Eu não me tornara uma pessoa melhor, nem pior. Eu era a mesma pessoa, só que sem Adriana. Pensando bem, isso até que não era tão ruim assim. Sorri para o espelho e me senti um pouco idiota ao fazer isso.

Era um domingo e eu não tinha que me preocupar em ir trabalhar. Percebi que não precisava ir trabalhar quando já estava me vestindo para sair. E fiquei ali, de camisa social, cueca e meias, tentando entender o sentido da vida: café. Café era a resposta. Pelo menos era a resposta para mim. Em todas as ocasiões. Se a vida fazia algum sentido, esse sentido tinha de ser forte, como um soco de um pugilista zangado. E quente. Quente por si só. Quente por ser café. Sem pugilistas.

Afastei a cortina e uma chuva fina caía lá fora e, estranhamente parecia me convidar para segui-la. Um cheiro de terra subia, se misturando ao cheiro do café que eu estava fazendo. Aquilo me trouxe lembranças interessantes. Misturadas. Eu me via de volta a minha infância e, ao mesmo tempo, deitado de costas num gramado, com Adriana cochilando ao meu lado. Acho que ela me fazia voltar a ser criança. Talvez eu tenha sido criança demais. Ela se foi. Há três anos.

Procurei não saber se existiam motivos mais, digamos, profundos. Apenas aceitei. Sou bom em aceitar as coisas. Ela quase disse "não é você, sou eu", mas eu consegui impedi-la a tempo, dizendo que "sim, sou eu". Ela fez uma cara estranha e resolveu não discutir o assunto.

Tomei o café e prestava atenção à chuva fina, através da janela. Os pingos batiam na vidraça fazendo um barulho baixo, frequente, quase hipnotizante. A fumaça do café subia pelo meu rosto e tudo aquilo parecia meio surreal, mesmo tudo sendo tão trivial. Resolvi aceitar o convite da chuva e peguei uma jaqueta e um guarda chuva. Quem sabe andar um pouco melhorasse meu humor. Apesar de não me sentir realmente triste ou chateado, eu me sentia... diferente.

Tranquei a casa e saí. Abri o guarda chuva e uma lufada de vento repentina quase o arrancou das minhas mãos. O cheiro de terra molhada estava mais forte, como se a chuva tivesse começado naquele instante.

Fui em direção alguma. Não estava andando para ir a algum lugar, apenas queria sair um pouco, assim pensava eu. O barulho da chuva no guarda chuva parecia continuar a "conversar" comigo. Como se tentasse me dizer alguma coisa. Talvez me indicar algum caminho ou, quem sabe, me contar as novidades do dia. Sem me importar muito com aquilo, segui na direção de um descampado, onde ao longe avistei alguma coisa que eu nunca havia visto por ali antes. Não conseguia definir o que era, por isso me apressei para chegar até lá e quando cheguei mais perto, pude ver: era uma escada de ferro, em espiral, que subia ao que parecia ser o infinito.

Fiquei parado ali um instante, pensando. Devo ter passado muito tempo sem vir por estes lados e alguma empresa construiu essa escada, que não imagino realmente para que sirva, já que não há nada aqui por perto, a não ser algumas árvores. Estranhamente, sem parar para pensar, eu comecei a subir. Eu me espantei comigo mesmo por fazer aquilo. Um impuslo um tanto tolo.

E agora já devo ter subido dezenas, talvez centenas de quilômetros. Semanas? Meses? Anos? Não sei. Não senti fome, nem sede, nem necessidades de fazer um ou dois, ou qualquer número que fosse. A única necessidade, era subir.

Eu já estava até mesmo entre as próprias nuvens e, apesar de não conseguir tocá-las, podia senti-las. A chuva que me levara até ali parou durante a minha subida e reiniciou várias vezes. E ela estava aqui, novamente, agora. Uma revoada de pássaros passou por mim, e me perguntei se eles deveriam estar àquela altitude. O que me levou a próxima pergunta: por que eu não estava tendo dificuldades para respirar.

Comecei a pensar que estava num daqueles sonhos que parecem reais, em que eu costumo me questionar porque estou sonhando aquilo, como agora por exemplo. Lembro de certa vez sonhar que estava num lugar totalmente estranho para mim, com uma auto-estrada ao meu lado, na qual não passava veículo algum. Lembro de, de repente, tomar consciência de que estava num sonho. Aquilo me desesperou, pois eu não conseguia acordar. Me sentia preso, como se nunca mais fosse conseguir escapar daquele lugar estranho. Mas, não me sinto assim agora. Há uma certa paz nisso tudo.

A chuva parou, fechei o guarda chuva e continuei a subida. Não demorou muito para que, sem que eu esperasse, o fim chegasse. E foi com um certo espanto que vi que terminava sem um lugar para adentrar. Era só a escada, cortada, como que por uma lámina, ou algo parecido. Aquilo quase me fez rir. Sentei no último degrau (ou seria o primeiro?) e tentei encontrar uma solução que não fosse apenas descer tudo aquilo de volta.

Enquanto eu pensava, um certo tremor tomou conta da estrutura e, num piscar de olhos, ela começou a desabar. Tentei me segurar, só que não havia nada para isso. Assim, desabei junto com a escada. Metal e homem caindo. Era um descida longa, mas eu morreria com certeza. Se não fosse com a queda, seria com aquele monte de ferro que estava vindo na minha direção.

A força do vento, na minha descida, fazia com que meus olhos ardessem e eu não conseguia mantê-los abertos. Sentia um ou outro pedaço da estrutura me acertar e a dor parecia impedir que eu desmaiasse. E também me mostrava que aquilo era tudo real. Ao menos a dor era real.

Não sei por quanto tempo eu caí, só sei que antes que eu me estatelasse no chão, alguma coisa me agarrou e me colocou de volta ao solo. Esfreguei os olhos e tentei ver o que era, mas não havia nada em volta, a não ser pedaços da escada por todo canto. Nada fazia sentido. Então decidi apenas voltar para casa, sem questionar mais nada.

***

- Alô, senhora Adriana? Temos boas noticias. Seu marido, ele abriu os olhos, e falou algo sobre voltar para casa sem questionar mais nada. Ele saiu do coma. Sim, depois de 3 anos seu marido está de volta. A queda da escada foi muito grave, mas parece que depois de tudo, ele deve ficar bem. Sei que está emocionada, mas ele vai ficar bem.

- Doutor, eu nunca disse isso antes. Mas ele apenas impediu que eu caísse. Eu caí para trás, por cima dele quando subia a escada. Não era ele pra estar em coma, era eu.



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2 comentários:

Marcos Barreiros disse...

Muito bom Eudes!
Hoje estava revendo "O reino dos gatos", downloads que fiz na época do site. Resolvi buscar no Google, "Rapadura Açucarada" para matar saudades do melhor e mais bem organizado site que naveguei. E que foi retirado graças a um bando de pessoas de pouca visão, que não merecem nem comentários, porém, apesar do tempo passado, ainda me revolto quando lembro do fato. No site, consegui uma relíquia, o primeiro filme de 18 anos que assisti tendo apenas 8 anos, Rsss!!! Coisas de uma época que faz parte de nossa lembrança. Mas o que quero dizer é que no desenho que assisti ocorre a mesma cena da escada. Nossa!!! Cheguei a arrepiar quando li o conto. A vida realmente é um mistério! Rssss!!! Caro Eudes, mais uma vez parabéns pela postagem.
Um grande abraço.
Marcos Barreiros

Eudes o-o-, disse...

Gostei bastante... ^^
Amo este blog.

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