sábado, 14 de janeiro de 2012

Minha Mãe e os Quadrinhos


A MÃE DE TODOS OS GIBIS
Como vim a cultivar o meu gosto por HQs

Image and video hosting by TinyPic

Estamos todos os quatro irmãos em casa, esperando minha mãe chegar das compras. A ansiedade é grande, por um motivo simples: como somos todos muito pequenos, quando ela fica longe muito tempo, um aperto no coração de cada um se faz sentir e, quando ela chega, parece que nos sentimos seguros novamente. Já sabendo disso (como ela sempre pareceu saber de tudo), ela trazia algum tipo de agrado para cada um. Para mim, ela trazia um gibi. E, a lembrança mais remota que tenho dela fazendo isso, é dela tirando de dentro da bolsa um gibi de O Mestre do Kung Fu, de quando era publicado pela Editora Vecchi (ou Bloch, não lembro direito). Para mim, aquele era o maior presente do mundo, mesmo eu mal sabendo ler ainda.

Minha mãe, que fez aniversário na sexta feira, dia 6 de Janeiro e, aos 65 anos nunca perdeu esse dom de incentivar a leitura, mesmo ela nunca tendo lido um único gibi. E, mesmo se pudesse, ela não conseguiria parar para fazê-lo. Digo que não perdeu, porque sempre me lembra de levar algum gibi para meu sobrinho de 11 anos. Seu único neto, Caio Vinícius. Ela se deleita vendo o gosto que ele tem pela leitura, o mesmo que ela via em mim.

Mesmo quando ela ficou sozinha para cuidar de nós e as dificuldades aumentaram, ainda assim ela nunca foi de reprimir minha vontade de ler mais e melhores gibis. Claro, que nesses tempos, os gibis assim como as vacas, eram magros. Lembro-me como se fosse hoje de uma vez em que estávamos num ponto de ônibus onde havia uma banca de jornal - que surpreendentemente está lá ainda hoje, mesmo que desativada - e ela me deu algo equivalente a um real para que eu comprasse uma revista do Pato Donald, a mais baratinha. O importante era ter algo para ler.

Aos 12 anos eu fui trabalhar e, claro, a maior parte do dinheiro ia para a banca de jornal. Isso fazia ao menos com que ela não tivesse que tirar de seu orçamento para comprar HQs para mim. Assim, sendo, de certo modo, eu estava ajudando. Para "piorar" as coisas, eu trabalhava a alguns metros da maior banca de jornal da localidade e passava por lá às 6 da manhã, para ver o que havia chegado, antes mesmo de ir para o trabalho. Essa foi a única época em que eu realmente colecionei HQs, chegando a acumular 500 revistas. E, sempre sobrava para minha mãe.

No caso aqui, era o fato de que eu tomava o espaço dela para poder guardar minhas revistas. Primeiro me apoderei de um pequeno armário, feito por um tio marceneiro. Fui colocando os gibis dentro dele e transformando-o na minha base. Porém, o armário era muito pequeno, e creio que não deve ter suportado nem 200 das revistas que acumulei. Eu precisava de um lugar maior, e já sabia qual.

Com o tempo apareceu lá em casa um armário branco, horizontal, enorme. Também havia sido feito por alguém, não lembro quem. Minha mãe e minhas duas irmãs guardavam tudo que era tipo de coisa ali e eu precisava me apoderar de pelo menos uma parte dele. Uma missão difícil, não devido a minha mãe, mas às minhas irmãs, claro. Mas, aos poucos fui colocando todas as revistas nele, e a quantidade só ia aumentando. Minha mãe, novamente, foi a conciliadora e evitou que eu fosse morto. Fiquei com a parte de baixo toda, que era enorme! Passava horas arrumando e rearrumando os gibis ali, coisa que nunca mais fiz em minha vida. Os que tenho hoje ficam, ou na estante, ou espalhado pelo quarto.

Quando cheguei aos 500, vendo o monstro que tinha criado, minha mãe olhou para aquela quantidade de gibis, olhou para mim, e disse a célebre frase que ela repetiria várias vezes durante a minha vida: "Tudo teu é demais, Eudes". Em parte ela estava certa. Não havia mais onde guardar tanta revista. Assim, tomei a decisão cruel de vendê-los todos e comprar a segunda coisa mais legal que os gibis (quando a gente é garoto, quero dizer): Uma bicicleta! E minha mãe apoiou alegremente.

Talvez essa seja a melhor das qualidade da minha mãe. Por mais insana que fossem as nossas decisões, ela sempre apoiou. No caso dos quadrinhos ela me ajudou a criar o gosto por eles. Ela é a minha Martha Kent e Tia May, só que mais jovem e engraçada!

Te amo, mãe!


2 comentários:

Paulo disse...

Belissimo post!

Canal disse...

Ter mãe é padecer no paraíso...

Business

category2