sábado, 28 de julho de 2012

Planetary


PLANETARY: QUADRINHOS QUE PRECISAM SER LIDOS 
É um Mundo Estranho, Vamos Mantê-lo Assim

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Para baixar a série completa, aqui

Eu estava um tanto quanto afastado dos quadrinhos há um bom tempo. Meu mundo se tornara outro na década de 90 e eu não lia nem comprava HQs. Não era algo que eu fazia por querer, não estava no comando completo da minha própria vontade. Em 1997 tudo voltou ao normal, e eu voltei a ler, mesmo que esporadicamente, alguns gibis. Voltei das trevas para a luz no mesmo ano do lançamento de Reino do Amanhã, de Mark Waid e Alex Ross. Foi um ótimo recomeço. Mas, eu ainda não era aquele Eudes de antes. Faltava alguma coisa.

Poucos anos depois comecei a acessar a internet e, logo em seguida, me casei. Quadrinhos pareciam uma coisa muito secundária ainda em minha vida. Mas, era algo adormecido, prestes a acordar, faltando apenas a motivação correta.

Ela chegou na forma dos scans. Anos depois de ter voltado a ler quadrinhos, eu descobri que podia compartilhá-los via internet. Uma nova era em termos de leitura se abria para mim e para muitos. Um novo modo de ler quadrinhos. Mas, não apenas de ler, como também de levá-los a outras pessoas. Era como se emprestar e/ou trocar gibis, assumisse uma nova forma, muito mais ampla, muito mais abrangente.

Para colocar os quadrinhos na rede eu precisava tê-los. Passei a comprar mais quadrinhos que em todos os anos anteriores ao meu retorno. Frequentava tanto as bancas de jornais quanto sebos e comic shops. Assim, acabei adquirindo revistas que me marcaram naquela época: Gerações, de John Byrne; Marvel Boy, de Grant Morrison; as minisséries Inumanos e O Sentinela, ambas de Paul Jenkins e com arte de Jae Lee. Porém, foi em maio de 2003 que eu me vi frente a frente com algo novo em matéria de quadrinhos de super-heróis.

Quando fui à banca de jornal, uma nova revista havia sido lançada. Na verdade duas revistas em uma: The Authority e Planetary. Era em formato americano (ou quase) e um título de cada lado. Não sei bem o nome deste formato, acho que é flip ou algo assim.

Os dois títulos eram escritos por Warren Ellis, que eu pouco conhecia. Mas, com certeza iria querer conhecer mais, depois daquelas edições. The Authority já mostrava a que veio. Era uma formação nova e com novo nome de um grupo de heróis da editora Wildstorm, que se não me engano, na época estava ligada à Image. O grupo era o Stormwatch, que tinha lá suas histórias bem dentro do contexto dos anos 90, onde os heróis eram músculos e roteiros ruins. The Authority mudava isso. Super-heróis que tomavam as rédeas da situação, atacando os vilões de forma dura e mortal. Nada mais de levar para prisões e/ou asilos de onde escapariam a cada nova edição. Mas, mesmo sendo muito bom, não foi Authority quem mais me empolgou, foi Planetary.

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Planetary #0, não publicado aqui, na época

Planetary era sobre um grupo de super-heróis que, na verdade, não pareciam super-heróis. Só podiam ser considerados como tais porque tinham superpoderes. Mas, se auto-intitulavam os Arqueólogos do Impossível. O grupo era composto por quatro pessoas, sendo que a edição #01 começa com a busca por um novo membro, pois estão desfalcados. Como isso acontece só será mostrado vários números a frente. No momento Jakita Snow (que tem superforça e uma razoável supervelocidade) vai em busca do solitário e misterioso Elijah Snow (que controla o frio) para recrutá-lo para o Planetary, que precisa sempre ter quatro componentes. O líder do grupo não participa da ação e mantém sua identidade em segredo. O último a fazer parte deste inusitado rol de heróis é Batera, um jovem que se comunica com qualquer aparelho eletrônico. Juntos precisam desvendar os segredos do século XX.

Tudo isso porém é a mínima ponta do iceberg de uma série que durou 27 números e ainda revelou um dos melhores desenhistas da atualidade: John Cassaday. O artista evolui a cada número e parece brincar de dar vida aos roteiros mirabolantes de Ellis. Os dois concebem uma obra que muitas pessoas ainda não conhecem, pelo simples fato de que sua publicação foi feita de maneira apropriada. Imagine então em 2003.

A Editora Pandora, que não era muito famosa pela qualidade e constãncia de seus títulos, logo o cancelou na terceira edição. Ao menos tiveram a decência de publicar o quarto número de The Autority, fechando o arco que haviam começado, mas sem Planetary acompanhando. As edições era histórias fechadas. Ou assim pareciam ser. O que eu só perceberia mais tarde era que Planetary era uma grande e única saga, montada de uma forma extraordinária por Warren Ellis, com várias peças de referências à cultura pop. Tudo isso formando um grande e único quadro. Mas, parecia tudo perdido quando o quarto número não veio.

Mas, eu já estava cativado. Minha reentrada ao mundo dos quadrinhos estava completa, e era um caminho sem volta. Aqueles três únicos números fizeram com que eu quisesse mais, muito mais. O número um trazia referências explícitas ao velhos pulps, onde nasceram personagens como Doc Savage e O Sombra. Em poucas páginas, Ellis faz uma analogia de como os super-heróis tomaram o lugar dessa forma de literatura, "matando-a" de forma repentina. Era só o começo.

O segundo número faz uma improvável ida dos pulps para os seriados japoneses de monstros, fazendo referência a Mothra e Godzilla. Claro, tudo isso dentro de um contexto bem mais "realista". Os mistérios vão se aprofundando, a cada passo. O terceiro número continua pelos lado do Oriente quando traz uma história praticamente saída dos filmes de John Woo. Coisas tão díspares como pulp fiction, monstros japoneses e filmes de ação são entrelaçadas de forma que só os Arqueólogos do Impossível poderiam fazer. E assim terminou. Ou parecia ter terminado
.

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Edição #3: John Woo

Naquele ano de 2003 os scans se limitavam a edições em papel que eram digitalizadas. Eu o fiz com as únicas três Planetary que a Pandora lançou. Mas, e daí em diante? Na época eu participava do Grupo de Cinema UOL, onde falávamos de tudo menos cinema. Foi lá que nasceu o Rapadura Açucarada. Eu o acessava através do Outlook. Mais tarde se tornaram independentes do UOL e fundaram a Trollnet. Antes disso, me ajudaram a ver que era possível continuar Planetary, bastava traduzir os scans americanos e letreirá-los em português.

Assim como eu nunca havia feito scans antes, também nunca fizera isso que estava sendo proposto. Fora o fato de meu inglês não ser suficiente para traduzir uma HQ coerentemente. Mas, novamente, os amigos se colocaram a disposição. Também me ajudaram a encontrar os tais scans, coisa que, na época, eu não fazia a mínima idéia de onde procurar. Assim, começamos a fazer não apenas Planetary, mas The Authority, também. O xodó no entanto eram os Arqueólogos do Impossível. Assim como a iniciativa de digitalizar HQ animou outras pessoas a fazer o mesmo, traduzir e letreirar também gerou novos adeptos. Logo visitantes do RA começaram a montar seu próprios blogs de tradução de HQs que não saíam por aqui.

Os números de Planetary que meus amigos traduziam, eu revisava e letreirava. Na verdade, fazia as duas coisas ao mesmo tempo. Isso fazia com que eu me aprofundasse bem mais nos detalhes da série, lendo e relendo, analisando os detalhes para entender o contexto de alguma frase a ser corrigida. Era o mesmo com The Authority, mas com Planetary isso era mais apreciado por mim.

Logo fizemos Planetary #0, que havia sido injustamente ignorado. Em uma história curta, mas contundente, Ellis nos apresenta a um general que conta sua estranha história acerca de um acidente em que um de seus cientistas se torna um monstro incrivelmente forte e violento. A referência é óbvia e Ellis dá a sua solução para tal infortúnio.

Em seguida fomos para o trabalho pesado, que era traduzir todas as edições publicadas até então. Não lembro em que edição se encontrava na época, mas já haviam muitas. A edição quatro era uma referência incrível ao Capitão Marvel (Shazam) e mais dos segredos de Planetary eram revelados. Na edição cinco, Doc Brass (referência a Doc Savage) que apareceu no primeiro número, reaparece para detalhar tudo sobre seu passado e seus amigos heróis daquela época.

O número seis é um baque para os leitores. Descobrimos contra quem o Planetary realmente luta, quem são seus verdadeiros inimigos. Para evitar estragar a surpresa de quem ainda não leu, só se posso dizer que é uma referência a uma das grandes criações de Stan Lee e Jack Kirby, colocados aqui como o nêmesis dos nossos heróis. Warren Ellis constrói uma versão tão maligna e tão mais poderosa desta criação de Lee e Kirby que a homenagem tem um gosto amargo, no bom sentido.

Daí para diante os números são feitos quase numa enxurrada, ate o #15, quando tive de parar por motivos de força maior. Porém, a tradução não parou. Os varios grupos que nasceram quase que a partir desse primeiro projeto, fizeram os números seguintes até o último. As referências pop são tantas que é quase uma loucura pensar que aquilo tudo seja, na verdade, uma única história.

Warren Ellis faz homenagens a Alan Moore, Neil Gaiman, John Constantine, filme de ficção-científica da década de 50, Marilyn Monroe, Matrix, Liga da Justiça, Jim Steranko, Nick Fury, James Bond, Tarza, Drácula, Frankenstein, Sherlock Holmes, Thor, O Tigre e o Dragão, Cavaleiro Solitário, Julio Verne, Galactus, e tudo isso embalado em fractais e dimensões paralelas. São tantas referências que algumas eu mesmo sei a que são.

Além disso, Planetary teve três edições de crossovers, que fizemos todas: Planetary vs The Authority; Planetary vs. Liga da justiça (o grupo de Ellis eram vilões nessa edição); e Planetary vs. Batman, que é simplesmente o melhor, além de ser o único dos três com a arte genial de John Cassaday.

A série demorou a ser completada pelos criadores, mesmo tendo apenas 27 números. Assumindo outros compromissos, tanto Ellis quando Cassaday não conseguiam concluir a série e os fãs ficavam impacientes. Assim sendo a série, com seus 27 números (e especiais) levou incriveis 10 anos para ser concluída, indo de abril de 1999 a dezembro de 2009.

Dois anos depois que se começou a traduzir os scans, em 2005, a Devir lançou um encadernado com os primeiros quatro números e mais o #0. Chegou a lançar mais um encadernado, mas a troca de editora começou a bagunçar a publicação do título por aqui. Os direitos passaram para a Pixel, que publicou um terceiro encadernado, englobando no total 18 números. Depois a Pixel perdeu os direitos, que passaram para a Panini e não tivemos mais Planetary até o presente momento.

Eu sempre digo que Planetary é uma série que todo fã de quadrinhos e cultura pop deve ler. Vou mais longe, até mesmo quem nunca leu quadrinhos deveria ler, pois creio que tomaria gosto pela coisa. Mas, se não for publicada em encadernados acessíveis (sem isso de capa dura que os encarece), muitos não poderão ler essa incrível HQ. Fica aqui meu apelo à editora Panini: que a publique da maneira que já faz com grandes obras como Y: O Último Homem, Fábulas, 100 Balas e outros.

Scans são ótimos para um acesso rápido aos quadrinhos, para um tour por esse mundo fantástico. Mas, não é a mesma coisa que termos em mãos, ler e enfeitarmos nossa estante com eles. Creio que ainda vá demorar umas boas décadas até que as pessoas se contentem em ler quadrinhos em seus iPads. Até lá precisamos manter esse mundo estranho, onde gostamos de tocar e cheirar nossos gibis. Não que eu faça isso, claro. Eu sou normal.

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O Batman de Planetary

8 comentários:

Galileu disse...

Uma das minhas séries preferidas, torço como você para que seja lançada desde o início em edições populares.

Alê disse...

oi, eudes, tudo bem? deixa eu me apresentar. meu nome é alessandro e, apesar de já o conhecer, de certa forma, há muito tempo, este post me fez relembrar tantas coisas que, enfim, resolvi escrever.
n lembro se foi por meio de seu site que conheci planetary e authority, 2 das revistas que mais gosto, além de pela qualidade das revistas, pq me fazem lembrar da minha iniciação no mundo das hq's.
o certo é que escrevo hj, o que já deveria ter feito há milênios, para agradecer por vc ter sido um dos responsáveis por me transportar para esse mundo maravilhoso. com certeza, sem o rapadura açucarada teria sido privado de experimentar tanta coisa...
vou deixar de papo. falar não é nada. apenas: Obrigado!

Eudes Honorato disse...

Alê, pode ter certeza que não foi trabalho algum, foi diversão, para os dois lados, tanto o meu, quanto o de vcs que baixaram. Obrigado pelas palavras.

Do Vale disse...

Cara, o Rapadura marcou uma fase da minha vida, junto com o The Pulse, Black Zombie e Blogzine...
Através de ti tive acesso Planetary, Authority, Preacher, Monstro do Pântano, Hellblazer e muito mais, material que tenho até hoje guardado. Esse teu post sobre Planetary fez bater uma nostalgia... Pena que a Panini ainda não trabalhou em cima desse que eu acho o melhor trabalho do Warren Ellis.
Abraço, meu velho.

Djinn disse...

Ta ai! Sempre ouvi falar , mas nunca li |: ótimo post !

Ali Coyoti disse...

Eu acompanhei a tradução até o desfecho de Preacher. Acho que foi em 2005.Foi fantástico. Planetary eu li por aqui tbm, e está entre uma das melhores coisas que a internet me trouxe, assim como este blog. eheheheh.Grande abraço!!!

Mario miguel neto disse...

Cara essa hq é foda sempre falo pra todo mundo ler.
Mas eu curto o trabalho do Warren Ellis.

RAITZ disse...

Então, Eudes...

Parece que a Panini leu seu post. Já está nas bancas e no formato sugerido.

Estou com um pé atrás de começar a comprar... li seu post e tal, mas, não consigo enxergar algo "novo". Parece que Planetary é só "referências" ao que já existiu. É isso, mesmo?

Abraços.

Business

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