sexta-feira, 20 de julho de 2012

A Banca de Jornal


UMA ÚNICA BANCA, UMA ÚNICA PAIXÃO Ou, Como Era Ter o Poder de Abrir Pacotes de Gibis

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Acordo às 5 da manhã em ponto. É quase sobrenatural a capacidade que tenho de acordar sem precisar de despertador ou mesmo que a mãe me chame. Dessa vez talvez tenha sido culpa do sonho estranho que tive, eu sentado em frente a um computador - coisa que nem existe na casa das pessoas - conversando com pessoas estranhas ou escrevendo. Escrevendo, até parece. Uma das coisas que mais detesto. Parecia coisa de ficção-científica, mas sem ação alguma.

O sol lá fora surge preguiçoso, ainda frio. Sua luz parece nem ter força para atravessar a velha telha de vidro que meu pai colocou sobre o banheiro. Talvez seja ela que me acorda sempre na hora. Nunca tinha parado para pensar, mas nunca vi uma telha de vidro na casa de mais ninguém. Coisa estranha.

Meu irmão continua dormindo, e também a mãe e as meninas. Apenas eu ando pela casa, indo ao banheiro, me vestindo e me preparando para ir trabalhar. Tento não pensar em como ainda é cedo e em como ainda estou com sono. Tento não pensar também em como será aturar o Seu Fausto em mais um dia tedioso naquela padaria sem movimento, onde só eu e ele somos suficientes para atender o público. Ao menos, nem tudo é perdido, tenho os gibis.

Nem parece que já fiz 13 anos e que estou lá há mais de um ano. O tempo voa. A salvação é a banca de jornal e os gibis. Por isso sempre acordo mais cedo do que realmente é necessário. Então desço as escadas que dão para a rua, tentando não tropeçar e rolar por elas, devido ao sono. O frio se faz sentir mais forte aqui fora.

Cruzo toda a Rua José Ferreira, como faço todo dia e vou andando na direção do Lote XV, onde trabalho e onde fica a banca de jornal. Vou num passo apressado, mania que peguei por andar tanto, todos os dias. Quem me ve andando assim, deve pensar que vou tirar o pai da forca. Mas, é só mania, não consigo evitar. Ao menos chego mais rápido a todo lugar que vou.

Passo ao largo dos campos de futebol onde o pessoal joga pelada todos os fins de semana. Acho que são dois ou três campos. Os morros de barro cor de rosa ao fundo me trazem algum tipo de lembrança enevoada, da infância, como se eu já tivesse estado lá, entre aquele sulcos que a chuva abriu. Mas se estive, foi numa idade tão remota, que não consigo dizer com certeza.

Passo pelo pequeno boteco solitário que fica a um canto dos campos. Estou quase chegando.

Quando a padaria se aproxima, atravesso a pista que me acompanha todo o caminho, e fico o mais longe possível da visão do Seu Fausto. Ainda não é o meu horário e preciso chegar à banca antes que eles já tenham começado a trabalhar. Gosto de ser o primeiro a saber o que foi lançado hoje. Saber quais revistas vou comprar para minha coleção que já deve ter umas 200 edições e só aumenta, para desespero da mãe.

De longe avisto a comoção que se faz quando estão distribuindo os jornais para cada garoto que trabalha para eles. Ali é a matriz e e as pequenas filiais se espalham por vários bairros. A maioria vende apenas jornal e, às vezes, um gibi ou outro, ou uma revista feminina aqui e outra ali. O objetivo maior é apenas vender jornal. Todo o resto se concentra ali, na matriz, que fica bem em frente à maior lanchonete do bairro Lote XV, a Maracanã. É um ponto estratégico.

Os donos da banca são três irmãos. Eles mesmo parecem saídos de alguma história do Thor. São grandes e metem medo. Mas são simpáticos e falantes, com excessão do terceiro que fica na banca no turno da tarde. É mais quieto e carrancudo e um tanto diferente fisicamente dos outros dois, apesar de também ser grande. Por sorte só venho no turno dos caras legais.

Já compro com eles há um bom tempo, desde que comecei a trabalhar aqui perto. Já estão acostumados à minha presença, quase como se eu fizesse parte da equipe. A Kombi branca também é uma parte de toda essa paisagem febril da manhã. Quando chego perto quase sou atropelado por garotos indo embora com sua remessa de jornais. Fico num canto esperando que tudo termine e eles comecem a arrumar o que tenha chegado de quadrinhos. Há dias que não chega nada, mas vale a pena estar ali naquele turbilhão. Porém, quando um dos irmãos me vê, olha pra mim e diz:

- Ainda vai demorar aqui, entra lá na Kombi e vê o que chegou!

Eu demoro a entender o que ele quis dizer com isso. A Kombi parece um território sagrado, onde não posso pisar. Sempre vejo os garotos pegando os fardos de jornal e separando, mas eles são da equipe e eu um mero observador. Ele vê minha indecisão e aponta para mim e para Kombi, como quem diz "vai logo, porra". Então eu aceito o desafio e entro no veículo. Lá dentro restam poucos jornais, mas há fardos amarrados com várias revistas, sejam elas de mulher pelada, de novelas e, entre elas, vejo os gibis. Está tudo amarrado tão fortemente que é impossível romper com as mãos. Além disso, estou tremendo.

Encontro uma tesoura jogada e uso-a para abrir os pacotes. Vou retirando as revistas que não me interessam. Ok, Playboy me interessa, mas se eu comprar uma não sobra grana para mais nada, e também não terei como esconder isso em casa. Portanto, vá para lá, Claudia Ohana. Quando penso que me enganei ao ver gibis, me deparo com a nova Heróis da TV e, procurando mais, vejo um Almanaque Disney e uma Espada Selvagem de Conan.

O movimento lá fora já cessou e os irmãos pegam as revistas que abri e levam para a banca. Eu seguro as três edições que encontrei, mas sei que só tenho dinheiro para duas delas. Escolher qual levar é a coisa mais complicada de se fazer. Saio da Kombi ainda indeciso e acho que um dos irmãos percebe isso, me olhando com uma cara engraçada.

- Vai acabar rompendo uma veia. Pode levar os três, depois você paga. Acho que tu já compra aqui a tempo suficiente para ter crédito.

Novamente pensei ter escutado mal. Tive de me controlar para não dar vexame. Disse apenas "valeu", e coloquei as revistas embaixo do braço e fui em direção ao trabalho. Já estava na minha hora. Quando atravessei a rua e estava perto da farmácia, olhei para trás, para a banca de jornal, naquele seu azul com faixas brancas pelo meio dela, e senti uma coisa estranha. Senti saudade, como se eu não tivesse atravessado apenas a rua, mas o próprio tempo, a olhasse para o passado, e soubesse que eu nunca mais teria nada igual aquilo.

Quando a sensação passou, eu funguei e pensei, que bobagem para se pensar. Mas, lembrei do sonho que tive esta noite, no qual eu escrevia em um computador que ficava em uma mesa. O que escrevia parecia ser tudo isso. Era como se o sonho se tornasse mais claro, e um dèja vu muito forte chegou a me deixar tonto. E olha que eu nem o que diabos seja um dèja vu.

8 comentários:

Manoel S de Paula Jr disse...

Tirando os perdoáveis erros de português, quase chorei ao terminar de ler seu post.... Existe déjavu reloaded?! Grande abraço Eudes.

Moziel T.Monk disse...

Seu estilo de contar histórias é ótimo, misturando reminiscências com esse tom de realismo fantástico.
Também tive algumas bancas nas quais tinha carteirinha de sócio, algumas durante muuuitos anos. Em uma delas eu cheguei até a ter conta (o que consumia boa parte de meus primeiros salários). Em outra de revistas usadas, de tão assíduo que era, aconteceu o mesmo que ocorreu contigo, do dono me oferecer o produto pra pagar depois.
Mas realmente o mais perto que fiquei de ter tanta "liberdade" em um estabelecimento foi em um bar que frequentava no qual eu tinha toda liberdade de pegar a cerveja direto no freezer atrás do balcão, quando não tinha paciência pra esperar o garçom...

Eudes Honorato disse...

Eu e meus erros de portugues rsrsrsrs, são uma constante.

Eudes Honorato disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thiago Xavier disse...

Oi, Eudes. Desculpe invadir assim sua postagem, mas queria saber se você topa uma parceria. http://hqcladestino.blogspot.com.br/

Antonio Bedran disse...

Emocionou, meu amigo. Tive uma experiência assim, de entrar na banca de revistas, não lembro minha idade na época mas era menos de 15 anos com certeza.

- 13 anos e grana ia (quase toda?) pras revistinhas. Tá explicado. O que mais admiro é seu senso de partilha. Dá uma trabalheira e o retorno é o prazer de servir.

Forte abraço!

Jorge André disse...

Muito bom, conheci o blog agora e já salvei nos favoritos. Essa história me cativou. Apesar da minha pouca idade (20 anos), já sinto saudades da minha infância, onde tudo tinha um gostinho de fantástico.

Anônimo disse...

Caro Eudes,
Indescritível a sensação de descobrir que apesar de nunca termos nos conhecido pessoalmente, passamos exatamente pelas mesmas coisas na infância/adolescência quanto aos quadrinhos. Assim como você (e outros tantos) também tomei gosto pela leitura numa banca de revista, onde mais do que "ter crédito" fiz grandes amigos, dentre eles os próprios funcionários que também me permitiam abrir os pacotes com as revistas novas. Por que diabos eles amarravam as revistas tão forte? Hehehe No meu caso as revistas não chegavam de Kombi, mas sim de bicicleta. Fui criado em Feira de Santana e até hoje quando retorno à cidade lembro de cada uma das bancas por onde passava a caminho do colégio. Eu ia em todas, sistematicamente, como fiquei sabendo depois, muitos amigos que fiz também faziam. Enfim, é impossível ter 13 anos novamente, mas sem dúvida é maravilhoso poder compartilhar essas doces e inocentes lembranças da época em que economizávamos dinheiro do lanche para comprar gibis. É isso. Abraço fraterno a todos.

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