quarta-feira, 11 de julho de 2012

História e Glória da Dinastia Pato


HISTÓRIA E GLÓRIA DA DINASTIA PATO Ou, Como a Censura Não Poupava Nem Walt Disney

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Desde muito pequeno eu li as história em quadrinhos Disney e, desde muito pequeno, eu sabia que nem todas as histórias eram produzidas lá, nos Estados Unidos, país de Walt Disney. Por alguns códigos que a editora Abril colocava no canto da primeira página, com uma inicial e alguns números, deduzi que haviam histórias feitas no Brasil, Holanda e... Itália, entre outros países. Isso e o estilo de cada país faziam com que eu tivesse os meus preferidos, sendo os dois primeiro lugares ocupados por Brasil e Itália.

Gostava das histórias produzidas no Brasil principalmente por causa do senso de humor mais aguçado, mais nosso. O estilo de desenho também me agradava. Também havia os personagens criados apenas para nosso consumo, como o Morcego Vermelho, Biquinho (o sobrinho do Peninha) e outros que me fogem agora. Personagens como Zé Carioca e sua turma eram, obviamente, os mais produzidos por essas bandas e os mais engraçados. Havia a possibilidade de expor toda a nossa brasilidade neles.

Já os italianos me agradavam pela ação e aventura. Hoje em dia percebo que isso é herdado do pai dos patos, Carl Barks. Porém, o traço era diferente, tanto do de Carl Barks (mesmo que se percebesse uma certa influência) quanto do traço brasileiro. Havia uma certa "elasticidade", como se fossem não apenas histórias em quadrinhos, mas desenhos animados. Mesmo tão pequeno, eu saltava as páginas dos gibis Disney e ia em busca das histórias brasileiras e italianas. Algumas vezes deixando de ler as de países dos quais eu não era tão fã.

No auge da minha fissura por quadrinhos, em que eu colecionava quase tudo que saía nas bancas, adquiri a Disney Especial #100, com a compilação de História e Glória da Dinastia Pato. Era uma saga toda produzida na Itália, contando o passado glorioso dos patos mais famosos do mundo. Na época eu não me dei conta, mas havia, no meio daquilo tudo, uma história produzida no Brasil, um capítulo que parecia não bater com todo o restante. Mas isso será explicado mais adiante.

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Eu também não sabia, naquela época, e na verdade só descobri há pouco tempo, é que a saga História e Glória da Dinastia Pato estava totalmente desfigurada e mutilada graças à censura vigente desde que o Brasil vivia sob uma ditadura que vigiava tudo no que diz respeito à imprensa e tudo mais que fosse publicado por aqui, mesmo que isso viesse de outros países e não tivesse sido escrito (e/ou ilustrado) com intuito de ir contra o sistema governamental brasileiro da época.

Que isso era algo já do cotidiano gráfico pode ser constatado no livro Maria Erótica e o Clçamor do Sexo, do jornalista Gonçalo Júnior. O livro narra as dificuldade de autores brasileiros de publicar HQs num período onde o Brasil não tinha liberdade alguma. No entanto, nada se diz sobre quadrinhos estrangeiros e, além de tudo, infanto-juvenis.

Comprei os dois volumes que republicavam História e Glória da Dinastia Pato em 2009. Mas, como muita coisa que tenho, ficou guardado e só li a obra este ano. Li e fiquei estupefacto com as informações adicionais que desta vez acompanhavam a história.

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Batedor de tapete apagado. Donald não
podia bater nos sobrinhos, mas no
mundo real torturar podia

A saga produzida pelos italianos foi publicada no Brasil pela primeira vez na década de 70, espalhada pelas principais revistas mensais Disney. As informações na excelente republicação de 2009 dão conta das muitas mutilações, entre alterações de quadrinhos, cortes dos mesmo e páginas e mais páginas suprimidas. Tantas que só mesmo a ignorância de um tempo sem internet para fazer com que os leitores comprassem e lessem como se fosse algo imaculado. Afinal, que criança imaginaria que seus sireitos estariam sendo estropiados. Além do mais, para todos os efeitos, era só uma revista infantil. Porém, reflete bem a paranóia de um governo obsoleto.

No entanto, uma coisa é mais triste. O texto dos volumes de 2009 deixa transparecer que a editora Abril se adiantava à censura, e ela mesma fazia os cortes, usando de uma censura interna, talvez por receio de ter seu material recolhido das bancas ou até mesmo de serem chamados para prestar explicações sobre o conteúdo "subversivo" das suas revistas Disney. Era a paranóia gerando paranóia. No quadrinho acima pode ser visto como "artistas brasileiros apagaram da mão do Donald o batedor de tapetes com o qual ele ameaçava espancar os sobrinhos", citando o texto da própria editora Abril.

Mais capítulos tiveram quadrinhos ou suprimidos ou modificados para não conter algum tipo de "violência excessiva", como quando um dos sobrinhos enfia um pergaminho na boca de um vilão e quando um antepassado de Donald tem as cordas de seu violão cortado por uma navalha por um antepassado de Gastão. Sem contar que o título da história O Grande Toureiro seria, originalmente, O Rei da Arena, mas teve de ser modificado pois "Arena" era a sigla de Aliança Renovadora Nacional, o partido da ditadura. Não seria de bom tom termos um pato sendo o rei do mesmo. Imagine a esculhambação!

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Quando publicado a primeira vez, este capítulo
teve oito páginas cortadas

O sétimo episódio quando publicado aqui pela primeira vez chamava-se apenas "No Mississipi", quando era na verdade "Os Canhões do Mississipi". Oito páginas foram cortadas e, sem mais nem menos, a história começa no quadrinho acima, depois de uma longa perseguição de barcos. Além disso, teve algumas sequências de quadrinhos suprimidas, tudo em nome da moral e dos bons costumes, evitando que as crianças tivessem contato com a falta de ética dos personagens e seus modos politicamente incorretos. Era bom para as crianças italianas, mas não para nós. Sem falar que o mesmo - ou pior - faziam o Pica Pau, Pernalonga e Tom e Jerry, na TV, diariamente.

Mas, o desastre da censura viria mesmo no último capítulo da saga. Na última história em que somos apresentados ao jovem Tio Patinhas, a editora teve que suprimir nada menos que 18 páginas! Mais um pouco e não haveria último capítulo. As rusgas entre o pai do Tio Patinhas e o Pai de Patacôncio são retiradas, assim como o modo desonesto com que o pai de Tio Patinhas ganha seu rico dinheirinho: vendendo cães que puxam trenós, que voltam para seu antigo dono, que os vende novamente. Que feio! Sem contar que o personagem também enrola sua amada em um noivado prolongado, coisa que as criancinhas não podiam ver de jeito nenhum. A história se torna uma ruína só.

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História adicional para completar tanto corte

Chegamos à década de 80 e a Abril relança toda a saga, agora na Disney Especial #100. Porém, ainda estamos vivendo os últimos momentos da censura no Brasil e todos os cortes permanecem. São tantas páginas faltando à obra original que simplesmente ela não alcança o número de páginas que compõe um Disney Especial. A solução dos editores foi criar uma história a mais, aqui mesmo, com o pessoal da Abril, para substituir tantas páginas suprimidas pela censura. A Quinta Mosqueteira é, assim, um "apócrifo" dentro de História e Glória da Dinastia Pato, não fazendo realmente parte dela. Foi o convencional "tapa-buraco".

Nos dois volumes de 2009 a saga é publicada na sua íntegra, sem corte algum e com as cores melhoradas. Além dos já citados textos complementares. Mas, assim como os brasileiros criaram uma história a mais, os italianos resolveram também acrescentar uma história "complementar", que achei totalmente desnecessária. A Quinta Mosqueteira não está nesta republicação por não fazer parte do material original, e isso era o certo a se fazer. Porém a história a mais produzida pelos italianos também não era necessária, já que não acrescenta nada e fica parecendo que foi apenas para terem páginas suficientes para desenvolver 2 volumes e não apenas um. Sem contar que o traço, mesmo ainda sendo no estilo italiano, difere muito do traço da década de 70.

Por fim, me pergunto quantas páginas eu deixei de ler por causa de cortes da censura. Como lia muito, isso pode ascender a milhares. E eu achando que o máximo de cortes que eu veria em histórias em quadrinhos seria o beijo de Tristã e Isolda em Camelot 3000, nos idos dos formatinhos de super-heróis. Mas nunca deixamos de nos surpreender com a ignorância humana ou, como diria o Pato Donald: - QUAAAAAC?!

7 comentários:

eutouaqui disse...

ola gosto de acompanhar este blog pois tambem informa , e nao so no brasil que havia a censura , em portugal tambem se praticava a mesma e se no brasil havia o "cuidado" de dar alguma continuidade as historias, em portugal e censura era descarada chegando ao ponto de por exemplo num filme estar-se a ver uma ação e de um momento para o outro passar-se para uma coisa 100% diferente sem existir qualquer tipo de continuidade, no entanto tenho que realçar que existia sempre maneiras mais ou menos inteligentes de contornar a censura.
por isso um vem aja a este blog que compartilha um pouco de sua memoria colectiva

Otávio (óqui) disse...

Olá Eudes!Faz tempo que não comento por aqui.Li o seu post e concordo com você.Apesar de ter 35 anos e não ter vivido essa época, me interesso bastante por esse período da história de nosso país.Isso ajuda a explicar muita coisa que acontece hoje em dia.Da sociedade em que vivemos.Quantos aos quadrinhos, o que a Editora Abril fez mesmo depois que a ditadura militar terminou, foi de uma grande sacanagem com os leitores também.Como por exemplo Camelot 3000, Demolidor, guerras secretas.Quadrinhos que eu li antes e depois quando foram republicados.Lembro que li uma entrevista em que o Marcelo Campos teve que modificar uma cena de uma hq do Demolidor.Ele como fã, ficou bastante decepcionado.E como profissional, fez o que mandaram ele fazer.
Ainda bem que isso tudo passou.

abraço procê!

óqui.

Gustavo disse...

Olá Eudes. Sempre me deparava com estes gibis de 2009 em uma banca que vende coisas mais antigas, mas a confundia com a Saga do Tio Patinhas do Don Rosa, que já tenho. Com sua matéria, percebi o engano e corri atrás, mas só consegui o volume 1, de forma que voltei a ler quadrinhos Disney depois de muitos anos graças a seu blog. Minhas histórias preferidas eram os da série Era Uma Vez na América, com aventuras do Michey e Pateta no passado americano, entre índios e bandidos. Nunca mais vi nada desta série, bem que poderia ser lançada completa também. Se tiver informações sobre ela, eu agradeço.

Anônimo disse...

Editora Abril... revista veja... é isso ai...

A Gibiteca disse...

Ola Eudes,

Muito bom o seu texto, eu li a "história e glória..." no Tio Patinhas de Ouro e depois no DE 100... Não reparei na época quanto aos cortes, mas ao ter acesso a saga completa, vemos até onde chega a imbecilidade de certas épocas...

Eu adquiri recentemente a revista "Tesori Disney 14" pois tinha o original da Abril "Olimpiadas 88"... Qual foi a minha surpresa ao notar quadrinhos faltosos, páginas inteiras e piadas modificadas para fazer sentido com a falta das páginas... Resumindo, tem mais de 20 páginas suprimidas no especial "Olimpiadas 88", algumas que tornam a narração com mais sentido do que nos foi apresentado...

Fazer oquê, né ?

Grande abraço...

Eudes Honorato disse...

Que tristeza isso. Só pq eram quadrinhos infantis, julgavam que não teria importancia já que ng ia perceber mesmo.

Ali Coyote disse...

Cara, leio teu blog há um tempão. Acho que desde 2005 e preciso te dizer que ele já faz parte da cultura quadrinística do Brasil. Tanto pelo acesso a materiais (ahahah), quanto por matérias desta categoria. Quem sabe um dia você não edita um livro com as matérias mais importantes? Afinal, estas matérias também compõem a história dos quadrinhos no Brasil e no mundo. Grande abraço.

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